sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os manés, nossa história e a arquitetura...

                                                             
  Por Marcos Bayer
  
   Dia destes, assistia ao canal de TV exibindo programa sobre as cidades europeias. E aí, não sei por que, imediatamente dividi meu cérebro em duas partes: uma assistia ao programa e a outra revia Desterro até Florianópolis, com imaginação e imagens reais que a memória permitia.
   E aí então compreendi que mesmo sendo uma ilha de imigrantes açorianos, gregos, libaneses, alemães, italianos e outras etnias, estamos fadados aos alvarás de demolição.
   O Coliseu, em Roma, se aqui fosse já teria sido demolido para dar lugar a um estádio de futebol. A Torre de Pisa já teria sido escorada de um lado e guinchada por cabos de aço no outro, na tentativa de verticaliza-la novamente. Os laranjais de Sevilha, cuja sombra e aroma embelezam a Andaluzia, já teriam sido substituídos por pequenos prédios como aconteceu na Trindade com sua Festa da Laranja. As palmeiras tropicais foram transportadas para a Europa a fim de adornar cidades nas bordas mediterrâneas. Aqui, o pau-brasil foi ceifado até a inexistência. Cemitérios ingleses e catacumbas italianas, aqui teriam sido, como foram, transformados em terrenos abandonados como a cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz.
   Petiscos como calamari, azeitonas e doces gregos, tapas e tortilhas espanholas, patês de foie gras e rins ensopados aqui se transformaram em anchovas na chapa, vendidas como grelhadas, cujo azeite é uma emulsão estimuladora do vômito, a cem reais o par, como estão à disposição no Pântano do Sul. Ruas de paralelepípedo que legitimavam a praça XV, o Palácio Cruz e Souza e outras construções, foram asfaltadas sobre o argumento de que a trepidação prejudicaria as construções. Azulejos artesanais pintados à mão como na Galícia, em Valência ou Óbidos em Portugal, aqui foram transformados no Porcelanato 60X60 cm, vendidos nas melhores casas comerciais. A rica e miscelânea área comercial da Rua Conselheiro Mafra, o Mercado Público e adjacências, foram substituídos por lojas de produtos de gosto e preço duvidosos.
   Salvamos a sede do Corpo de Bombeiros, a sede do Comando Militar, a Igreja e o Orfanato e alguns casarios da Praça Getúlio Vargas. Inúmeras residências nas principais avenidas como Trompowsky, Rio Branco, Mauro Ramos e Hercílio Luz deram lugar aos prédios retos de janelas quadradas numa arquitetura próxima do sufocante. Faltou Gaudi ou Calatrava. Ou Niemeyer quando integrava a curva à reta. Carros de mola puxados por cavalos estacionados na praça XV, como no Central Park de Nova York ou no Ringstrasse de Viena, de valor turístico apreciável, aqui deram espaço aos táxis brancos cujas placas pertencem aos vereadores.
   E assim, poderíamos passar a noite fazendo paralelos entre o azul, limpo e transparente Mar Mediterrâneo e nossas belíssimas praias pigmentadas por coliformes fecais.
   Nossas ostras são oxigenadas pelas águas das baías cuja pureza só a Fatma pode atestar. Então, sob o comando político de manés iletrados com curso superior em Organização & Métodos, planejamentos intermináveis e reuniões inconsequentes vamos perdendo os músicos que poderiam tocar pelas ruas, o Boi de Mamão, as festas populares e religiosas substituídas pelos beach clubs de Jurerê onde os marombados e as Marybundas tentam impor um novo padrão cultural. No extremo sul da Ilha, para demonstrar que a crítica não é dirigida, temos a Praia dos Açores, cujas ruas lajotadas assemelham-se às de Bagda, depois da ofensiva norte-americana.
   O Prefeito vai à Disney, em férias, para mostrar aos seus a Minnie e o Mickey. Paga R$ 4,6 milhões de reais pela festa e a transmissão dos fogos que se queimam em vinte minutos de espetáculo inigualável em todo o planeta. Florianópolis é a única cidade no planeta que festeja o Ano Novo de forma pirotécnica. Haja originalidade! Os músicos locais que tocaram na Fenaostra ainda não haviam recebido seus créditos junto ao Município. Aliás, a Fenaostra deveria ser comemorada nos diversos restaurantes do Ribeirão da Ilha e num espaço mais apropriado do que aquele Centro de Convenções, enclausurado na Baía Sul, onde nem o por do sol se pode apreciar. Esqueceram-se das janelas num rasgo de arquitetura cósmica.
   Não sabemos quais os maiores devedores do IPTU, nem da quadrilha que fraudava quitações tributárias na Prefeitura Municipal e, no entanto, houve um aumento considerável do Imposto Territorial e Predial Urbano.
   Votou-se um plano diretor cujos anexos até hoje estão desanexados. Nesta balburdia, os principais responsáveis tratam-se respeitosamente pela alcunha de Vossa Excelência.
   A Ilha, tristemente, afasta-se da excelência que já experimentou, para um momento de conurbação, onde as autoridades políticas serão conhecidas pelo vulgo.
   Esta tem sido a nossa sina...

