sábado, 7 de junho de 2014

“A Liberdade – um mito. A Democracia – uma fraude”

Higino João Pio
   Por Jaison Barreto

Há sempre uma “besta” dentro das pessoas, que aflora quando quebrado o Estado de Direito.   


   Assisti a reunião da Comissão da Verdade Estadual com a exposição do laudo proferido pelos médicos legistas, através da TVAL. Era uma hora e meia da madrugada mais ou menos. Não consegui dormir depois.

   Confirmou o que a família já sabia, todos sabíamos, cousa de 45 anos atrás.

   Sendo sintético, a revolução aconteceu em 1964, trinta e um de março ou primeiro de abril.

   Casei no dia 4 em Brusque. Meu padrinho de casamento, sob protesto de muitos, meu amigão, foi o Doutor Francisco Roberto Dall’Igna, médico, deputado estadual pelo PTB, depois Vice-Governador cassado pela revolução.

   Foram dias terríveis aqueles, prenderam muitos amigos meus. Dia 6 ou 7 fui de fusca para Santos pegar um navio para o porto de Gênova na Itália, Eugênio C. Uma estranha lua de mel.

   Meu destino foi o Instituto Barraquer em Barcelona para um curso de Oftalmologia.

   Saía de uma ditadura em instalação para outra já consolidada, a do General Franco, na Espanha.

   Voltei em fins de 1965 e em 1966, com o pai do “Marcão”, hoje Vice-Presidente da OAB/SC, Dr. Luiz Antônio da Silva, fundamos o Movimento Democrático Brasileiro – MDB.

   Ele advogado e eu médico, ambos do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Fiação e Tecelagem de Brusque.

   Não me perguntem onde andavam algumas figuras da politica catarinense naquela época, se no DOPS ou no partido da revolução, a ARENA. Isso não importa.

   Fomos candidatos em Brusque a Deputado Estadual em 1966 pelo “MDB”. Não nos elegemos, mas plantamos uma semente contra a revolução.

   Abri meu consultório médico em Blumenau e ajudamos a eleger o Lazinho – Evelásio Vieira – Prefeito Municipal pelo “MDB”.

   O Ato Institucional Nº. 5 (AI-5) mostrou a face verdadeira do regime em que vivíamos, com a cassação de mandatos e o recrudescer da violência contra nós todos da oposição.

   Higino João Pio foi uma das vítimas dessa violência. Não foi cassado por nenhuma sigla partidária. Não foi vítima das ideias que defendia, não foi vítima por nenhuma desonestidade cometida.

   Nunca ofereceu risco à prática da democracia.

   Há sempre uma “besta” dentro das pessoas, que aflora quando quebrado o Estado de Direito.

   À sombra das ditaduras militares, quaisquer ditaduras, muitos abutres civis, constroem suas riquezas, fazem crescer seus patrimônios, seus privilégios, mudam as Constituições e plantam seu prestígio político, distribuindo benesses, favores.

   A homenagem ao Higino Pio, nós já fizemos no passado, que era o máximo que nos permitiram fazer com as nossas candidaturas em 1970, a Deputado Federal.

   A lembrança de hoje desses dias e do trabalho respeitável da Comissão da Verdade deve ser uma advertência dura contra os que em plena democracia não sabem respeitar seu sacrifício, envergonham a representação popular, desmoralizam os costumes políticos, desencantam a nossa gente e põe em risco a democracia brasileira.

   Os miasmas do autoritarismo andam por aí muito evidentes.

   Trágico seria eu relembrar o título de um discurso meu de muitos anos atrás: “A Liberdade – um mito. A Democracia – uma fraude”.

   Saudações Democráticas.

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