sábado, 6 de fevereiro de 2010

Um templo das artes tipográficas em Nice


No número 16 da rua Defly, na Vieux Nice, trabalha um mestre das artes gráficas: Gilbert Fenouille. Herdeiro de três gerações de gráficos, Gilbert toca a tipografia La Lino com a dedicação e cuidado dos grandes profissionais das artes tipográficas.

Desde que estou em Nice passei algumas vezes em frente à La Lino mas sempre estava fechada devido ao horário. Hoje, sábado, como das outras vêzes tive que me contentar com a vitrine. Ali me deliciei com impressos em vários tipos de papéis, cores e técnicas relêvo em papel. Por entre os artigos expostos dava para vizualizar uma linotipo e um amontoado de ferramentas, cavaletes com gavetas de tipos tipográficos, quadros e esboços pendurados nas paredes de pedra.
Tudo me remetia à caixa mágica da Tipografia Alvorada onde me iniciei nas artes gráficas.

Não desistiria de desvendar aquele acervo raro de equipamentos e arte.
Continuei minha corrida matinal até o porto, passando pela praça Garibaldi e retornei por volta das 10 horas. Estava fechada ainda. Olhei novamente pela vitrine e vi o personagem, de guarda-pó azul, grandes bolsos de placa na frente, igual ao que meu tio, Pedro Flôres, usava na Tipografia Alvorada. Pensei imediatamente se aquela vestimenta seria um código universal dos tipógrafos que, por força da profissão, tinham consciência política por acesso aos mais variados tipos de publicações. Daí porque sempre surgem como personagens atuantes e organizados nos momentos políticos da história.
Ao me ver, Gilbert fez um sinal para que esperasse. Estava limpando os equipamentos. Esperei alguns segundo e finalmente a porta da La Lino foi berta. Gilbert me recebeu com simpatia e me estendeu a mão, dedos grossos com as unhas escurecidas pela tinta.

- Je suis journaliste brésilien et ne parle pas français, falei apertando a sua mão com cumplicidade.

- Vous parle italien? perguntou

Não, eu não falava italiano mas falava espanhol. Ele não.

Bem, já dentro da tipografia pensei: agora vamos nos entender em francês e no resto dos idiomas e dialetos do mundo. Na verdade a paixão pela tipografia foi o idioma que nos manteve por mais de uma hora em uma conversação frenética, revirando gavetas, puxando papéis e mexendo em máquinas.
Gilbert é um apaixonado, acho que caiu na lata de tinta quando era pequeno como eu, com a diferença que ele é um mestre. Perguntei sobre a linotype me respondeu que era de 1923. A La Lino foi fundada em 1900. Todo o trabalho ali é artesanal. Ou é preparado manualmente antes, na escolha do papel, na técnica, na tinta e depois leva um toque de impressão ou tem parte impressa e depois vem um tratamento onde entra a genialidade do mestre.
Subimos três degraus e tinha outra impressora.

- La
Heidelberg !!!

Exclamei surpreso diante de uma flamante impressora alemã considerada o Rolls Royce das máquinas tipográficas.
Gilbert sorriu satisfeito com o meu conhecimento e apontou para o seu relógio de pulso. Me dizia que funcionava como um relógio suiço. Perfeita!
Tinhamos o mesmo respeito por aquele equipamento gráfico de altíssima qualidade tecnológica. Quase uma paixão!

Comecei a abrir caixas de tipos (letras fundidas em antimônio e chumbo) e me surpreender com Times New Roman, Garamonds, Baskerville, serifadas, redondas e...enfim, todas as famílias tipográficas.

Uma das técnicas usadas por Gilbert Fenouille, que mais me impressionou, é a gaufrage.
Arte milenar de trabalhar o papel em relevo. Me mostrou vários trabalhos feitos por ele. Um deles foi um convite para o mítico Hotel Negresco de Nice, ícone da
Belle Epoque preferido dos Rockfeller, Hemingway e Scott Fitzgerald.

Falei com Gilbert que estava em Nice para ser grand-père (avô). Me olhou de forma terna e me chamou para outra sala onde abriu uma gaveta e retirou um pedaço irregular de papel vergé que dobrou delicadamente. Na capa uma flor com data em alto relevo. Pegou um envelope de papel linho e levou a aba à uma pequena prensa imprimindo, em baixo relevo, um selo onde está gravado em latim Gilbertus Foenicilum (?) Ex-libres.
Me entregou e disse que era para minha filha. Me despedi emocionado. Saí pensando de como foi possível todo aquele entendimento entre pessoas completamente diferentes, de lugares e origens tão distintas e que nem ao menos falavam o mesmo idioma. Mas falavam !

De alma lavada caminhei absorto em pensamentos sobre tudo aquilo e de repente não sabia mais onde estava. Dei por mim em uma esquina de bares e restaurantes turcos em ruas estreitas cheias de "mouros" (Tunisianos, Argelinos e Marroquinos) buscando o sol da manhã. Aí...bem, essa é outra história.
Au revoir

Alfa deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Um templo das artes tipográficas em Nice": Rubim e Fenouille. Existe um dito em francês que confirma a inevitabilidade de certos encontros."Les grands esprits se reencontrent!"
Anônimo Alfa

Viking deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Um templo das artes tipográficas em Nice": Sérgio Rubim, salve!

No início dos anos 1970 peguei essa mesma doença numa gráfica em Blumenau que imprimia o antigo e extinto jornal "O Lume", do decano da imprensa catarinense, Honorato Tomelin...
Havia duas máquinas linotipos e uma Heildelberg...
Talvez não tão brilhantes e reluzentes como as que você acaba de descrever, mas igualmente eficientes e perfeitas...
Saudades... Escrever e depois participar do trabalho que faz a folha impressa, no meio das provas, do cheiro de chumbo derretido, da tinha da impressora... Isso sempre foi uma cachaça para a nossag geração...
Compartilho, portanto, amigo... Dessa paixão...
E como se sabe, uma paixão não se explica...
Um abração do viking!
PS.: A viagem está sendo produtiva, estamos acompanhando e torcendo daqui, da Ilha, digo, do nosso Paraíso...
Até!

2 comentários:

Anônimo disse...

Sérgio Rubim, salve!

No início dos anos 1970 peguei essa mesma doença numa gráfica em Blumenau que imprimia o antigo e extinto jornal "O Lume", do decano da imprensa catarinense, Honorato Tomelin...

Havia duas máquinas linotipos e uma Heildelberg...

Talvez não tão brilhantes e reluzentes como as que você acaba de descrever, mas igualmente eficientes e perfeitas...

Saudades... Escrever e depois participar do trabalho que faz a folha impressa, no meio das provas, do cheiro de chumbo derretido, da tinha da impressora... Isso sempre foi uma cachaça para a nossag geração...

Compartilho, portanto, amigo... Dessa paixão...

E como se sabe, uma paixão não se explica...

Um abração do viking!

PS.: A viagem está sendo produtiva, estamos acompanhando e torcendo daqui, da Ilha, digo, do nosso Paraíso...

Até!

Anônimo disse...

Rubim e Fenouille. Existe um dito em francês que confirma a inevitabilidade de certos encontros."Les grands esprits se reencontrent!"

Anônimo Alfa