sexta-feira, 20 de julho de 2012

Insistir, insistir, insistir...

Por Jaison Barreto
 
A divisa “substituir a sotaina do falso sacerdócio pela túnica branca do trabalhador honesto” foi tomada de empréstimo aos próprios grupos de regeneração dos objetivos da classe médica, inscrita como exortação nos brasões do SIMEPAR – Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná em 1975, dirigido a homenagear os colegas que valorizam o conceito da classe por todo esse Brasil de conflitantes contradições. 
                “Por mais que queiramos tentar ignorar, com esgares de desprezo, o futuro da cultura é o futuro de uma cultura de massa. O período é de crescente democratização da saúde. E quando os planejadores educacionais e sanitários privilegiam os investimentos na especialização crescente procurando subdividir o trabalho médico em áreas cada vez menores, estão apenas revelando sua canhestra adaptação à realidade, que insistem em desconhecer.
É gritante a defasagem entre as necessidades públicas de assistência social e os aparatos institucionais de sua satisfação, cuja ineficácia chega muitas vezes a ocupar até as páginas do noticiário policial, quando, por via de consequência, num erro cumulativo, procura-se responsabilizar indivíduos por falhas que são estruturais.
                Inúteis são as convulsões individuais para manter um comportamento de “casta” que não condiz mais com as imposições da História e do progresso humano, porque a medicina liberal já está sendo arrastada para o anonimato da linha de montagem hospitalar, dos gerentes da “medicina de grupo” e confunde, em grande extensão, as perspectivas da classe médica com as perspectivas da classe operária.
                Já afloram, por isso mesmo, os conflitos trabalhistas entre os grupos que exploram a residência médica como meio de enriquecimento ilícito, porque ao arrepio do Código de Ética Médica, que aborrece a intromissão de terceiros no binômio confiança/consciência. Já não são poucas as vozes que preconizam a sindicalização em massa da classe médica, para melhor conformar a disputa com os leviatãs que se agigantam à sombra da miséria pública. Já se unem as vozes que exigem a inclusão da profissão do médico como uma das categorias profissionais tuteladas pela Consolidação das Leis do Trabalho, porque enquanto as diversas categorias profissionais batem às portas da justiça, pelas mãos do dissídio coletivo, amparadas pela força social da quantidade de operários representados, a classe médica não pode participar dos benefícios daí advindos, porque seu caráter “liberal” esbarra em truculentos empecilhos legais, que remetem os inconformados à alçada do Código Civil.
                Por isto mesmo avultam os desentendimentos entre os grupos de pré- pagamento – odioso modelo de vassalagem – com os interesses da operosa classe médica. Por isso mesmo o protesto frequente da população contra a omissão de socorro das entidades assistenciais, que fazem da saúde um privilégio, e não um dos direitos mais comezinhos da natureza humana.
                A História, entretanto, cria naturalmente seus canais de expressão quando necessita colocar em jogo aquilo que é justo e necessário ao progresso da humanidade, e, em decorrência  de sua necessidade atual de disparar modificações sociais profundas, vai buscar nos bancos universitários a reserva moral de uma pureza não comprometida, para acionar seus desígnios regeneradores. E essa é a grande esperança da humanidade, a de poder contar, em meio a tanta contravenção e comprometimento, em meio a tanta inversão de valores, em meio a tanta hipocrisia organizada, em meio a tantas ameaças que pairam em seus cinzentos horizontes, em meio a tantos entraves ao progresso, com a disposição e o entusiasmo de uma juventude seletiva, que apreende, em meio a tantas deformações caracterológicas, a exigência perfectiva, de repúdio à degeneração, à contravenção e ao crime.
                Dentro disso a imposição da sensibilidade governamental aos desesperados reclamos do povo. Não há como paliativar o destino, através de acordos aviltantes com os concentradores da renda. A socialização da medicina é uma perspectiva que se realizará mais cedo ou mais tarde, entendendo-se como socialização da medicina a extensão da assistência médica, em todos os níveis, a toda população,
independentemente da distância social em que se encontre o cidadão necessitado, porque a natureza humana é suficiente à sua dignidade. Fora disso, qualquer diferenciação é preconceituosa: o instrumental humano é um só, independentemente de raça, religião, credo filosófico ou de cultura, porque tais diferenciações nascem não da incompetência, mas da falta de oportunidades, que é preciso corrigir.
                A compreensão de que a tarefa imediata para a solução dos problemas da classe médica e da sociedade é a conscientização intensiva dos quadros médicos nacionais, que não podem descartar ou menosprezar a hipótese de serem os geradores de seu próprio destino, dentro dos recursos de organização classista, assimilando toda a experiência histórica dos trabalhadores em todo o mundo, na sua luta pela emancipação econômica política e social.
                Ao invés do elogio gratuito, que protela e engana , preferimos a fria análise dos fatos que chegam ao nosso conhecimento, seja como médico, para formalizar a denúncia de uma realidade que nos agride de modo intolerável – à qual não é possível fugir – e diante da qual só nos é possível convocar à centralização de novos e ingentes sacrifícios, porque a harmonia social com que sonhamos ainda se encontra em suas primeiras clarinadas.”

Essas minhas colocações são ainda hoje atuais, com um ou outro retoque.
A PEC – carreira de estado para os médicos, é quase uma imposição para garantir o direito à saúde para todos.

Saudações Democráticas

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