sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Não é um país sério...

   Por Marcos Bayer

   Pouco importa se a frase é do General Charles De Gaulle ou do Embaixador do Brasil em Paris, Carlos Alves de Souza Filho, por ocasião da Guerra da Lagosta, em 1962, quando a França e o Brasil discutiam se as lagostas que passavam pelo litoral de Pernambuco, andavam ou nadavam.
   Caso “nadassem” eram “internacionais”. Se “andassem” eram brasileiras, pois o solo submarino pertencia ao Brasil.
O fato é que de lá para cá temos visto um país pouco sério nos seus caminhos políticos.
   Veio o golpe militar de 1964 com o argumento de que o Brasil não podia virar para o lado do comunismo.
   Os generais impuseram dois partidos políticos: ARENA e MDB. A Aliança Renovadora Nacional apoiava o regime. O Movimento Democrático Brasileiro podia fazer oposição. Era uma “democracia” militar.
   Com o passar dos anos, em 1968, a situação ficou mais complexa. Liberdades civis suprimidas com censura geral, mandatos políticos cassados e planejamento orçamentário rigoroso.
   O “bolo” econômico deveria crescer para depois ser dividido entre a população, ensinava Delfim Netto. Havia dinheiro disponível nas bancas de Londres e Nova York provenientes dos “petrodólares” do Golfo Arábico.
   Os subdesenvolvidos eram estimulados à contratação de empréstimos com taxas de 17% até 21% ao ano. Na Europa as taxas giravam em torno de 6% a.a. Olha a maravilha do “spread”.
   Construiu-se muita coisa, grandes obras, estradas federais, industrialização nacional e um pouco de tortura e corrupção, nas medidas permitidas por alguns generais.
   O MDB criava corpo, gritava e sacudia a nação rumo à democracia. Abertura política, anistia, eleições diretas em todos os níveis.
   A Arena respondia com sublegendas, senadores biônicos e colégio eleitoral.
   E assim fomos, até que em 1988 proclamamos uma Constituição e em 1989 elegemos um presidente civil pelo voto secreto e direto.
   No úbere do MDB estavam os comunistas, socialistas, democratas, trabalhistas, anarquistas e todos os matizes que se possa imaginar.
   O MDB abrigava a todos. Com o tempo foi se depurando. Saíram tendências ideológicas para a construção de novos partidos.
   Surgiu o PT – Partido dos Trabalhadores. Nasceu o PSDB, a parte boa do PMDB. Nasceu o PSOL, a parte ética do PT.
   Da Arena, fizeram-se PDS, PFL, DEM e até o PSD.
Surgiram outros. Quase 30 partidos políticos, hoje registrados e em funcionamento.
   Depois das tentativas de vários deles em governos estaduais, ou no federal, finalmente o PT, na quarta eleição, em 2002, chega à Presidência.
   Lula recebe seu primeiro diploma na vida: o de Presidente do Brasil.
   Inegavelmente consegue impor avanços na economia, na produção, na educação, no consumo e na oferta de crédito.
Parecia que vinha bem, até que o Presidente Mujica, do vizinho Uruguay, revela em seu livro que Lula admitia lidar com coisas imorais e chantagens para poder governar o Brasil.
   Aí veio o Mensalão, o Petrolão e outros casos ainda submersos, conectados a vários partidos políticos.
   Mas, o pior é ter que assistir o PT desconstruir, no Congresso Nacional, todo avanço legal que conseguiu nos últimos tempos, especialmente no que se refere aos trabalhadores. O ajuste fiscal pretendido pelo governo da Dilma pode ser sintetizado assim:
   O PIB do Brasil em 2014 foi de R$ 5,5 trilhões de reais. Foi quanto a nação produziu, a soma dos esforços de todos os brasileiros. Gastamos com o pagamento dos juros da dívida pública (o valor que o Tesouro paga aos bancos) R$ 250 bilhões de reais, cinco por cento do PIB. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quer economizar R$ 66 bilhões de reais no tal do ajuste fiscal, basicamente nas costas do trabalhador. Isto é 1/4 do valor do pagamento dos juros anuais.
   Pergunta se alguém vai mexer na receita dos bancos.

3 comentários:

Anônimo disse...


Canga,

Tenha um feliz e produtivo ano de 2016, a exemplo de outros tantos já vividos.
O seu blog é uma leitura obrigatória para quem quer informação e ideias.
Parabéns pelo seu trabalho e dedicação.
Você é exemplo para a imprensa de SC que ainda engatinha entre "compromissos" e "vendas" nas informações.
Tomara que você seja condecorado, formalmente, como já é pela opinião pública.

Abraços de seu leitor.

Otaviano Lopes Quintas

Anônimo disse...

Como? O Levy ficou tal e qual um anímico emplastro até garantir o do Bradesco. Já se foi e o patrimonialismo dos defins e belluzos da vida campineira voltam na pele do Barbosa. Haja inépcia, incompetência, capacidade asinina de fazer completamente errado.Que desânimo. Feliz 2016. LesPaul

Anônimo disse...

Em um ano de mandato, Dilma desconstruiu todos os dogmas do PT de trinta anos atrás. A terceirização rola solta nas empresas estatais, contratando empresas para realizar os serviços corporativos básicos, que deveriam ser executados por funcionários concursados. Na obra de uma linha de transmissão de energia elétrica, por exemplo, desde o projeto inicial, passando pela construção, o reassentamento das populações atingidas, os testes de funcionalidade e agora até a fiscalização dos próprios contratos, tudo já pode ser terceirizado, embora o TST diga que não. Não bastasse a política econômica, que mais uma vez privilegia o capital financeiro rentista, em detrimento dos investimentos em produção. Nenhum "neo liberal" até hoje teve coragem de fazer o que este governo está fazendo. Mas, o pior é que tudo pode piorar um pouco mais. A nação não tem projeto, não tem plano de governo e nem tenciona tê-los. O governo é um condomínio sem síndico. As alianças construídas entre comunistas, liberais, conservadores, sociais democratas, fascistas e até alguns nazistas, e toda ordem de crença, fazem desse governo um grande varal, onde as cores ideológicas ficam dependuradas conforme o gosto do dono. Cada qual cuida da sua. Não há unidade de comando nem se exige prestação de contas de nada. A ninguém é cobrado por seus atos ou desatos. O governo, os poderes e até os cidadãos, são uma grande nau desgovernada, navegando para o abismo. Que ninguém sabe quando chegará, mas, todos sabem que está cada vez mais perto. Feliz 2016, para quem ainda acredita !
Laércio Duarte