terça-feira, 28 de maio de 2013

Ilusões perdidas

Da revista PIAUÍ
Uma repórter narra a sua trajetória, da glória à agonia dos grandes jornais, e vê sua espécie ameaçada de extinção com a asfixia da imprensa crítica e independente


por GRACIELA MOCHKOFSKY

Quando, aos 8 anos de idade, no remoto povoado patagônico de Planicie Banderita, descubro minha vocação de jornalista, mal sei o que é isso.

Muitos anos depois, tentarei entender de onde ela veio. Então vou me deparar com a perplexidade de meu pai engenheiro e minha mãe bioquímica: eles não sabem explicar.

Não há mesmo explicação. Só algumas lembranças.

Publico minha própria revistinha, El Club de los Castores. É um apanhado de textos e imagens que recorto das revistas infantis Anteojito e Billikene colo em folhas de papel. Também inclui artigos escritos por mim: minha avó sempre lembrará que um dia pedi permissão à minha mãe para entrevistar os bombeiros.

Deixo uma cópia em cada uma das 400 portas de Planicie Banderita. Invento de vender números de uma rifa. Todos os compradores ganham uma “assinatura” da revista, e o premiado, um bolo feito por minha mãe.

Meu pai me dá um microgravador com microcassetes, que cabe no bolso, e com ele começo a gravar conversas. Também ganho dele uma Olivetti portátil azul-celeste e tábuas de compensado, com as quais construímos uma redação no jardim.

Peço emprestada sua Polaroid e componho meu primeiro trabalho jornalístico em forma de livro. Título: “Minha família”. Cada página traz um texto biográfico de um de nós – meu pai, minha mãe, meus três irmãos e eu mesma – e, no final, uma galeria de fotos. Ainda não associo minha vocação com uma profissão de gente grande, tanto que na minha página consta: “Não sei o que quero ser quando crescer.”

Nos fins de semana, entramos no nosso Ford Falcon e viajamos 65 quilômetros por uma estrada de cascalho até a cidade de Neuquén. A primeira parada é na livraria Siringa. Compramos dicionários, livros de ciências e enciclopédias: do universo, do corpo humano, do centro da Terra. É toda a não ficção que está ao meu alcance.

ez anos e quatro províncias depois, estou em Córdoba. Toda manhã atravesso a cidade para entrar num mundo desconhecido: a escola de jornalismo da Universidade Nacional.

Todo dia deixo para trás o rico subúrbio que bem poderia ser uma ilha; a discoteca, a obsessão pela roupa, os jogadores de rúgbi. Depois de cinco anos morando lá, quase não conheço o resto da cidade.

Na Universidade Nacional falam uma nova língua, que eu decifro a duras penas. Fala-se, por exemplo, de política: de não pagar a dívida externa, da nova ordem mundial das comunicações, dos planos contra a hiperinflação e da queda de Raúl Alfonsín. Leem-se alguns xérox: de Adorno, Horkheimer,Benjamin, Van Dijk, McLuhan. Leem-se livros: de Cortázar, Oliverio Girondo, Tomás Eloy Martínez. Contam-se lendas sobre jornalistas que, no passado, fizeram presidentes tremer. Afeta-se certo cinismo – parece que os jornalistas que fazem os presidentes tremerem são assim. Conta-se uma piada: um editor pede a um jornalista uma coluna sobre Deus, e ouve dele a pergunta: “Contra ou a favor?” Temos que achar graça.

Venera-se o Página/12 – o jornal que faz os presidentes do momento tremerem. Todos me explicam que é independente e crítico, que é de esquerda, que está comprometido com a democracia e com os movimentos de defesa dos direitos humanos fundados por familiares das vítimas da ditadura militar. Que tem o caráter narrativo do Novo Jornalismo americano e a opinião política dos jornais europeus. Que nele trabalham os jornalistas importantes. Nos corredores, lemos com devoção suas colunas, suas investigações sobre a corrupção no governo Carlos Menem. Reverenciamos sua primeira página em branco para anunciar os indultos que Menem deu aos militares condenados alguns anos antes por crimes que mais tarde serão chamados de lesa-humanidade.

Não há profissão mais fascinante que a de jornalista, e não há personagens mais românticos que os jornalistas. O jornalista é boêmio, fumante, notívago, talvez alcoólatra, leitor e escritor, um tanto aventureiro, engajado, disposto a arriscar a própria vida, cético, cínico, imensamente idealista. Passa as tardes soltando frases espirituosas, falando de assuntos importantes, tomando café com as pessoas mais interessantes ou derrubando ministros instalado em sua trincheira.

Tem coisa melhor?

Lá vou eu.

Leia a matéria completa na PIAUÍ

2 comentários:

Renato Luiz Menze disse...

Ótimo, gostei muito camarada. Ainda há suspiros pela liberdade, até de pensamento. Por que será que o povo está acéfalo na leitura? Busca de informação? Vamos em frente. Abraços.

Renato Luiz Menze disse...

Ótimo, gostei muito camarada. Ainda há suspiros pela liberdade, até de pensamento. Por que será que o povo está acéfalo na leitura? Busca de informação? Vamos em frente. Abraços.