segunda-feira, 3 de junho de 2013

Graças a Deus ou graças ao Batman


Por Janer Cristaldo

Se é para descrer da medicina invocando seres que não existem, tanto faz invocar Cristo ou Batman. Nestes dias em que as pessoas já não mais lêem, melhor buscar cultura nos quadrinhos. A Bíblia é muito chata e tem personagens demais. O Jeová nem rosto tem e as crianças não conseguem sequer imaginar como se veste. Melhor invocar um herói que anda com aquela capa do Joaquim Barbosa, ou com as cuecas fora das calças. Não está longe o dia em que as capelas dos hospitais serão ornadas com imagens do homem-morcego ou do homem de aço. 
Deus já era. Agora temos o Batman. A ciência avança.

  Sou diabético. Há uns bons quinze anos, recorri aos serviços de uma endocrinologista aqui em São Paulo. A doutora me proibiu terminantemente o álcool. Nem Kronenbier. Como considero não ser inteligente enganar um médico, durante dois longos anos – juro, leitor! – permaneci afastado de meus bons amigos, os vinhos e espíritos outros. Mudei até meus roteiros pela Paulicéia. Andei visitando cafés onde senhoras judias tomavam chá com bolachinhas.
   Pelo menos até o dia em que optei por uma solução radical. Cansado da vida saudável, troquei de médica. E já fui avisando a nova endócrino sobre as razões que me levavam a procurá-la: a médica anterior havia me proibido o bem-bom. Ela entendeu o recado e me liberou para a vida. Como nunca fui adepto de bebidas doces, nunca tive maiores problemas de glicemia.
   Mas havia outro problema com a médica anterior. Católica de carteirinha, ela sempre se despedia de mim com um “vai com Deus”. Era como se a ciência tivesse desistido de me fazer voltar à saúde e agora tudo dependia da boa vontade do Altíssimo. Ora, não entendo como um médico possa dizer isso, aliás tampouco entendo como um médico possa acreditar em Deus. Vou além: não entendo como alguém saído de uma universidade possa acreditar em Deus. Sinal que a universidade fracassou.
   Quando minha mulher foi acometida de câncer, círculos de oração foram organizados no país todo. Deus a curará – diziam. “Estamos gastando nossos créditos junto ao Poderoso” – disse-me um casal católico. Ninguém mencionava o tratamento sofisticado, caro e doloroso, ao qual ela estava sendo submetida. Quando morreu, mudou o papo. A medicina falhou. Deus tinha outros planos para ela. Mas agora ela finalmente está sendo feliz.
   Se agora estava sendo finalmente feliz, por que rezavam para que permanecesse nesta vida em que era infeliz? Enfim, pelo menos não rezaram no quarto do hospital. No velório, puseram seu sofrido corpo logo abaixo de um imenso Cristo crucificado e peladão. Tirem esse lixo daí – ordenei. Tiraram. Só o que faltava emprestar o cadáver da Baixinha para fazer propaganda do judeu aquele. Se o paciente se cura, curou-se devido à intervenção divina, ao poder das orações. Se morre, foi falha da medicina. Deus não perde nunca.

Leia o texto inteiro. Beba na fonte.

Um comentário:

Anônimo disse...

À falta de controle do açúcar, insulina. À falta de fé militante, açúcar pra adoçar a amargura que escorre de todo o texto. Nem o fim da abstinência tirou o mau humor. Colocar a ciência contra a fé é tão maniqueísta quanto a ideologia do petralhismo militante. Umas rosquinhas com chá talvez façam bem à desilusão marcada por chavões. Na mesma proporção, não cabe às universidades pregar ideologias ou atacar a fé ou falta de fé de cada um. E preferir que a 'baixinha' esteja ao lado do Batman é opção do escriba que não se discute. Fique cm Deus, Cristóvão.