quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PORNO-DESPERDÍCIO

A repórter Laura Capriglione mostra o que a Fifa e o governo africano varreram pra baixo do tapete durante a Copa da África do Sul
   
Mobilização do Exército para conter qualquer eventual tentativa de manifestação durante a Copa. 
   
 Durante a Copa do Mundo da África do Sul, o centro do Johannesburgo era o lugar perfeito para não estar. Naquele junho de 2010, guias turísticos faziam questão de advertir: “À noite, não vá!”
   O normal ali é a polícia se retirar assim que o sol se põe e o comércio baixa as portas. Sem lei, os quarteirões ficam, então, entregues ao submundo do tráfico, a usuários em busca de droga, aos loucos, aos sem-teto, aos refugiados de tantos países africanos.
   Naquele mês, não. O que não faltava era polícia. Vai que um turista desavisado resolvesse dar um rolé pelas ruas…
   Mobilização do Exército para conter qualquer eventual tentativa de manifestação durante a Copa. A foto foi tirada no dia da abertura da Copa, a caminho do Soccer City. (Foto: Laura Capriglione)
   Como repórter cobrindo a Copa do Mundo, eu tinha sido convidada com outros colegas pelo bispo da Igreja Metodista Sul-Africana, Paul Verryn, a conhecer uma situação que julguei impossível de ver exposta aos olhos da mídia de todo o mundo, em uma cidade-sede da Copa do Mundo.
   Nem havíamos bem estacionado o carro, quando duas viaturas aproximaram-se ansiosas. De dentro de uma delas, saiu o sargento Nzama Ngobeni que foi logo advertindo: “Eu, se fosse você, não entraria aí. Tudo pode acontecer em um lugar como esse”. Fomos.
    Acompanhados por um assistente de Verryn, entramos na escuridão do prédio, onde pelo menos 2.000 pessoas acotovelavam-se no chão, em um frio de 0ºC. No lugar de colchões, papelão.
   O cheiro azedo de urina e suor, misturado a alguns restos de comida, criava uma atmosfera nauseante. Como faltasse espaço no chão, vários homens tinham de dormir nas escadarias do prédio. Mas os degraus estreitos não permitiam a acomodação na largura. O jeito era enrolar-se no cobertor fino e, como uma múmia, tentar se equilibrar –a cabeça em degraus mais altos, os pés nos mais baixos. Qualquer movimento em falso e o corpo escorregava; às vezes atropelando outro albergado no lugar.
Cartaz símbolo da Copa, é parodiado: "FIFA é ladra".
   Cercados pela polícia, os sem-teto da Igreja Metodista eram os últimos remanescentes da “faxina” promovida pelo governo de modo a retirar da cidade-sede da Copa do Mundo, os milhares de sem-tetos que vivem nas ruas de Johannesburgo, principalmente no centro. A maioria deles foi desovada em subúrbios, como Brixton e Illovo. Os renitentes 2.000 que permaneceram na igreja, boa parte refugiados zimbabuanos, moçambicanos e congoleses, não saíram por receio de perder em definitivo o contato com seus parentes distantes - a igreja de Verryn é referência internacional no acolhimento de refugiados.
   Apesar dos gastos astronômicos com a construção dos estádios (R$ 5 bi), nenhum tostão foi endereçado pelo governo para os abrigados na igreja sitiada pela polícia. Sem víveres, sem remédios, eles acabariam “optando” por sair.   Ressalte-se que também não havia, então, um só albergue

público na cidade. 
   Leia reportagem completa. Beba na fonte.

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