terça-feira, 4 de setembro de 2012

Memória e Linguagem

   Por Emanuel Medeiros Vieira*

   Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade.
   Memória como instrumento de justiça e de misericórdia.
   Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida.
   Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento.
   A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória).
   Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre.
   O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento.
   Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão.
   Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória.
   A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento.
   A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva. Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade.
   A linguagem é edificada para a construção dos textos que querem eternizar nossa brevidade, a nossa finitude.
   Como observa a filósofa e historiadora, Regina Schöpke, “quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e nos dirige.”
   Os filósofos e filólogos sabem disso.
   Estes últimos, veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo, mas, sobretudo, uma segunda natureza. “Algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa”, como observa a autora citada.
   Os gregos já enfrentavam a questão.
   Nietzsche - que além de filósofo era também filólogo - chamava esse universo da linguagem de “duplo afastamento do real”, de “segunda metáfora”.
   Porque aí os homens lidavam com conceitos e não apenas com o mundo em si.
   A linguagem pode ser instrumento de dominação, estimulando um preconceito racial, como fizeram os nazistas, alimentando o fanatismo e o preconceito, gerando um horror como raramente (ou nunca) se viu na História.
   Todo sistema com ambições totalitárias, como detectou a pensadora, tem necessidade de produzir um discurso, uma mitologia e palavras de ordem.
   É um exercício mental doloroso, mas assim a gente pode entender como uma cultura que produziu tanta beleza com Goethe, Beethoven, Nietzsche, Hegel, Wagner e outros, tenha mergulhado, com o nazismo, na mais profunda irracionalidade, onde o Mal apareceu com toda a sua força, ou melhor, em toda a sua plenitude.
   Tento meditar sobre esses assuntos, entre outras razões, porque a falta do estudo da filosofia para quem tem menos de 60 anos, criou um tremendo vácuo cultural.
   Fundou-se o universo utilitário, da posse imediata. Só vale o que tem valor contábil.
   Faço minha a proclamação de Michel Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”
 
*Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense, nascido em 1945. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”.
Tem 20 livros publicados, e é e detentor de diversos prêmios literários.
Nacionais.

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