sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

BARBÁRIE

Por Emanuel Medeiros Vieira
   A violência relacionada ao futebol, no fundo, está relacionada à violência maior da sociedade brasileira.
   Um homem espera o ônibus para voltar para casa, após o jogo, vestindo a camisa do seu time e é massacrado por torcedores de outra agremiação.
(No mesmo dia, 23 de fevereiro, um domingo, num shopping de Brasília, um rapaz é barbaramente espancado por um motivo banal. Está em coma e, se sobreviver, ficará com sequelas irreversíveis.)
   O que está havendo?
   Alguma catarse carnavalesca fará que meditemos sobre tais problemas?
   Nunca fomos uma “sociedade cordial”. Foram séculos de escravidão, de exploração, e a ideia geral é de dizer: “é assim mesmo”.   Chegamos à barbárie sem conseguirmos alcançar a civilização.
   Como observou alguém, nunca se matou com tanta facilidade em assaltos. Nunca se apertou o gatilho com tanta indiferença à dor alheia. “A vida nas cidades e, cada vez mais, no interior é de uma violência inacreditável. O trânsito é uma violência contra a mente humana.    O transporte público violenta dia após dia. Acumularam-se violências em todas as áreas de vida.” Postos de gasolina são assaltados todos os dias. E tantas outras barbáries cotidianas.
   Todos sabem que a explosão no consumo de drogas exacerbou a violência da criminalidade.
   Escreveu Luiz Gonzaga Belluzo: “O descumprimento do dever de punir pelo ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel.”
   E de buscar soluções para um país que seja menos desigual – pelo menos isso.

(Relendo texto, percebo que repeti várias vezes a palavra “violência”. Mas não há outro jeito de falar.)

Volto ao começo do texto:

“Um homem espera, sozinho, o ônibus que o levaria para casa. Dois carros param diante dele. Os homens que descem o massacram furiosamente com barras de ferro. Até reduzi-lo a um monturo de sangue e carne sem vida. Entram nos carros e ao embora. (...) Estamos, no Brasil, em agravamento da brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificado como violência urbana. (...) Um homem espera um ônibus que o levará para casa. Onde nunca mais chegará. E onde o esperavam um filho de meses e a mulher.”
(Jânio de Freitas)

(Brasília, fevereiro de 2014)

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