quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ESTRELA

   Conto de Emanuel Medeiros Vieira

Para CLARICE

   Então, eu disse para ela – tentando desdramatizar, buscando um sorriso: - quando sentires saudades, olha uma estrela (qualquer estrela), em qualquer noite, e tenta me enxergar lá – o bigode, o sorriso, as esperanças, as paixões, os erros, as lutas não vencidas, o sonhos, os voluntarismos, tudo o que quiseres enxergar.

   Ela camuflava a tristeza. Eu iria partir. Nunca se sabe quando.

- De qualquer maneira, eu sempre te amarei, e esse amor vai à eternidade, mas eu não quis ser solene ou retórico– era o que eu  sentia (sempre, só escrevi o que senti).

- Morrer é ficar longe dos amigos?

   Lembrei-me de um personagem de Gabriel Garcia Márquez, em “Do Amor e Outros Demônios”: O corpo humano não foi feito para os anos que a pessoa é capaz de viver (...).

   Vida e morte, não pedimos para nascer, não pedimos para morrer.

   “Os homens morrem e não são felizes” (Albert Camus).

   Fomos andar no Parque da Cidade.

   E fiquei pensando: vi esta “menina” nascer, assisti aos  seus crescimentos, os primeiros dentes, seu crescimento, a evolução do corpo, e ela estava agora com quase trinta anos, e é um sol nesta minha vida.

   Como em Nietzsche, a mim não foi concedido o benefício do esquecimento.

   Seria um lugar-comum, mas eu “discursei”: - é preciso ser forte, nascemos, vivemos, envelhecemos – se não morrermos antes.

   Entendi na prática o que estudara nas aulas de Filosofia: é preciso ser estoico.

   Não reclamar, seguir em frente.

   Fé? Eu não sabia se ainda a tinha.

   “Nada acontece no teu conto”, avisa um anjo.

   Um eventual leitor, talvez diga: “que triste!” ( o texto).

   Categorias como “alegria” ou “tristeza” não importam no que escrevo. Só busco colher  uma verdade humana, só escrevo o que sinto – sempre (perdão pelo tom solene ou retórico – ou pelo eventual lugar-comum).

   Parece um jogo de dados. Cai o número seis, o número um. Sempre cai algum número.

   Células “saíram do lugar”. O repertório é vasto – enfermidades várias.

   Passamos. Breve sopro.

   Insisti: sempre te amarei, aqui, depois, sempre.

   Comemos pipoca, tomamos água de coco.

   Estávamos no período de seca em Brasília.

   Seus olhos pareciam indagar: “por que”?

   Nunca saberemos.

   Nunca saberemos de nada.

   Em tradução livre, recordei-me de “Macbeth”, de Shakespeare” (sobre a vida): “É uma estória contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem nenhum significado.”

   Poderia ter optado por “louco” em vez de “idiota”. E optando “qualquer” em vez de “nenhum”.

   A vida? Essa ânsia toda. Essa movimentação toda. Essa luta toda.

   Mas não esqueças, moça: para te lembrares de mim, basta escolher uma estrela.

   Qualquer uma.

   Até.

2 comentários:

Anônimo disse...

Morrer. Só os fortes e os bravos são capazes de aceitar tão intensa, tão forte verdade. A única, a mais certa de todas as certezas que o homem carrega em seu coração. Mas há o amor e assim a morte não é mais morte. Só no coração dos fortes, dos bravos e dos livres pode haver genuíno amor trazendo a certeza de que a morte é apenas... transcedência.

Obrigado por compartilhar o poema.

Abraço,
Andre d'Aquino

Simone disse...

Obrigada a vocês .pela estrela .pelo amor.
Obrigada até a morte que me dá limite.
Para que eu possa ser pra vcs tb uma estrela e um pouco de amor.
Simone guimaraes