segunda-feira, 11 de maio de 2015

IDOSOS


   Por Emanuel Medeiros Vieira

   Quanto vale um idoso no Brasil? Muito pouco – ainda mais sendo pobre.

   Além da vulnerabilidade emocional própria da idade, dos remédios que precisa tomar (e muitas vezes não tem condições para comprá-los), sente que o modelo (ou sistema, governo, seja qual nome for) não se interessa por ele. É como uma laranja que já foi espremida e pode ser jogada fora. No lixo (no contexto do modelo mercantil no qual vivemos).

   Não é só o governo. Muitas famílias não se interessam por eles. Talvez só aspirem o seu dinheiro, o seu salário. Sofrem a conspiração do silêncio, quando não são humilhados, judiados e ofendidos.

   É claro: não é regra geral o que foi escrito acima.

   Há muitas famílias que valorizam o idoso: reconhecem o que fizeram, têm amor por eles, espelham-se na sua trajetória.

   O Estatuto do Idoso foi sancionado em 2003, após 11 anos de lutas. Muitas de suas cláusulas não são obedecidas pela sociedade.

   Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informa que a população idosa no Brasil já alcança 26,2 milhões, e a estimativa é de que nos próximos 20 anos esse número mais que triplique.

   Lamenta Marise Costa Sansão, presidente da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas e Idosos do Estado da Bahia (de onde escrevo): “Não adianta se ter uma longa vida, mas sem dignidade porque a situação da maioria dos idosos baianos não é boa, pois 75% recebem aposentadorias de um salário mínimo e a maioria está em situação difícil devido ao acúmulo de empréstimos consignados”.

   Também João Bastos Freire Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, chama a atenção sobre princípios básicos para que o cidadão viva com dignidade, através de um preparo para o envelhecimento populacional em suas diversas esferas: saúde, social, educação, econômica.

   “Os números mostram que estava nova realidade do perfil populacional não só bate à porta, mas a escancara. É preciso estabelecer novas diretrizes para atender às demandas da velhice”, pondera o presidente.

   Ele também observou que a “ONU vem lutando pelos nossos direitos em outros países, onde os idosos são tratados com dignidade, mas aqui a repercussão é mínima. Não temos o apoio dos governos para nosso direitos”.
   O Sistema Único de Saúde (SUS) não está preparado para amparar a população idosa.

   Ocorre ainda a discriminação do idoso por parte da sociedade, principalmente em relação á reinserção no mercado do trabalho.

   Muitos idosos se aposentam (mesmo aptos para continuar na labuta), mas continuam a trabalhar, pois os rendimentos da aposentadoria não dão para sobreviver. E o idoso, muitas vezes, não encontra oportunidade no mercado do trabalho.

   Perdoem a platitude ou o lugar-comum: despreza-se o idoso, esquecendo-se que um dia todos o serão – se não morrerem antes.

   Tenho a tentação de terminar com uma palavra de ordem – paródia do que se dizia no movimento estudantil – “Idosos do Brasil: Uni-vos” – mesmo sabendo que eles já estão fragilizados, física e emocionalmente.                          
(Salvador, maio de 2015)

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