domingo, 18 de agosto de 2013

O dia que morri !


    Já era o segundo dia do apagão em Florianópolis (2003). Mesmo à luz de velas, a noite tinha sido “comprida”. Fiquei até tarde em um bar na Lagoa. Com o apagão, Floripa parecia o fim do mundo e aí resolvemos beber até...o fim.   Cheguei em casa com uma dor forte no lado direito da barriga. Tentei dormir e não consegui. O dia clareou e a luz não vinha. Começamos a acompanhar o caos da cidade pelo radinho. Era carro boiando nas garagens da beira mar. Sem sinaleiras o trânsito ficou insuportável. Polícia? Como chamar, nada funcionava. A dor aumentava. Buscopan já não fazia efeito.Lá pelas 4 da tarde resolvi:

- Vou para o hospital!
   Mas que hospital? Só no Estreito onde ainda tinha eletricidade e assim mesmo entupidos de gente. O Hospital Universitário era uma alternativa. Devia ter um plantão de emergência, pensei. Mesmo não acreditando muito me dirigi ao HU. Chegando lá estava tudo vazio. A “clientela” se mandou tudo pros hospitais do Estreito. Me dei bem!
   Fui atendido imediatamente. Um sextanista me examinou e logo chamou o médico de plantão. Mais um exame rápido e ele mandou prepara a sala de cirurgia.

- Apendicite aguda!

   No quarto andar tinha um gerador de eletricidade cedido ao HU pela RBS. Me deram um avental, aqueles de bunda de fora, umas pantufas e uma touca branca pra cabeça. Quando saio da sala, todo fantasiado, já me esperavam um médico e três enfermeiros. Todos de branco e com máscaras. Imediatamente me colocaram um soro no braço e apontaram para um corredor escuro, é claro, e disseram vamos!

- Como assim? Pra onde? Tá tudo escuro!

   Uma enfermeira rapidamente me alcançou um vela acesa que transportei na frente daquele séquito pra lá de estranho. Eu não sabia, mas no soro já tinha uma droguinha prá amaciar a carne e a cabeça.
   
   Dias antes do acontecido, havia visto uma entrevista na Ana Maria Braga com um senhor espírita Cardecista que seria o substituto do Chico Xavier. Não sou dado às crenças mas ouço espíritas (não vejo mostos). Lá no meio da entrevista o amigo falou que "espíritos de pouca luz", atrasados, demoram muito a desencarnar. Ou seja, morrem e não percebem. Ficam sofrendo por aqui. Os espíritos "iluminados", esses sim, sobem rapidamente. Encontram os enfermeiros do universo, todos de branco, que encaminham eles para os “canais competentes” nos hospitais espaciais. 
   Achei interessante a estória. Gostei, fiquei até impressionado com o lance.

   Quando começamos a subir as escadas do HU em direção ao quarto andar, lá pelo segundo eu olhei ao redor, revi a cena, todos de branco e eu com uma vela na mão, saquei na hora:

- Eu morri!!!! Gritei. 
(sou rápido para perceber as coisas)

Todos riram e eu rapidamente me recompus e, com uma ponta de alegria, lasquei:

- Morri mas sou um espírito de luz. Já me dei conta!

   Fui perceber que estava vivo lá pelas nove da noite quando abri os olhos e meus filhos e minha mulher estavam na minha volta, já no quarto do hospital. 
   Que apagão!!!!
                                                     Publicado originalmente no cangablog em   29 de outubro de 2003. 


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