segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma tarde fresca de um domingo qualquer...

    Les Paul Corvette 
   
    Era uma tarde fresca de um domingo qualquer de um outono qualquer. Marelice passava um café cheiroso na pequena cozinha de nossa casa de um bairro popular qualquer de uma cidade qualquer. Osvaldo, o filho mais velho cujo nome homenageava o pai dela, partira há dois anos para a escola militar. 
    A mais nova, Manuela, acabara de seguir os passos de Marta, da filha do meio. Há uma semana conseguira um emprego em uma fábrica de camisetas e tecidos que migrara de Blumenau para o Ceará. Partira rumo à sua vida por seus próprios caminhos, que, por enquanto, levavam-na ao nordeste. 
    Clarelice rezingou entre-dentes com sua cara que não chora emoções, só as dores físicas de uma cutícula encravada:

- Zé, poderíamos comer um hamburger naquele “bréqui” perto da ponte. 

     Lembrei do trailer do Alfredinho, um amigo que insistia ser patrão, empresário e capitalista, localizado na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz, aonde nos conhecemos e muito comemos e bebemos cervejas, antes da vida nos mudar para São Paulo. 
    Ainda deitado no sofá fiz pequenas contas, fáceis diante do pequeno orçamento e das poucas notas que sobraram para passar a semana antes do próximo opróbrio hebdomadário. 

– Lice, se a gente correr a gente pega o ônibus das 6:15 que passa a umas quadras de lá...  

    Estávamos jogando, apenas jogando a mais de 800 km de um lugar que só existia no passado e que a cada km nos envelhecia ao contrário de rejuvenescer. Cada milha a mais em direção ao passado ficávamos mais velhos e pobres. E novamente sem a prole que naquela época não passava de uma expectativa equivocada de cada deliciosa trepada em pé, atrás da igreja, no muro do INPS, na mureta do cemitério ou em qualquer lugar que nossa memória não reconhece mais.

– Zé, vem tomar um café!

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