sábado, 8 de fevereiro de 2014

Dra. Ramona


   Por Armando José d’Acampora *

   Se Castro Alves aqui estivesse, certamente escreveria um poema que chamaria de Navio Negreiro da Saúde.
   A forma inusitada, firme, lúcida e decidida de uma médica cubana em abandonar o Programa Mais Médicos, mostra o que a descoberta da liberdade ocasiona. Imprensa e parlamento livres, debates abertos nas emissoras de rádio e tvs, tornaram a vida feliz de uma médica que achava ótimo ganhar quatrocentos dólares ao mes, virar um inferno, pois se viu enganada, vilipendiada, e utilizando um vocábulo bem brasileiro, sacaneada por um governo que até então acreditava.
   Não aconteceu o mesmo conosco quando descobrimos a trama urdida um ano antes entre o governo federal e Cuba? Foi o mesmo quando denunciamos o trabalho escravo que um pseudo Ministro da Saúde apregoava aos quatro ventos como a salvação da medicina brasileira? Com escravos, com diferentes num país que procura a equidade entre as pessoas?
   Será que as pessoas são tão cegas que não percebem o porque de um médico brasileiro estudar seis anos na Universidade e mais cinco de Residência Médica antes de se colocar a disposição dos pacientes?
   É simples. No Brasil o cidadão tem de realizar vestibular, cuja média é de mais de oitenta candidatos por vaga, se for nas federais, este número sobe para mais de cem candidatos por vaga.
   Após passar na rígida seleção do vestibular, o aluno é obrigado a cumprir em torno de 7200 horas (é isso mesmo, sete mil e duzentas horas) de estudo para poder ser titulado médico e são avaliados mensalmente durante os seis anos do Curso de Medicina, enquanto que em Cuba, são necessárias 2700 horas (duas mil e setecentas horas).
   Ora, com mínimo de 3200 (três mil de duzentas horas) se aprende a falar uma língua estranha a nossa, assim como se aprende a tocar perfeitamente um instrumento musical com o mesmo número de horas dedicadas ao treinamento. Duas mil e setecentas deixa a desejar.
   No Brasil, no primeiro ano do Curso Médico, um aluno aprende aproximadamente 5000 (cinco mil) novos vocábulos, portanto já fala uma língua diferente, talvez seja o tal de mediquez.
   Mas tudo isso requer um esforço maciço para que se chegue ao fim. No entanto, em nenhum momento destes seis anos de Curso de Medicina ou dos cinco de Residência Médica, falta ao médico brasileiro, liberdade de ação, de locomoção ou de expressão.
   Parabéns a essa Dra. Ramona, que embora tenha deixado sua filha em Cuba, teve a ousadia de querer a liberdade.


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Médico, Cirugião, Professor Universitário

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