domingo, 8 de dezembro de 2013

Sartre e os pica-paus de Berlim*


   Por Janer Cristaldo   

   O sonho acabou, dizem intelectuais ditos de esquerda, ao referir-se ao fracasso total dos regimes comunistas. Digo intelectuais ditos de esquerda, porque jamais aceitei esta conceituação, afinal desde os anos 20 as tais de esquerdas vêm cultuando os vícios que atribuíram à tal de direita. Os gulags, é bom lembrar, datam de 1918. Hitler nada teve de original. Por sonho, nossos intelectuais entendem o socialismo. Estes sonhadores profissionais sempre viveram no cálido e capitalista Ocidente, é claro. Socialismo, no olho alheio, é colírio. Para quem o sofre, um pesadelo.
   O sonho pode ter acabado. Mas apenas para estes esquerdofrênicos que, degustando um scotch e pinçando castanhas ao som de Chico Buarque, louvavam o regime inumano que oprimia milhões de seres na China, União Soviética e colônias. Disse oprimia? Perdão leitor. Continua oprimindo. Se os países do Leste europeu começam a tatear um caminho de liberdade, Gorbachov ainda não está conseguindo impor a perestroika em sua própria casa. Quando os comunossauros de Moscou largarem o osso do poder, só então poderemos respirar tranqüilos. É bom lembrar que as tropas russas continuam estacionadas na Europa central. A Gorbachov, para concluir sua missão, só falta um passo: declarar massa falida o sistema que o gerou. Ou seu projeto terá sido vão.
   De Paris, recebo duas cartas. A primeira, de amiga que agora cogita visitar-me, pois finalmente o Brasil teve "eleições democráticas". (As aspas são dela, não minhas). Pelo jeito, preferia a barbárie no poder. A propósito, no período do segundo turno, os jornais franceses estavam saudando Monsieur Lula como le futur président du Brésil. Francês sempre teve o coração à esquerda. Socialismo é ótimo, desde que longe da França.
   Mas falava de minha missivista, que já viajou pela China, União Soviética, países do Leste e jamais exigiu eleições livres do lado de lá. Conseguiu inclusive entrar na Albânia, último reduto dos "puros e duros", para onde agora estão viajando cinco deputados brasileiros, entre eles Florestan Fernandes, homem dotado de tal coragem intelectual que chegou a apoiar os massacres da praça da Paz Celestial em Pequim.
   Da Albânia, minha amiga parisiense contou-me uma história divina. Encrave tirânico e medieval em meio a uma Europa moderna, a agricultura do país ainda está na fase da enxada e do rabo do arado. Enver Hoxha, acusado pela imprensa ocidental (pela albanesa é que não o seria) de manter um sistema que sequer produzia um trator, convocou seus engenheiros e ordenou a construção de um. Construído o dito, ficou provado que o poderoso pensamento camarada Hoxha era capaz de conceber uma agricultura mecanizada. Provado isto, o trator foi para um museu, onde até hoje está, enquanto os albaneses continuam entortando as vértebras no cabo da enxada.
   Na segunda carta, as angústias do final de década de um brasileiro há muito vivendo em Paris: "Toda a ideologia dominante de nossa geração e os castelos e fortalezas que sobre ela foram construídos se esboroam sobre as fundações que supúnhamos sólidas. No PCF a debandada é geral, o que, em comparação com o resto é um epifenômeno localíssimo. Embora a política não tenha sido objeto de minhas paixões, vejo tudo isso boquiaberto e me pergunto que nova Jerusalém o espírito humano (e europeu) vai nos tirar de sua caixinha de surpresas".
   Pois espero que o espírito europeu não conceba mais nenhuma, que de Jerusaléns estamos fartos. Gerações e gerações foram sacrificadas neste século na busca de um ideal assassino, e ai de quem discordasse dos sagrados postulados de Moscou! Dois milenaristas no poder já são demais para um único século em um só continente. Hitler e Stalin foram adorados por seus contemporâneos e quase afogaram a Europa no mais vasto mar de sangue que até hoje temos notícia. Hitler, ao perder a guerra, foi relegado ao papel de vilão. Mas não tenhamos dúvida alguma: se a ganhasse continuaria a ter adoradores no mundo todo, pois quem escreve a história são os vencedores. Stalin, vitorioso, virou Deus. Mas, como dizia Marx, tudo que é sólido se desmancha no ar. Esta singela frase, quase escondida no Manifesto, não parece ter recebido a devida atenção de seus seguidores.
   O tosco e rude messianismo russo impressionou os intelectuais do Ocidente a tal ponto que Sartre, ao voltar de uma viagem à União Soviética, declarou ao Libération, em 1954: "A liberdade de crítica é total na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E o cidadão soviético melhora sem cessar sua condição no seio de uma sociedade em progressão contínua. Exceto alguns, os russos não têm muita vontade de sair do país... não têm muita vontade de viajar neste momento. Têm outra coisa a fazer em casa".
   Mais uma pérola: "Lá por 1960, antes de 1965, se a França continua estagnada, o nível médio de vida na URSS será de 30 a 40% superior ao nosso. Qualquer que seja o caminho que a França deve seguir para sair de seu imobilismo, para recuperar ser atraso industrial, para se constituir como nação diferente da de hoje, ele não pode ser contrário ao da União Soviética". E nisso é que dá receber mordomias de Moscou. Esta prostituta respeitosa, que chegou a receber o prêmio Nobel e o recusou de puro despeito, pois Camus o havia recebido antes, foi guru de toda uma geração de tupiniquins. Entende-se agora melhor Nelson Rodrigues quando dizia ser o pensamento de Sartre de uma profundidade tal que uma formiga o atravessava com água pela canela.
   Todo anticomunista é um cão, decretou um dia Sartre. Com a autoridade de parisiense que determina qual será o perfume ou filosofia da década, condenou ao círculo dos infames todos os pensadores lúcidos que clamavam por liberdade, Camus inclusive.
   Em 1980, assisti ao enterro de Sartre, acompanhado por stalinistas e compagnons de route. Pena ter morrido tão cedo. Teria hoje a coragem de chamar de cães toda esta gente que derruba dos prédios estrelas vermelhas e rasga das bandeiras a foice e o martelo? Serão cães estas nações que querem abandonar de suas histórias a palavra comunista? É uma pena, realmente, que Sartre não esteja vivo neste final de década.
   Falava de cartas. De Berlim recebo outra: "Vem logo, ou não vais conseguir nenhum pedacinho do muro como lembrança". Minha interlocutora me conta que, dia e noite, ouve-se um matraquear incessante de berlinenses de picaretas em punho, grudados ao muro que nem pica-paus a um eucalipto. E eu, que tanto me queixo dos ruídos de Florianópolis, não vou resistir ao convite para este concerto.

* Joinville, A Notícia, 11.02.90

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