sábado, 22 de junho de 2013

Nascido para ser livre...

  Por Marcos Bayer

   Foi em Laguna, no dia 16 de agosto de 1933. Nascido de família humilde, porém letrada, o pequeno aprendiz interessava-se desde cedo pelos outros e pela vida dos outros. Interno no Colégio catarinense na capital fez parte da turma de 1947, para minha surpresa satisfeita através do Google, onde estava meu pai.
   Formado em Medicina (1951-57) na Escola Nacional do Rio de Janeiro, frequentador da vida acadêmica e da noite carioca, formou-se oftalmologista e foi para a Espanha, na Clínica Barraquer, uma das mais conceituadas do mundo. Jorge Lacerda, governador de Santa Catarina, soube que aquele catarinense havia sido o orador da turma e mandou imprimir alguns livretos com o teor do discurso. Nascia o político Jaison Tupy Barreto.
   No Brasil acontecia o golpe militar de 1964, na Espanha o general Francisco Franco mandava desde 1939 e assim iria até 1975. Foram 36 anos de guerra civil. Quem quiser compreender o horror basta olhar a tela Guernica de Pablo Picasso.
   Jaison Barreto foi forjado sob duas ditaduras, a nossa e a espanhola.
   Voltou, foi para Rio do Sul, de lá para Brusque, em razão das enchentes.
   Foi trabalhar como médico nos sindicatos dos trabalhadores onde conheceu Francisco Dall’igna, então vice-governador de SC, eleito pelo PTB na chapa de Ivo Silveira. Cassado em julho de 1966, seu cargo foi preenchido em março de 1967 pelo jovem Jorge Konder Bornhausen, cuja posse foi possível após alteração na Constituição Estadual, em razão de sua insuficiente idade.
   É assim que Jaison Barreto vai abrindo espaços na política. Perdendo amigos, aliados e formando um grupo de pessoas interessadas nas coisas daquele cavaleiro andante. Uma de suas características era a capacidade de demolir adversários pelas palavras. No MDB, partido que fundou, quando o debate era com alguém mais qualificado do outro lado, mandavam o Jaison...
   Elegeu-se deputado federal em 1970 e renovou o mandato em 1974. Em 1978 elegeu-se Senador da República. Foram 16 anos com mandato, apenas. Mas, mesmo sem ele não para quieto, não deixa de opinar, escrever, aconselhar e participar.
   Foi o político mais contundente da nossa geração. Sempre soube o significado da República, nos mínimos gestos. Quando se afastou do Senado para permitir a posse de Dejandir Dalpasquale e depois de Maria Shirley, a primeira mulher catarinense a ocupar a tribuna do Senado Federal, disse a ele que não tinha outra renda, pois há pelo menos 15 anos deixara a medicina, e que gostaria de saber se poderia contar com uma parte do salário para sobreviver. Dejandir, homem de posses, não só
entendeu a raiz do pedido, como lhe concedeu parte da remuneração. Na época quando um parlamentar se licenciava, perdia a salário.
   Hoje, o homem público, na grande maioria, ocupa o cargo, o automóvel, o salário, as secretárias, as salas, emprega os familiares, pede ao funcionário comissionado parte do salário oferecido, participa
indiretamente das licitações, libera verbas para o amigo publicitário, superfatura obras e faz uma grande festa pecuniária envolvida numa meleca jurídica que acoberta e protege a sinecura.
   No Brasil não são os pobres, ignorantes e desesperados que corrompem a República e seu significado. São os doutos, pseudo-doutos, mandatários sem sentimentos e capatazes sem coração.
   O que estamos assistindo nas ruas do Brasil, nestes dias, é apenas isto: o despertar da República.
 Jaison não coube dentro de seu mandato. Participa do movimento dos autênticos, das eleições diretas em 1984. Em 1982 perdera a eleição para Esperidião Amin por 12 mil votos aproximadamente. As versões não oficiais falam de eleições roubadas, manipuladas pelo SNI – Serviço Nacional de Informações.
   Mas, como no Rio de Janeiro, Leonel de Brizola denunciou e venceu o aparato montado pela chamada Revolução, houve esperança no Brasil.
   Jaison procurou justamente seu mais nítido adversário e propôs uma aliança política. Antevia a necessidade de sucesso no movimento das eleições diretas, antevia a eleição de Leonel Brizola para a Presidência do Brasil e uma nova Constituição.
   O jovem Amin, governador, não tinha temperamento para empregado do esquema que o elegeu. Por inteligência, soberania de caráter e sobrevivência política viu no Jaison a outra parte.
   Nasceu o projeto Jasmin cujo escopo final era a eleição de Leonel Brizola para governar a República.
   Em 1985, nas eleições diretas para as capitais, o PMDB apresentou Andrino, o PFL apresentou Enio Branco e a AST/Jasmin apresentou Chiquinho Assis. Andrino venceu e chegou à líder do governo de
Raimundo Colombo na ALESC recentemente. O candidato da AST não ganhou porque não representava o novo. Não representava o conceito asmin. Tancredo Neves havia falecido em 21 de abril deste ano. As eleições municipais provocaram uma comoção nacional favorável ao PMDB. Só seria possível uma vitória da AST (Brizola, Jaison e Amin) se o candidato fosse alguém da esquerda.   E se o Maneca Dias fosse para o Uruguay.
   Em 1986 Pedro Ivo levou a convenção do PMDB e chegou ao governo estadual. Amin elegeu-se prefeito em 1988, senador em 1990 e governador em 1998. Nesta eleição com aval público de Jaison Barreto.
   Ficaram amigos. Jaison perdeu as eleições de 1986.
   Jaison continua, desde então, a participar da vida pública nacional.
   Usufrui da vida, dos amigos, do banho de sol, da Coca-Cola com gelo e whiskey, de los riñones uruguayos e das boas companhias. 
   Porque foi sério em sua luta, poderá sair da vida rindo, serelepe tal qual moleque menino que tanto honra o Brasil.
   Parabéns pelos 80 anos...

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