sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

CIVILIZAÇÕES


   Por Emanuel Medeiros Viera

   “Civilizações feneceram e isso me consterna. Incas, Maias, Assírios, Fenícios, Babilônios, Gregos. Não os conheci. Não os conheço (...) Que insuspeitas relações tiveram? (...) A arte são marcas de passagens. (...) Não sei porque escrevo, menos ainda o que isso possa significar.” (...)

(Herculano Farias)

   “Nada sabemos, a não ser que há uma noite/pura e vazia à nossa espera. Uma noite intocável/além do fogo e do gelo, e de qualquer esperança.”
(Ledo Ivo)


   E continuamos a cada dia. Tentando celebrar os momentos- encantamentos. Sim: há soberba, cobiça, pessoas que se acham insubstituíveis, celebridades vãs. E depressa desaparecerão. Mas continuamos.
   Há fé (às vezes). Há sombras, pó, e esperança.
   “Estás sendo pessimista”, adverte uma voz interior. Basta olhar o mundo ao redor. Nada de novo. É preciso manter o circo. Sempre. O cantor famoso “passou”, espremido como laranja. Criam-se outros. Como a loira gostosa no anúncio de cerveja. A insinuação subliminar dos espertos publicitários: “tome essa cerveja e terás a loira”.
   E há os marqueteiros. Ganhando rios de dinheiro, estabeleceram o reino da mentira virtual. “Mas as ditaduras acabaram na América a Latina”, alguém lembra. E o que veio depois? Desagregação (traição, deslumbramento) de muitos sonhos e dos maiores valores. E as revoluções implantadas viraram sistemas totalitários. Não?
   E criamos todos os dias. Será a arte que nos salvará?   “Inventamos” uma realidade. Não a revelamos. E continuamos. Parece que já existem mais escritores que leitores. Toneladas de opiniões (nos jornais, no mundo virtual) não saciam. Pois a incompletude é a nossa sagrada e irreversível marca. Como em tantos momentos, talvez saibamos mais o que não queremos do que aquilo que queremos.
   A cura é a morte do desejo? Civilizações morreram.
   Ando por Pompéia, está frio, e penso em todos que por aqui andaram, em todos os pés que aqui pisaram.
   Penso o mesmo no Pelourinho – “ouvindo” o gemido dos escravos. Mas a agitação dos turistas com suas máquinas fotográficas e celulares, é mais forte do que as minhas reflexões. E meninos cheiram crack e assaltam.
   O desejo é registrar tudo. Tudo. Mas somos meros fragmentos de outros fragmentos.
   Há mais motivos para beber do que para não beber – eu sei.
   Mas-ainda mais moralista na maturidade – creio que é melhor não beber. Sim: pela vida (perdoem o lugar-comum.).    Mas tal opção é absolutamente subjetiva, e prefiro ouvir um Canto Gregoriano nesta capelinha do que os berros e gritos em um culto, garantindo que Cristo voltará (e se deres mais dinheiro, ele chegará mais rápido).
   É outra manhã. Sim, sonhávamos refundar o mundo, e a alegria não-napoleônica de uma criança mexendo numa máquina de escrever-estranhando-, e um pássaro cantando é maior que isso. Mas, é claro, também passaremos e bem mais rápido que as civilizações. Mas-mal rompendo a aurora-estarás aqui de novo, seguindo o ofício, não buscando álibis. E continuarás, até o dia em que escutarás um assobio e irás-sereno-atravessar a ponte.

(Brasília, janeiro de 2014)

   Comentário:
   Foi um redobrado prazer relembrar a figura do Emanuel Medeiros Vieira através do seu texto.
   Eu o conheci há muitos e muitos anos atrás, antes de vê-lo partir para Brasília.
   Inteligente, sensível, profundo, politizado, educado, sempre o vi como um ser humano admirável.
    Parabéns Canga, pela escolha do belo texto e pela lembrança do velho amigo.

Saudações,
Jaison Barreto.

Um comentário:

Jaison Barreto disse...

Foi um redobrado prazer relembrar a figura do Emanuel Medeiros Vieira através do seu texto.
Eu o conheci há muitos e muitos anos atrás, antes de vê-lo partir para Brasília.
Inteligente, sensível, profundo, politizado, educado, sempre o vi como um ser humano admirável.
Parabéns Canga, pela escolha do belo texto e pela lembrança do velho amigo.

Saudações,

Barreto.