sábado, 22 de outubro de 2011

IMANÊNCIA

Por Emanuel Medeiros Vieira
“Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer.”   (Sêneca: 4aC - 65 dC)

Galos na madrugada
Galos no coração
em nuestra América.
Solar manhã: me contamina com os teus raios.
Garimpeiro ainda sou.
De barras de ouro?
Não: da perdida emoção, do sonho escondido no sótão.
Parabólicas afetivas – o menino e o velho,
sou um rio cheio de afluentes,
migrando sempre,
tão longe, tão perto.
Esse estatuto de miséria não é o nosso.
Famélicos de infinito: mapas tortos, bússolas quebradas.
E meu pai aparece na luminosa manhã – e ele já se foi há tanto tempo.
“Pais, nossas orações estão cheias de sujeitos ocultos, predicados mesquinhos, verbos frágeis.”
Ele só escuta – terno preto, aliança, colete, chapéu, relógio de algibeira.
Tudo é descartável, pai, nada fica.
Ele sorri, vai embora.
E o subcutâneo domingo irrompe além da pele.
E me lembro de um circo mambembe que ficou no subúrbio,
O mar já não me alcança – e a juventude longe.

Do dia, quero o sumo, não só o travo – e um piano corta a tarde.


Comentário: Emanuel: sua 'Imanência', tão iluminada, fez tb. meu velho pai, piauiense e transvivenciado há décadas, me visitar.

Obrigado.

Deus esteja e nos proteja.

Chico Alencar (RJ).

Belíssimo poema, Emanuel.
Realiza a sentença epigrafada de Sêneca, que valoriza a vida como aprendizado da morte.
Velha sabedoria pagã e profundamente humana, que dois mil anos da civilização ocidental cristã conseguiram transmutar na banalização a morte e nos faz desaprender o próprio sentido da vida.
Abraços do Aydos

Um comentário:

Fernando Evangelista disse...

Poema muito bonito e muito forte.