quarta-feira, 9 de abril de 2014

Receituário Geral


   Por Jaison Barreto
   SÁBIO É O LÍDER político que consegue distinguir o adversário leal, o opositor correto do sabujo e vassalo.
   Ulysses Guimarães sempre soube, por exemplo, respeitar aqueles que ficaram denominados como Grupo dos Autênticos, até mesmo quando nós não votamos no seu nome para Presidente da República quando participou do Colégio Eleitoral com a sua anticandidatura. Fizemos o mesmo, anos depois, com o General Euler Bentes.
   Ulysses tinha essa dimensão e essa compreensão da verdadeira política.
   Deixou escrito inclusive que nós éramos “o sal, a pimenta, o tempero do MDB”.
   Trago estas lembranças em um momento difícil da vida brasileira, em especial também aqui em Santa Catarina.
   Constrangido fico, talvez mais do que muitos militantes e seguidores do PMDB quando vejo, me perdoem a expressão, como “velhas matronas” ousam de maneira até deseducada pra não dizer politicamente incorreta, diminuir, apequenar a dignidade e a importância de milhares de filiados e militantes do seu próprio partido, com estrutura partidária a mais forte do Estado, 180 prefeitos, uma bancada estadual e federal, Senadores, o maior partido do país, simplesmente afirmar que não dispõe de um nome para disputar a eleição para Governador do Estado.
   O que se critica, de maneira positiva, é um partido com essa história e essa estrutura nunca ter conseguido eleger um Presidente da República, mas sempre atrelado ao exercício do poder com a sua cúpula dirigente.
   O grave é que não é um simples escorregão.
   É um exemplo deseducador que deve ser denunciado, porque está na raiz do descrédito da classe política.
   Isso tem nome, isso está descrito como prática de fisiologismo, de manipulação de interesses próprios em prejuízo dos interesses coletivos e há toda uma literatura a respeito.
   É sobre isso que eu comento, trazendo uma contribuição dura, constrangida, mas sei, necessária.
   “Oração do Adeus”, discurso de Ulysses Guimarães em 2001, depois de ter sido traído pelo seu próprio partido quando candidato à Presidente da República em 1989 (sétimo lugar), merece ser divulgado.
  Enganam-se os que pensam que é um discurso para emedebistas e peemedebistas.
   Ele ultrapassa as barreiras partidárias, serve de arcabouço para a reconstrução da nossa vida política, para a regeneração dos nossos costumes, fundamentais para a construção da democracia.
   O Brasil precisa dessas conceituações.
   A interpretação e a compreensão do texto cabe a cada um fazer.

Saudações democráticas,

Oração do Adeus
IX Convenção do PMDB, em 24/3/1991. Publicado na separata Oração do Adeus, editada pela Câmara dos Deputados em 1991.
   “Começo pelo começo. Pelo nosso começo: Os militantes. Sem eles não somos nada. Com eles, podemos ser tudo. Repito: O PMDB tem o tamanho dos seus militantes.
A democracia verticaliza vocações e talentos. A ditadura engessa na horizontalidade, medíocres, mentirosos e corruptos.
   Tantas vezes saí de casa, podendo não voltar.
   Muitos não voltaram. Não saía dividido entre família e o ideal. Saía inteiro. Porque não vi lágrimas nos olhos nem lamúrias ou apelos de prudência nos lábios de Mora. Repetidas vezes, quando chega a prudência, desaparece a coragem.
   Nossos mortos levantem-se de seus túmulos. Venham aqui e agora testemunhar que sobreviventes da invicta “nação peemedebista” não são uma raça de poltrões, de vendidos, de alugados, de traidores.
   Venham todos!
   Venham os mortos de morte morrida, simbolizados em Juscelino Kubitschek, Teutônio Vilela, Tancredo Neves.
   Venham os mortos de morte matada, encarnados pelo Deputado Rubens Paiva, o político; Vladimir Herzog, o comunicador; Santo Dias, o operário; Margarida Alves, a camponesa.
   Não digam que isso é passado.
   Passado é o que passou. Não passou o que ficou na memória ou no bronze da história.
   O PMDB é também o passado que não passou. Não o enterramos, pois estaríamos calando vozes que a nação ouviu e esquecendo companheiros que não se esqueceram de nós.
   Vinte e sete vezes de marchas pelos caminhos continentais deste país, mais do que a imensa geografia territorial, descobri e sofri a terrível geografia da gente e da fome.
   Não passaram nunca os dias inaugurais da fascinante campanha de 1974, inaugurada num barco balançando como gaivota no rio Amazonas.
   Convocados pelo apito, as populações ribeirinhas acorriam alvoraçadas.
   Vinham às carreira, a criançada à frente, vinham os homens de sandálias e dorso nu, as mulheres tostadas de sol e esgotadas pela procriação e pelo sofrimento, os cachorros latindo e os jericos de orelhas assustadas.
   Apesar dos arreganhos dos meganhas da opressão, vinham todos.
   Não passará o tropel de Teutônio Vilela, o louco manso. Com a pregação de anistia, arrancamos as grades das prisões, trancadas aos familiares e aos advogados de defesa, para dizer aos presos políticos que breve seriam devolvidos à família, à paisagem, à luta truncada pela truculência. Não passará o grito de “Diretas Já”, há muito amordaçado na garganta de cinquenta milhões de brasileiros, dançando, abraçando, cantando pelas ruas e praças desse colossal país (...).
(...) Este discurso eu escrevi com o coração e o leio com os olhos úmidos.
   Na política, mais difícil do que subir é descer.
   É descer não carregando o fardo podre e fétido da vergonha. Descer não desmoralizado pela covardia. Não descer com as mãos esvaziadas pela preguiça e pela impostura. Não descer esverdeado pelas cólicas de inveja dos que nos emulam, nos sucedem ou nos superam. Não descer com a alma apodrecida pelo carcinoma do ressentimento.
   Vou livre como o vento, transparente e cantando como a fonte.
   Desço.
   Vou para a planície, mas não vou para casa. Vou morrer fardado, não de pijama.
   Política se faz na rua ou com a rua.
   Vou para a rua porque o governo desgoverna a rua.
   Para o povo, o PMDB escorraçou o autoritarismo castrense. O PMDB, com o povo, removerá do Estado um século de carência Republicana.
   Meu filho PMDB!
   Vá em frente! Caminhe rumo ao sol, que é luz, não rumo à lua, que é noite.
   Que Deus te abençoe e a pátria ateste: Cumpriste o teu dever!”

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