quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Uma bela cidade!


Complicada! Principalmente porque aqui fazemos política com o coração, com o fígado, com tudo, menos com a cabeça!

   Essa foi a primeira frase que Eduardo, um argentino obeso de 38 anos, me disse quando arrancamos do aeroporto de Ezeiza rumo ao centro de Buenos Aires. Respondia minha pergunta sobre a situação política e econômica do seu país.
   Terça-feira ensolarada, depois de uma semana de chuvas fortes, Buenos Aires crescia e se aproximava linda a medida que avançávamos em direção a calle 25 de maio, perto do Obelisco, o coração porteño.
   O trajeto, sem tranqueiras, é feito em torno de 35 minutos. Tempo suficiente para uma aula de política, economia e atualidade sobre a vida de Maradona e outros ídolos  argentinos.
   Eduardo, quando soube que eu era periodista e estava na cidade para fazer uma reportagem, foi tornando suas análises cada vez mais complexas e intermináveis acompanhadas de gestos afáveis porém contundentes, próprios dos gordos educados. 

- Ninguém mais quer trabalhar! A bolsa família criou uma legião de vagabundos que vivem do salário do governo.

   Ouvi isso várias vezes nas poucas horas que fiquei na cidade. Todos os motoristas de táxi foram taxativos neste particular. O kirchnerismo criou um legião de seguidores miseráveis, fanatizados, sustentados por programas sociais.
   Associam Cristina Kirchner e sua política econômica a Cháves, da Venezuela, realçando sempre que a Venezuela tem petróleo e a Argentina não. 
Florida com Córdoba 7 da manhã
   A questão do câmbio é outro assunto tratado por todos nas ruas de capital argentina. Em uma banca de revistas, coberta de publicações com Evita e Peron estampadas nas capas, além de cartazes com desenhos de cortes de carnes argentinas e outros ensinando a fazer um bom "mate" argentino, o revisteiro me diz que o país não tem plano econômico.

- Cristina vai tomando medidas econômicas baseada no empirismo e em tudo segue a política do Cháves. Persegue a imprensa, está expulsando o capital extrangeiro e aprisionado os poucos dólares que ainda entram no país.

   Todos entendem de tudo e discutem apaixonadamente nas ruas, nos cafés e nos bares da cidade. Com o câmbio proibido - apenas o banco estatal pode fazê-lo a $4.71 pesos por dólar - o revisteiro me avisa, enquanto me faz um câmbio clandestino:

- Não troque muitos dólares. Troque apenas o que acha que vai precisar, pois senão, depois, não conseguirá trocar os pesos que sobrarem. Ninguém pegará seus pesos de volta.

   Buenos Aires é uma cidade fantástica. Gosto sempre de voltar, mesmo que por algumas horas. Ando por suas ruas. Respiro seu ar cosmopolita de cidade européia. Olho as vitrines, entro na Galeria Pacífico, caminho pela Calle Florida e simulo situação de câmbio só para ver o ar assustado dos operadores do câmbio negro dizer que está "sujo". 
   Dou um pulo rápido até a peatonal de Reconquista para constatar, com tristeza, que o meu bar, o Walker, foi fechado há alguns meses. Não encontrei meu amigo Valter, o garçon, que no 17 de junho do ano passado, meu aniversário, serviu para a Gisa um saboroso bife de chorizo acompanhado de papas fritas e arroz.
   O Black & Withe, casa de prazeres, quase na esquina com a Avenida Córdoba, continua firme. Paro, olho para dentro e, no meio da luz azulada que pisca ao ritmo de uma música eletrônica, vejo várias chicas conversando e dançando com os clientes. Parecem alheias às preocupações políticas manifestadas pelos taximetristas, como meu pai chamava os motoristas de táxi. Afinal, cobram por metro percorrido!
   Desta vez não entro, me limito a ficar na frente conversando um pouco com Marcelo, uma espécie de porteiro formal que convida os turistas para entrar e conhecer a casa, além de prestar outros serviços de natureza informal. Nos conhecemos de tempos. Já esteve em Florianópolis algumas vezes. Agora acha que vai demorar a voltar. O Brasil ficou caro, me diz.
   Nos despedimos com um abraço. Desço a Córdoba, entro na 25 de maio à direita, desço à esquerda para atravessar a Leandro Além até chegar na Eduardo Madero. Tinha um jantar de negócios marcado no restaurante Puerto Cristal. 
   A caminhada foi saudável e me abriu o apetite. O restaurante é fino e com um excelente serviço. O menú é composto de quatro livros grosso com fotos e descrição dos prato que são sugeridos pelo simpático maitre. Somente o menú de vinhos tem 730 rótulos. A carne argentina, como sempre, um show!
   Foi um jantar sem vinho, sem álcool. Meu interlocutor não bebia por princípios. Eu por obrigação! Comemos, tomamos água, pedimos postre e, após algumas horas de boa e produtiva conversa, tomamos um café expresso e nos despedimos. Sai do restaurante e caminhei despreocupado pela beira do dique, passei pela Fragata Sarmiento e fui até a Puente de La Mujer. Gosto de admirar essa obra de arte do mestre Santiago Calatrava. 
Peguei um táxi e fui praticar o meu esporte preferido: jogar no cassino. Fiquei algumas horas entre as mesas e máquinas e quando me dei conta havia gasto todos os pesos argentinos que tinha no bolso.
   Como voltar ao hotel de táxi? Ninguém aceita real nem dólar. Estão proibidos. O banco dentro do cassino já estava fechado para câmbio. Ao ver um casal de brasileiros saindo do cassino em direção aos táxis, perguntei se me trocavam 50 reais por pesos argentino, o necessário para um táxi até o hotel. A senhora, muito simpática, me falou que não teria problema algum. - Imagine se não ajudaria um brasileiro, disse!
   Perguntou de onde eu era e falei que de Florianópolis. Ela deu um grito e disse: - Que mundo pequeno esse, somos de Canasvieiras!
   São proprietários de uma imobiliária na entrada do balneário. Vou visitá-los qualquer dia desses.
   No caminho de volta, mais uma conversa animada sobre política com o motorista. Retornei ao hotel e dormi tranquilo. Acordei cedo, tomei um belo café e me despedi da cidade com um gosto de quero mais. 
   Voltarei!

3 comentários:

a disse...

Bela estória! Belas fotos de uma cidade Bonita, mescla de Paris com Londres. Contente por não nos chamarem mais de "macaquitos". Evoluíram, pela desgraçeira econômica ou talvez por terem lido Paul Brocca..."prefiro ser descendente de macacos que um filho degenerado de Adão". Saudades do "Viejo Almacén", onde bebi bons tragos. Abraço/Saludo agradecido por teu belo texto.

Anônimo disse...

E o Fertilia Boutique Hotel e o Mathias Downtown, boas referências de nossa passagem pela Bienal Borges-Kafka e Feira Internacional do Livro de Buenos Aires para lançar Borges Um Giróvago, do meu pai Paulo Medeiros Vieira. Temos ótimas recordações de nossas andanças contigo pela capital portenha e as passagens para Praga continuam ´envelopadas´ esperando melhoras do pai e do amigo para completarmos a missão do livro, um dos melhores guias sobre a obra de Borges nas palavras do embaixador e curador da mostra. A mala tá sempre pronta e o amigo é sempre uma grata companhia. LesPaul

Anônimo disse...

Analisar a situação politica e economica da Argentina pela ótica de um taxista (sem desmerecer a profissão), não me parece adequado. Salta aos olhos a contaminação reacionária na sentença: "O bolsa-familia criou uma legião de vagabundos!".