terça-feira, 12 de junho de 2012

Histórias Latino Americanas

Nelson Rolim e Victor Ramos: companheiros de longa data. Amizade sem fronteiras.
"Meu pai gostava muito do Nelson. Acreditava que ali havia um grande potencial revolucionário. Estava preocupado com sua segurança na Argentina. Vivíamos clandestinamente em um porão na rua Paraná, em Buenos Aires. Um dia lhe disse que precisava sair do país. Nelson lhe respondeu: - Eu quero ficar aqui. Fazer a revolução na Argentina, depois no Brasil e depois na America Latina".

    Nelson Rolim de Moura não fez a revolução na Argentina, ao tentar fugir do terror estatal, acabou preso e torturado nos porões da ditadura uruguaia em Montevidéu, Uruguai .

    Com esta história latinoamericana, Victor Ramos (coordenador, na Argentina, do Movimento Pátria Grande) abriu, ontem (11), na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, a cerimônia de lançamento do livro “História da Nação Latinoamericana”, de autoria de seu pai, Jorge Abelardo Ramos, publicado pela Editora Insular.

    O lançamento reuniu militantes de esquerda, jornalistas e representantes de vários matizes políticos. O livro de Abelardo Ramos é um clássico da esquerda latino americana que prega a criação da Pátria Grande, uma américa sem fronteiras, sonho de José Marti, Simon Bolivar, José Artigas e tantos outros líderes revolucionários latino americanos.

    Um dos presentes ao lançamento foi o jornalista Billy Culleton. Billy é mais um latino americano que desconhece fronteiras quando busca justiça e esclarecimento de fatos acontecidos durante as ditaduras militares em países do Cone Sul.

    "Estou há mais de sete anos nas pegadas deste torturador. Agora o encontramos". Billy me falava Claudio Vallejos, um ex-torturador argentino preso recentemente no Oeste de Santa Catarina por estelionato. Vallejos participou da prisão e desaparecimento do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Junior e é acusado de ter participado da morte e tortura de civis durante a ditadura militar argentina.

Jura, Nelson e Canga: fundadores do combativo Afinal

   O lançamento de do livro serviu para o reencontro de amigos, companheiros de lutas e militâncias contra as ditaduras militares, seja através de denúncias na imprensa alternativa, de atos de protesto, de registros de nomes de torturadores e torturados e de ajuda a companheiros militantes de países do cone sul.

    "Quando nos demos conta já estávamos Brasil a dentro rumo a Porto Alegre. Precisávamos salvar aquele uruguaio", lembrava o jornalista Jurandir Carmargo, o Jura, um dos presentes ao lançamento da Insular.
    

   Jura falava do período em que ficamos refugiados no Uruguai onde mantivemos um jornal semanal bilingue por três anos. Nesse período mantínhamos contato com exilados uruguaios e dávamos espaço no Jornal da Fronteira para seus discursos contra a ditadura uruguaia. Ao mesmo tempo, mantinhamos estreito contato com o Alto Comissariado da ONU que nos auxiliava no trabalho de tirar militantes uruguaios perseguidos do país. 

    O caso que o Jura lembrou foi de um militante político uruguaio, da família Ayala, de Artigas, conhecidos da minha família na fronteira. Ayala chegou a Artigas depois de algum tempo de prisão e tortura em Montevidéu. Tiramos o amigo do Uruguai e o levamos até Porto Alegre. Nós cladestinos no Brasil, pois já estávamos exilados no Uruguai. Isso não nos preocupava, corríamos o risco pois, como disse o jura, "precisávamos salvar aquele uruguaio".

     Ayala partiu para o Rio de Janeiro e daí em diante conseguiu, através do Alto Comissariado da ONU, exílio na Suécia, onde mora com sua família. Sua irmã, Patrícia Ayala, hoje é a prefeita de Artigas, eleita pelo Frente Amplio, uma frente de partidos de esquerda do Uruguai.

Histórias Latino americanas.


*Jornal Afinal (apartidário/anarcopornopolítico)  fundado em 1980 em Florianópolis, combateu a ditadura denunciando perseguições, torturas e corrupção da milicada autoritária.

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