quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Corpos Reais e Marionetes do Consumo

Por Eduardo Guerini

Em suspeição diante do espelho,
observando se o reflexo é real.

   Neste período de ressaca carnavalesca, a vida cotidiana das pessoas segue seu curso rotineiro, máscaras e fantasias caem na ardente realidade que se move contra todos os desejos contemplativos de uma sociedade rotacionada pela “idiotia compulsiva” dos indivíduos em seus desejos utilitaristas. A busca da fonte da felicidade duradoura se confronta com uma lógica mundana nada animadora. Os desvarios das pessoas na sanha instintiva para encontrar a satisfação de suas necessidades, é uma consequência da “miríade” de carências que condiciona o inabitável mundo de nossos sonhos.

   Em recente relatório sobre o desempenho da economia brasileira (Ministério da Fazendo, Dez/2012), os setores que alavancarão o mercado consumidor interno são respectivamente, o setor de perfume e fragrâncias (em primeiro lugar), e, produtos para animais de estimação (em terceiro lugar), na sequência, automóveis, bebidas e vestuário. Se avançarmos na leitura mercantil, o que pensar de um país-mercado, onde a lista dos livros mais vendidos, é uma tonalidade asfixiante de autoajuda, erotismo rastaquera infantilizado, e, finalmente, fórmulas mágicas para enriquecer, ser feliz, etc,. Em síntese, como diria Lipovestky(2007), a nova sociedade que nasce funciona por hiperconsumo, determinando o surgimento do “homo consumericus”, movido pelas marcas, embalagens e publicidade.

   No enredo da alienação desenfreada, a vida se transforma em entretenimento, na duradoura “celebrityland”, espaço de propulsão do desejoso prazer em comprar, a compulsão para o consumo, epidêmica doença que deve ser tratada individualmente, encontrará suas terapias alopáticas ou homeopáticas, dependendo do nível de submissão a "perversa" lógica do sistema. O hiperconsumo se legitima pela supressão dos seres reais, em caricatas pessoas que mimetizam por emulação, os padrões honoríficos de seus astros, de suas estrelas, no luxuriante espetáculo para a felicidade consumista.

   No ludismo erotizado do hiperconsumo, o edificante mundo da aquisição se transforma “no esbanjamento organizado pela criação destrutiva”. Na profusão sedutora e irrefreável por mais objetos e prazeres, vivemos a eterna liquidação de nossas vidas, em produtos que são “obsolescentes” já em seu nascimento. Nesta corrida de ganhadores que sobem cada degrau, sussurrando “...as diferenças não são capazes de separar”, todos são marionetes do consumo, razão de viver de uma massa que age por “irracionalidade de manada”, exaltando seus gozos particulares em rede, seus sonhos, seus lazeres, signo de um dilúvio de frivolidades oscilantes na velocidade de nanosegundos.

  Como tudo é intercambiável, resolvi adotar por um momento minha “idiotia compulsiva”, 
quebrei o espelho, dispersei todas as fragrâncias para aromatizar o ambiente, entoei um mantra “tudo posso, tudo quero, eu consigo...”, resolvi ir ao supermercado comprar ração da adorável “Olga” - companheira fiel, e, finalmente, coloquei na porta de minha residência uma placa com a singela expressão : “Aqui mora um cão feliz e sua família....”

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