domingo, 25 de janeiro de 2015

Luisa e o mundo do circo


   Passávamos de carro pela via expressa sul quando vimos que estavam montando a lona do circo Vostok. A Luisa falou então que o tio Jê disse que a traria ao circo. Mesmo dirigindo naquele trânsito ruim de fim de tarde rumo ao sul da ilha o pensamento voôu e entrei no mundo dos circos da minha vida.

- Respeitável público!

   A frase saiu de repente em alto e bom som. A Luisa ficou atenta. Falei então que era assim que abriam os espetáculos no circo. O "dono", vestido com um casaco vermelho de lantejoulas, camisa e calça branca enfiada em umas botas de cano alto - normalmente eram os domadores - entrava triunfante com uma cartola preta na mão, anunciando o espetáculo.

- Respeitável público!
Uuuaaaauuu!!!!!

   Logo atrás vinha a banda tocando a clássica Entrada dos Gladiadores, de  Julius Fucik, (até solfejei a música para a Luisa) e atrás, pela ordem, bailarinas, trapezistas, malabaristas, mágicos, chipanzés, cavalos e...a palhaçada. Vinham num desfile malcomportado, dando cambalhotas, soltando traques e tropeçando uns nos outros, aquela alegria.

   Luisa ouviu tudo com muita atenção. A expectativa de ir ao circo se tornava cada vez maior, até que chegou o dia e o tio Jê, conforme prometido, a levou ao circo Vostok. Soube, no outro dia, que saíram no meio do espetáculo. A Luisa não havia gostado e pediu para ir embora. Fiquei curioso e preocupado. De repente "desenhei" para ela um circo fantástico, maravilhoso que não existia mais e ela acabou se frustrando.

   Fui procurá-la para saber do acontecido.

- Não tinha graça, vovô! Me disse de chofre, sem dar muita importância à minha curiosidade.

- Mas não tinha palhaço?  insisti.


Esses palhaços...
- Tinha, mas não tinha graça! Tinham até umas mulheres com os cabelos compridos, umas roupas bonitas, que eram penduradas por uma corda no telhado do circo. Mas não tinha graça!

   Bem, frustrado, preferi não falar mais no assunto e saí me sentindo culpado de ter criado tal expectativa na guriazinha. Até me questionei se o meu circo, aquele, era tudo aquilo que havia narrado para a Luisa.
   Passados alguns dias o assunto circo volta à baila. O Circo Tihany estava na cidade. O "dono" do Tihany, francês, foi ao La Cave, gostou, fez amizade com o pessoal  da casa e acabou fazendo um convite especial para que visitassem o circo.

   Lá foi a Luisa para mais uma experiência circense. Desta vez foi maravilhosa. A Luisa adorou os circo, o espetáculo, as cores das roupas, as luzes, as bailarinas, malabaristas e contorcionistas. Mas uma coisa deixou-a pasma, impressionada: o mágico que fazia uma mulher desaparecer!


Alegria...
- Vovô! Ele fez a mulher voar! Sem fio! Sem corda! A mulher foi subindo, subindo e desapareceu! 

   Bem, fiquei feliz com a notícia. Finalmente a Luisa havia entrado no mundo mágico do circo! 

   Depois do espetáculo, o diretor do Tihany convidou a Luisa, os pais, o tio Jê e a Julia para uma visita ao back stage do circo. Bem, essa parte me deu um certo temor pois alguma cena dos bastidores poderia quebrar a mágica do espetáculo, do circo. 

- Vovô, eu vi o mágico de bermuda e sem chapéu, lá atrás. E até uma mulher parecida com aquela que tinha desaparecido, mas não era, pois estava de bermuda e chinela!

   Por pouco, pensei! A mágica estava preservada!

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