quarta-feira, 28 de março de 2012

Última vontade

Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.

De preferência, mata;

Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.

Na tumba, em letras fundas,

Que o tempo não destrua,

Meu nome gravado claramente.

De modo que, um dia,

Um casal desgarrado

Em busca de sossego

Ou de saciedade solitária,

Me descubra entre folhas,

Detritos vegetais,

Cheiros de bichos mortos.

(Como eu).

E, como uma longa árvore desgalhada

Levantou um pouco a lage do meu túmulo

Com a raiz poderosa,

Haja a vaga impressão

De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente

Em meu canteiro final.

E o casal repetirá meu nome,

Sem saber quem eu fui,

E se irá embora,

Preso à angústia infinita

Do ser e do não ser.

Ficarei entre ratos, lagartos,

Sol e chuva ocasionais,

Este sim, imortais.

Até que, um dia, de mim caia a semente

De onde há de brotar a flor

Que eu peço que se chame

Papáverum Millôr.

 
1/6/1962
(Do livro Papáverum Millôr, Círculo do Livro, 1974)

Um comentário:

Anônimo disse...

Lamentável, perdemos mais um dos poucos gênios do País. E as "pragas" continuam firmes.

Suely de Aguiar