7 comentários:

d'Acampora, AJ disse...

Olha só o que sai quando uma cabeça privilegiada começa a pensar e coloca o que pensa no papel. Meus parabéns pelo excelente texto.

Anônimo disse...

Bom, neh?
Bateu bem na bola deles.
Quase esfolou!!!

Antenor Bello Monte.

Anônimo disse...

Depois de muitos anos acabei me convencendo de que não adianta comparar sociedades.

Sociedades é a projeção do caráter de seus indivíduos no contexto comum. Como dizia Erich Fromm: “Não pode existir uma sociedade melhor que seus indivíduos.” Algo óbvio e, no nosso caso, algo extremamente dolorido de se ouvir. E agora? A quem culpar?

Infelizmente estamos presos a uma mentalidade ainda muito imatura em relação ao poder, mais especificamente ao estado. E pior, talvez estejamos presos a tal mentalidade pelo simples fato de que essa mentalidade é a que mais nos caracteriza como povo.

Já assistí muitos programas e debates políticos em outros países e agora, contradizendo o que escrevi acima, também me rendo à comparações.

Nada se compara ao nível dos debates e programas políticos que se vê aqui. Como pode um político prometer que vai fazer algo? Como pode um político ter listas do que, segundo ele próprio, é necessário fazer? Como pode um povo acreditar que receberá algo de políticos que exatamente por prometerem mostram que nada sabem sobre o exercício da política? Para que servem e, até que ponto na vida de uma sociedade devem os políticos serem incluídos? Vale a pena esperar tanto dos que tão pouco tem a oferecer?

Indivíduos que acreditam que podem estar protegidos por paternalismos vindos do poder não são indivíduos fortes o suficiente para acreditarem em si próprios. E é aqui que falhamos como sociedade. Queremos desesperadamente a 'proteção uterina' do poder, do estado, de qualquer poder. E assim, na busca por proteção, esquecemos que são os indivíduos fortes agregados por um código de conduta moral comum que formam sociedades fortes e capazes de prosperar de forma consistente e permanente.

Assim, talvez estejamos no caminho certo e talvez devêssemos estar contentes e satisfeitos. Talvez tudo que nos acontece seja o 'nosso certo' como sociedade e nosso erro seja apenas nos comparar à outras sociedades que adotam códigos morais que são simplesmente diferentes do nosso.

Jamais podemos esquecer que, sem a menor sombra de dúvidas, o Brasil é uma das maiores democracias do planeta e ainda, ninguém pode negar que nosso sistema de eleições é o melhor, mais direto, mais legítimo e o mais invejado, do ponto de vita técnico, por vários países de primeiríssimo mundo. Desta forma, o padrão de conduta política que aí está torna-se implacavelmente legítimo e altamente representativo.

Andre d'Aquino

normabruno.wordpress.com disse...

É o que eu digo.

Anônimo disse...

Bonita pintura do Joseph Brugmann, no livro do Gerlach.
Coisa de alemão, neh Bayer ?

att, Kretzer.

Anônimo disse...

Canga,

vão reeleger o César Souza ou eleger o Gean?
que escolha, hein?

abs do Leleu da Bilica.

Valmir disse...

Parabéns Marcos! Excelente e sucinta análise do histórico atraso que permeia as ações do poder público na nossa cidade. Incompreensível - e inadmissível - , sob todos os aspectos, a falta de visão sobre o valor da preservação para o futuro do turismo e a renda da cidade. Acrescento à sua bem elaborada abordagem, a bela ilha do carvão que foi destruída para dar suporte (!) a um pilar da ponte Pedro Ivo Campos. Não bastasse o desleixo em terra, a vítima da hora - é a que sobra - é o mar com o cinturão de fazendas marinhas que se planeja implantar nas águas de Florianópolis. A praia do Matadeiro, por exemplo, santuário natural e paraíso das ondas para o surf, neste momento está sendo loteada, com apoio público, para a instalação de criadouros de ostras, ou seja, as águas de cor azul e límpidas logo receberão a decoração de boias de plástico e dejetos que tingirão suas espumas e areias com o "superior" motivo de aumentar a produção de moluscos a serem vendidos nos grandes centros do país. É a famosa privatização do lucro com a socialização do prejuízo a impor a sua vontade sobre uma ilha que se encontra enferma e em busca de socorro.