terça-feira, 20 de maio de 2014

A última frase de Getúlio Vargas

   Fui ver o filme Getúlio ontem na sala 4 do cinema do Beiramar Shopping. As histórias que marcaram os últimos dias de vida do presidente do Brasil naquele agosto de 1954 povoaram a imaginação da minha juventude quase que diariamente.
   Durante os 100 minutos do filme lembrei do meu pai, o "guarda" Rubim. Getulista apaixonado, mantinha em cima da geladeira uma pequena estatueta de gesso de Getúlio tomando chimarrão e, na parede, um quadro com a foto do presidente sentado em uma rede na sua fazenda em São Borja. Ouvíamos sempre as histórias dos dias que antecederam a sua morte. O pai relatava-as como se estivesse presente no momento e local do acontecido.
   Nascido em Uruguaiana (RS), conhecia Getúlio desde São Borja. As duas cidades fazem fronteira com a Argentina, distantes cerca de 150 km. Quando foi nomeado Guarda Aduaneiro (agente de repressão ao contrabando), em novembro de 1941 foi até a Fazenda do Itú, em São Borja, pedir a Getúlio que assinasse pessoalmente a sua nomeação. Esse documento enfeitou a parede da sala de casa durante muitos anos.
   Falava de Getúlio, Bejo e Alzirinha Vargas com uma intimidade fantástica, vivia ali. Do "nego" Gregório, o "Anjo negro", guardava uma mágua profunda, a mesma que dividia com o "corvo" Carlos Lacerda.
Getúlio na Fazenda do Itú, em São Borja (RS)

   As histórias do "pai do povo" eram comun e corrientes em casa. A começar pela Carta Testamento de Getúlio que servia de suporte entre uma história e outra quando recitadas pelo pai com empolgação na hora do almoço.
   No filme duas coisas me chamaram a atenção. Uma me impactou: foi o último diálogo entre Getúlio e seu irmão, Bejo Vargas, na noite do suicídio. No filme as frases eram as mesmas que meu pai falava.
   Bejo entra no quarto do presidente e avisa que o ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, havia dito aos seus comandados que se Ele assinasse o licenciamento não voltaria mais à presidência.

- Quer dizer, então, que estou deposto Bejo? Perguntou o presidente.

- É o que parece Getúlio. Teria respondido o irmão.

   Esse diálogo ouvi muitas vezes da boca de meu pai. Relatava como se estivesse no quarto de Getúlio na hora do acontecido. A mãe diz que ele sabia de tudo através dos noticiários de rádio que escutava diariamente e da revista O Cruzeiro que recebia com atraso em Quaraí. Além disso convivia e recebia muita informação da vida pessoal de Getúlio através de seus colegas da guarda, na maioria ex-agentes da guarda pessoal de Vargas.
   A outra coisa que me chamou a atenção é que o filme mostra Getúlio colocando a Carta Testamento em um envelope amarelo no criado-mudo ao lado do seu leito de morte. 
   O pai sempre afirmou que Getúlio teria dado a carta para João Goulart, ex-ministro do Trabalho, com a recomendação de que só a abrisse quando chegasse em Porto Alegre.  A Carta Testamento teria sido entregue com o seguinte vaticínio de Getúlio, segundo o Pai: - 

- O perseguido era eu, agora serás tu, Jango!

Leia mais sobre Getúlio e o "guarda" Rubim, aqui.

Um comentário:

Grandes reportagens disse...

Belo resgate histórico, Canga!
A estatueta de Getúlio tomando mate é impressionante.
'Abrazón'.
Billy Culleton