quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

The concrete Christ


  Por Marcos Bayer

   Na epopeia humana baseada sobre a água, o trigo e o sangue; chegamos até aqui por causa de duas simples atitudes: solidariedade e cooperação. Eu caçava para que ela pudesse preparar nossa comida. Minha dor era dissipada pela tua companhia.
   Tua sede saciada pelo gesto de outrem. Juntos, suportávamos os medos dos animais desconhecidos.  Lutávamos contra eles. Todos os venenos eram menos letais quando o grupo ajudava na cura. E assim, passo a passo, palavra por palavra, negócio por negócio, fez- se a Humanidade.
   O Cristo real ou imaginário, de carne e osso, apareceu num determinado momento
histórico para realçar a chave da sobrevivência: solidariedade e cooperação.
   Foi marco, foi norma, foi ensinamento. E mesmo assim, sucumbiu ao seu entorno.
   Traído, crucificado, morto e ressuscitado.
   De lá pra cá uma aceleração fantástica na evolução do homem.
   Os espetáculos do sol poente e da lua cheia são substituídos por efeitos da
cinematografia moderna. A Odysséia de Ulysses é substituída pelos desfiles das Escolas
de Samba do Rio de Janeiro, em duas noites. Desde 1957, quando os russos deram a
volta na Terra, numa espaçonave, os ponteiros dos segundos dos relógios adquirem
outro valor. O valor que não tinham... Tudo passa a ser cronometrado...
   O belo é confundido com o novo. De certa forma faz sentido. Mas, o belo é permanente. Não pode haver espetáculo mais colorido do que a florada amarela dos garapuvus de Florianópolis, em novembro.
   Nem as águas do mar da Joaquina e do Campeche, azuis, depois do vento sul. Nem a
arrevoada de gaivotas da pesca da tainha, em junho.
   Tudo isto e muito mais está sendo substituído por novas bocas, batons vermelhos
e perlage nas taças. As bocas de outrora já não valem mais, não são carnudas... A
perlage das ondas do mar cristalino ainda existe em poucas praias... Raras praias...
   Parece dezembro de um sonho dourado, na fotografia estamos felizes...
   A sociedade do século XXI vive uma crise de opção fundamental. Ou se reorienta sob
os valores da cooperação e da solidariedade e alça novos voos como no Renascimento
Italiano ou se materializa na impessoalidade e afunda em águas turvas...

   Só um Cristo de concreto para suportar...

2 comentários:

Anônimo disse...

Brilhante Marcos, parabéns! Celso M.

Anônimo disse...

Belíssimo texto. Um Fustel contemporâneo. Falta humanidade aos humanos. LesP