quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

UMA CRÔNICA A FAVOR

    Por Márcio Dison
    Sou um manezinho do Movimento dos Sem Passarinho. Jamais tive um. Há 1680 espécies no Brasil, desde o minúsculo beija-flor até a desengonçada
ema. São mais amáveis, sonoros e belos que todos os demais animais, aí incluído um certo racional. Gostaria de ter mais lembranças de infância. Mas o Tico e o Teco não ajudam. Tenho certeza de que adorava um rolimã e nunca soltei pipas. Meu negócio eram as caixas, feitas com papel de seda , painas e grude. Ninguém acreditava que subiriam aos céus.
    Todas as demais crianças faziam pipas e pandorgas , tinham fundas e caçavam passarinhos. Nunca gostei. Corruptela cunhou o termo manezinho, um diminutivo sem vergonha de Manoel. Daí a origem da expressão, usada por vezes de forma pejorativa, que designa os nativos da Ilha de Santa Catarina. O multicampeão de tênis Gustavo Kuerten é o mais famoso. De Minas Gerais até o Nordeste, mané é o capiau, sujeito de conversa mole e atolado em paciência.
    Manoel Bandeira definiu o estado de ser: “ Mais importante do que nascer em uma terra é sentir essa terra nascer dentro da gente. Concordo plenamente. " O astrônomo amador e poeta Avelino Alves transformou em versos suas definições de mané: “Nasci em casa de estuque, com galinhas no porão , tomei banho de gamela, tomei café do boião”. “ Raspei mandioca em engenho, comi beiju de montão, manjuva na brasa e tainha no feijão” .
    Quase cinquentenário , só posso ser a favor dos quesitos culinários. Estuque, galinhas no porão , gamela e boião não estão no meu vocabulário. São do tempo da luz de pomboca* e apenas 132 anos nos separam de Dom Pedro II e da inauguração da Estação Elétrica na Estrada da Côrte. Quando nasci, a casinha de fundo de quintal estava em processo de aposentadoria.
    É característico o hábito do manezinho de desfilar com uma gaiola com um coleirinha, canário-do-reino ou sabiá de peito vermelho. Parece invenção mas acaba de entrar em minha sala um pintassilgo. Pousa na orquídea ao lado do computador. Tenho testemunha , alguém que fica olhando abobalhada para o mágico episódio.     Lembro-me que da última vez, um pardal entrou na sala e ficou chocando-se aos vidros das janelas até sangrar e cansar. Mas o pintassilgo achou a porta por onde entrou e saiu faceiro do recinto.
    O manezinho é um passarinheiro de mão cheia. E quem pensa que só os mais antigos gostam desta arte engana-se quadradamente. Um dos mais famosos da Ilha trocou uma caminhonete por um curió, pau a pau. Não é estória de Pantaleão e que fique claro que, nesta troca , sou a favor da mais valia dos curiós soltos na natureza.
    Honestamente, não sou a favor de prender passarinho assim como detesto a farra do boi e os rodeios. Mas cada louco com sua manilha e se o bagual gosta quem sou eu para hostilizá-lo. Também não sou chegado em apelidar pessoas mas acho fantástica a criatividade ilhoa em relação ao tema, algo que se destaca quando os apelidados têm o passarinheiro no semblante.
    Trabalhei em televisão com um cinegrafista de quem não lembro apenas a alcunha tucano. Várias vezes , quando me perguntavam por um colega apresentador soltava de chofre a expressão pica-pau, para só depois me dar conta do nome da peça rara, cuja semelhança com a ave sempre foi mera coincidência.

    Sete cuias que não queira o meu couro mas já joguei futebol com correca. Invariavelmente, espalhadas as penas é que lembro do verdadeiro nome. Que fazer se Ademir tem um inigualável epíteto? Nada a ver com troglodytes musculus , nome vulgar corruíra, pássaro que povoa nosso imaginário por conta de sua santidade. Não é o meu caso mas quem não se recorda de, funda na mão , ouvir do pai que não se podia ferir ou capturar correquinhas porque Nossa Senhora castiga? A Santa tem meu apoio!
    Noite destas fui aos Ingleses e fiquei boquiaberto com a enorme quantidade de passarinhos dentro de uma casa. Qual não foi minha surpresa quando, levado à parte dos fundos , ingressei num berçário de pintagóis. Para o leigo, pintagol é o pássaro que resulta do cruzamento do pintassilgo com a fêmea do canário-do-reino.
    Sai um pássaro maravilhoso , bom de briga como os pintassilgos e com um cantar tão espetacular quanto o dos canários. Naquela noite, vi um ovinho partir-se e dele surgir um pintagol. O entendido no assunto disse-me que depois do alguns cruzamentos surgem mestiços muito resistentes , belos e sonoros.
    Com pássaros, planto apenas canteiros de versos: Assobio sabiá, travessia perversa em deserto de palavras. Frágil beija-flor, capturo pólen em labirinto de frases. De sua majestade realizo a realeza imitando realejo. E partilho a leveza ; do colibri , o beijo. Assobio sabiá, frágil beija-flor. Desenho, saíra pintor, um tiê-sangue em natureza morta.
    Há um desencontro muito grande entre os manezinhos sobre qual é o pássaro de canto mais mavioso. Uirapurus e canários dividem opiniões com o curió e a patativa - cada região tem o seu membro da família real. Mas todos são mesmo príncipes se comparados ao sabiá laranjeira, símbolo do Brasil desde 5 de outubro de 2003. A quem discorda, o Poeminha do Contra, de Mario Quintana : “ Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!”
    Não há prêmio maior a um ser humano que se compreender amado. E tenho convicção de que o lúdico da infância , o rolimã e as caixas voadoras, as lembranças afetivas que meus neurônios guardam , a gentileza e a tranquilidade que os anos trazem é que me tornaram o que sou hoje – um ser absolutamente a favor. De quando tínhamos a delicadeza dos passarinhos.
    O inexorável tempo ensinou-me a expiar medos, os fantasmas que conto na ponta dos dedos. Hoje, por exemplo, sou favorável a prisão de quem mata bichos e caça passarinhos por prazer ou esporte. A maturidade ensina a abjurar dogmas , certezas que tinha como paradigmas. Assim, podemos deflagrar mudanças, dar ponto e basta a sustos e receios. Desnudar os fantasmas é decifrar humanos enigmas.
    Os fantasmas e sua nudez deslindam a verdadeira riqueza:o novo, o inesperado, a incerteza,o contraponto da ignorante insensatez. Defeitos, quero continuar a tê-los porque deles retiro um norte e reconheço-me frágil. E cada vez mais humano. Sou um manezinho a favor do retorno à essência de humanidade.

* Tipo de candeeiro feito de lata em forma de cone com bico e alça, e um pavio
na abertura superior.


Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "UMA CRÔNICA A FAVOR": Enquanto os homens se prendem, os passarinhos se soltam.
Maravilha de Crônica. Parabéns! 

Um comentário:

Anônimo disse...

esse trocador de camionete,por curió, foi somente o vadinho,da farmacia da trindade,aquela proxima ufsc,coisa,coisa da minha infancia,ali,na agronomeca,eita curió caro.e o vadinho contente com aquela gaiola.faz parte da historia da nossa ilha