terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A viagem de Ige D'Aquino



   Ige D'Aquino. O Ige. Artista plástico mundano de Belo Horizonte, depois de passar alguns tempos por Londres, Lisboa, Florianópolis e Estônia acabou esquentando banco em Itú, São Paulo. Irmão do Lengo, do Nenê e companheiro da doutora Márcia Denise, nossa amiga e companheira de militância no movimento estudantil durante a ditadura militar.
Ige, de colete preto, na redaça do Novo Jornal
      Conheci o Ige em 1983.  Voltava do Uruguai e estava lançando, com o Jurandir Pires de Camargo, o nosso 6º jornal. o Novo Jornal.
   Ige apareceu pela redação e acabou responsável pelo projeto gráfico e pelas capas do jornal. Foi o primeiro ilustrador a ter um trabalho em "policromia" pulicado em um jornal por aqui. O Novo Jornal foi o primeiro jornal a cores de Florianópolis.   
Auto-retrato
Dono de um perfil insone, dormia quase nada, e calmo que em nada retratava a efervecencia criativa interna que se manifestava em sua arte, em suas pinturas diretas, ironicas e provocativas fora de qualquer estilo estabelecido. Sempre desafiando as leis da natureza dando uso completamente distintos aos materias que usava e que finalmente se se transformavam em arte.

O Mágico. Quadro que me retratou.
   Nanquim, tinta, ferro, papel, cortiça, vinagre e palha de aço eram elementos que tomavam outra forma e sentido nas mãos do Ige. Materiais que eram subvertidos pelo artista com uma maestria anárquica tomando forma puramente estética, instigante e provocativa. Arte puramente emocional, sem mensagens ou explicações do conteúdo. 
   A última vez que nos encontramos foi por acidente.  Acredito que fazem uns quatro verões. Perto da meia-noite caminhava eu pelo final da Av. Pequeno Principe, no Campeche, em busca de um bar aberto para tomar uma "última" saideira.
Capa do Novo Jornal. 1983.
   De repente percebo um vulto que sai do mato à esquerda e começa a caminhar quase ao meu lado. Olhei de soslaio e diminuí o passo para ficar, no mínimo, ao lado do personagem. Percebi que tinha uma garrafa de cerveja nas mãos e balbuciava alguma coisa. Não sei se era um verso de música ou um trecho do On The Road. Mas balbuciava.
   Quando chegamos à luz nos percebemos amigos. Era o Ige. Não nos víamos há anos. Bem...faltou bar para uma última saideira. Conversamos, rimos e viajamos até de manhã. O Ige gostava muito das mágicas com moedas que eu fazia. Sempre que nos encontrávamos me pedia para fazer e falar a frase: "Não é truque nem magia é pura habilidade manual". Ele gostava disso!
   Dono de um mundo psicodélico, criativo, com uma
mitologia própria, novidadoso e em constante transformação, era generoso comigo e sempre me convidava a compartilhar o seu mundo. Eu ía! Viajava com ele! Viajamos muito! Coisas prazeirosas, alegres e vivas! Tinhámos o mesmo bom gosto pela química!
   Acho que não vou levar em consideração a triste notícia que recebi hoje de manhã, de que o Ige teria morrido nesta madrugada.
   Não nos víamos mesmo, eu aqui e ele lá em Itú, vou continuar lembrando do amigo como sempre. Saindo da sombra e me convidando a viajar pelo seu mundo maravilhoso. 
   Que amigo querido!

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