domingo, 23 de dezembro de 2012

Quando médico se mexe!

   Por Armando José d’Acampora *
   Um dia me formei em Medicina.
   Me disseram que eu devia dedicar minha vida ao bem do próximo, daquele que é menos favorecido, do pobre doente.   Fiz um juramento originário de Hipócrates, 450 anos antes de Cristo, o qual jurei cumprir, e que até hoje cumpri.   Me submeti a uma rotina de 15 plantões por mês, que é a única forma que achei de melhorar meu salário, haja vista que um engraxate do Senado Federal percebe mais que um médico em qualquer esfera pública, e que já tinha família para sustentar e nunca vi nem ouvi falar que, um supermercado ou mesmo uma escola, aceitasse receber seu pagamento em fichas verdes do SUS.   Também me disseram que os convênios eram bons e que eu deveria aderir a eles.   Grande falácia, pois as associações de todos os funcionários públicos possuem belíssimas propriedades nas praias de Florianópolis, oferecendo aos seus associados verões inesquecíveis, mas não querem pagar decentemente aos médicos, que garantem a saúde destes mesmos associados para que consigam ter os mesmos verões inesquecíveis.   Há alguns anos, lá por volta da década de 80, conseguíamos viver muito bem com o pagamento do antigo INAMPS. Havia uma remuneração que não era NET, mas era tipo NET. A nossa vida era mais confortável.   Nesta época, 80, a enfermagem trabalhava 40 horas por semana e era paga adequadamente. Hoje trabalham 30 horas, para que possam ter dois empregos e com isso sobreviver com mais dignidade.   Mas o que mais me chama a atenção é que todos os nossos funcionários que ora fazem greve, possuem um nível de vida aceitável, pois a maioria é possuidora de carros seminovos, quando não novos, e até casa de praia, uma boa parcela as possui. Tudo adquirido com o salário básico do emprego público.   De repente, essa população que vive relativamente muito bem, resolve por uma paralisação que perdurou por mais de oito semanas.   E aí eu me pergunto: fizeram algum juramento que nem o meu?
   Qual o vínculo que tem com o próximo? Gente que nem a gente, que necessita da atenção do outro para sobreviver por mais alguns meses, anos talvez.   Dai os médicos resolveram se mexer. Alguma providência haveria que ser tomada.   A saúde virou um caos e não era por culpa ou má vontade dos médicos.
   Eles estavam lá, carregando macas da emergência para os Raios X, levando os pacientes até o laboratório, se encarregando de fazer com que os necessitados chegassem até a Tomografia.   Pois bem, e daí?
   Não havia infraestrutura para atendimento, pois os técnicos de enfermagem resolveram diferente, que não trabalhariam e o Governo cruzou os braços e achou que a economia realizada durante esse período era mais importante que os pacientes que não foram atendidos. Como se esse serviço não fosse essencial.   O Ministério Público não tomou a atitude que dele se esperava, muito menos o Ministério do Trabalho.   Até que, depois de esgotada todas as possibilidades de acordo entre o Governo e os grevistas, os médicos resolvem solicitar a intervenção federal na Secretaria de Estado da Saúde, que independente do término da greve do técnicos, continuará seu caminho.   Agora, só nos resta esperar que haja alguma atitude enérgica e adequada ao caso em tela pelas autoridades competentes.   Mas os médicos se mexeram, e energicamente, em favor de uma sociedade que estava totalmente desassistida.

* Médico, Cirurgião, Professor Universitário

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro colega, fiquei orgulhosa de vc, nao apenas pela boa escrita, mas principalmente por me colocar diante da realidade do que é ser médico, de como em nós está entranhado a cultura de nosso juramento, de como juramos sem saber realmente o sentido daquelas palavras, de como somos fortes sem saber que somos e aí por diante. Perplexa estou, de como nós éramos e como estamos.

Um abc
Elyane.

Anônimo disse...

Só nos resta uma constatação, caro colega: médico é bicho burro! Faz uma consulta em troca de uma galinha e ainda dá recibo para descontar do imposto de renda.