domingo, 29 de janeiro de 2012

FÁBRICA DE RACISMO

Por Janer Cristaldo

Um artigo de Rosa Montero, colunista de El País, publicado em maio de 2005, sabe-se lá por que internéticas razões, ressuscitou com força na Web. Terça-feira passada constava em primeiro lugar na lista “Lo más visto” em elpais.com

Vamos ao caso, conforme relata a colunista. Pelo que me lembre, a imprensa brasileira não o comentou. Em um comedor universitário na Alemanha, uma estudante pega uma bandeja de comida do selfservice e senta-se em uma mesa. Nota que esqueceu os talheres e vai buscá-los. Ao voltar, vê com surpresa que um jovem negro está comendo em sua bandeja. Duvida um momento, mas por fim, condescendente, senta-se para dividir sua comida com o intruso, que se mostra amigável e sorridente. Quando terminam de comer, o rapaz vai embora e, ao levantar-se, ela se dá conta de que sua bandeja está intacta, junto a seu abrigo, na mesa ao lado.

Comovente, não? A alemã racista acha que o negro apoderou-se de sua bandeja. Em um laivo de condescendência, consente em reparti-la com o negro. O bom negrinho nada objeta, apesar de a bandeja ser sua. A arrogância e o racismo europeus confrontam-se com a humildade e a generosidade africanas. Dá vontade de chorar.

Ao final do artigo, Rosa Montero alertava: “Dedico esta historia deliciosa, que además es auténtica...”. Deliciosa, pode ser. Mas não era autêntica. Mais ainda, era plágio de ficções. Constava do livro Galletitas, de Jorge Bucay. Outros situam sua origem em uma narrativa do escritor britânico Douglas Adams, publicado no final dos 70. Ou ainda a um conto juvenil da escritora Federica de Cesco – adorável suissesse que tive a honra de conhecer em meus dias de Estocolmo – intitulado Spaghetti für zwei.

“A lenda teve muitos avatares” – diz Rosa Montero, que agora reconhece seu equívoco -. “É um desses relatos fascinantes que, por alguma misteriosa razão que tem a ver com o inconsciente coletivo, tem uma grande capacidade de sobreviver”. Leia tudo. Beba na fonte.

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