domingo, 18 de agosto de 2013

JAISON BARRETO


   Por Olsen Jr.
   Fui surpreendido recentemente por um convite inusitado. Perguntaram-me se poderia dar um depoimento para um futuro Documentário sobre o ex-senador Jaison Tupy Barreto. Fiquei surpreso pelo fato de que, embora tenha iniciado a militância político-partidária em 1973 no extinto MDB, em Blumenau (onde eu o conheci) nunca me convidaram para nada no partido. Uma vez, por indicação do jornalista Arthur Monteiro, me incluíram numa lista para ser suplente no Diretório Regional de Blumenau, mas sempre recebia com atraso os convites para as reuniões, em outras palavras, era para não aparecer mesmo.    Os medíocres têm verdadeiro pavor de gente que pensa por perto, porque, parodiando o velho Descartes, “penso, logo tenho ideias próprias, logo não sirvo”, é isso.
   Disse que aceitava se pudesse contribuir com alguma coisa, afinal, qualquer referência ao Sr. Jaison Barreto, constituiria uma alusão a alguém que durante um lapso temporário, num tempo especialmente difícil da vida brasileira, se constituiu em um paladino na busca de justiça social, na luta intransigente pela liberdade, seja de expressão, social ou política e, sobretudo, de uma dignidade e uma ética capaz de restaurar o respeito do homem pelo homem. 
   Desde a quartelada que impôs um regime de exceção no País e que durou 21 anos, tivemos muitas ilusões.
   Na década de 1960 ainda, foi o fuzilamento do médico argentino Ernesto Guevara na selva boliviana, em 1967 e retratada no livro proibido “Meu Amigo Che”, de Ricardo Rojo; foi o assassinato do estudante Edson Luis, no restaurante Calabouço no Rio de Janeiro em 1968 resultando na Passeata dos 100 mil bem documentados na obra proibida “O Poder Jovem”, de Arthur José Poerner; foi o Ato Institucional nº5, dezembro de 1968, baixado depois de um discurso do deputado Márcio Moreira Alves que conclamava a população para boicotar o desfile de 07 de Setembro e que culminou com o fechamento do Congresso Nacional; foi a cooptação dos padres beneditinos, as torturas subseqüentes e a emboscada que matou o ex-deputado Carlos Marighella, em 1969, história narrada no livro proibido “Batismo de Sangue”, do Frei Beto; o Decreto-Lei nº 477 que inibia toda a participação universitária (professores e alunos e funcionários) na política ou em movimentos reivindicatórios...
   Na década de 1970, começou com a morte do ex-capitão do exército Carlos Lamarca que tinha ousado combater o regime através da luta armada em 1971; depois a morte do jornalista Vladimir Herzog, sob tortura e dissimulada num “suicídio”, no interior do DOI-CODI paulista em 1975; a Operação Barriga-Verde desencadeada em 1975 que cassou, torturou e sumiu com membros do Partido Comunista Brasileiro em Santa Catarina; outra morte sob tortura do operário Manoel Fiel Filho também nas dependências do DOI-CODI em 1976; a Novembrada em 1979, movimento de protesto que começou com o impedimento da instalação de uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto e que pôs o regime militar em cheque...
   Na década de 1980, nossas ilusões ganharam outros desdobramentos. Junto com a inauguração da Usina Hidroelétrica de Itaipu, em 1982 nos acenaram com eleições diretas em todos os níveis, exceto para a presidência da República. 
   Nesse meio tempo, de 1964 a 1982 tivemos de conviver com a censura prévia nos jornais, quando o Estado de São Paulo começou a publicar trechos do poema “Os Lusíadas”, de Camões nos espaços deixados por textos censurados e também receitas culinárias; Chico Buarque era boicotado sistematicamente pelos censores e passou a assinar como Julinho da Adelaide. Mas era as peças do Plínio Marcos, O Pasquim, até a Adelaide Carraro por motivos de um falso moralismo e que culminava premiando livros ruins, mas é outra história. 
   As eleições de 1982 foram de cartas marcadas. A oposição deveria perder em todos os Estados. Aconteceu com o Pedro Simon (RS), Jaison Barreto (SC)... E só o Brizola triunfou no Rio de Janeiro porque denunciou a Proconsult que administrava o pleito na rede Globo ao vivo.
   No livro “Violência e Golpe Eleitoral: Jaison e Amin na disputa pelo governo catarinense”, de Itamar Aguiar, publicada pela Editora da FURB, tudo está dito.
   Foi em 1985 que, ante a iminência de se fazer a última reunião do Colégio Eleitoral, (aquela farsa montada para se indicar o presidente da República) e sob a promessa de um alto jeton para os deputados e senadores participarem, foi que a equipe de Jaison Barreto sugeriu que se fizesse um Concurso Literário com o tal cachê. Promovido pelo jornal “Lutas da Maioria” que divulgava as ações do senador e coordenado pelo sociólogo Remy Fontana assim foi feito. O Concurso que atribuiu Cr$ 3 milhões em prêmios e foi um grande happening cultural na cidade com direito a matéria de página inteira no jornal “O Estado”, assinada pelo jornalista Paulo Clóvis Schmitz.
   O primeiro lugar ficou com Olsen Jr. , o segundo com Ivan Giacomelli e o terceiro com Meiri Coletti. A Comissão Julgadora foi composta por Raul Antelo, Walter Costa e Cleber Teixeira.
   Acontece que o tal jeton, por pressões populares, acabou não saindo, daí resultou que o senador Jaison Barreto teve de pagar do próprio bolso e o evento ficou mais valorizado ainda por esse desfecho.
   Jaison sempre teve a imagem do Dom Quixote e a do Dom Juan associadas sob sua égide... Prefiro a primeira, do idealista, “erguendo os gládios e brandindo as hastas, no desespero dos iconoclastas, quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”, como diria Augusto dos Anjos, e vergastando os vendilhões do templo semelhante a um Jesus Cristo moderno, diante da incredulidade de quem o estivesse assistindo, porque somente um desvairado pode resistir ao apelo de tantas facilidades estando no poder.
   Assim, hoje, em que a velha sigla de guerra que ajudamos a construir e onde nos abrigamos para combater o bom combate diante de grandes causas comuns (agora nem tão grandes e nem comuns) já se transformou –sinal dos tempos- num mero balcão de negócios, aonde indivíduos sem qualquer compromisso com a história vêm tratar de seus próprios interesses, posso afirmar, que conheci um homem que preferiu a solidão dos que não compactuam com a farsa a permanecer do lado de dentro do mesmo balcão como outro vendedor qualquer, de novas e permanentes mentiras. 

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