quarta-feira, 18 de maio de 2016

A arte do contrabando e da calaveragem...

Invernada Artística do Colégio Brasil
   Dia desses dei uma volteada por Quaraí (RS), cidade onde nasci, lá na fronteira com o Uruguay. Fazia tempos que não "descia" para a fronteira. Aproveitei e fiz uma visita a alguns lugares que, de alguma forma, marcaram a minha infância como o Colégio Brasil, onde cursei o primário e participei da Invernada Artística, no CTG da escola.

   À direita (de quem vai) da Ponte Internacional da Concórdia, que liga o Brasil com o Uruguay, descendo o Quaraí, lá onde o rio faz a curva, fica a famosa Volta do Perau. Lugar "perigoso", onde o rio revolto forma um "grande redemoinho" que já havia "tragado alguns soldados com cavalo e tudo", nos assustava a mãe, tentando nos afastar do perigo, ali nas barrancas da Quarta Brigada, bairro afastado do centro da cidade.

   Resolvi dar uma banda por la orilla del rio. Desci a rua Cel. Pilar e fui andando em direção ao rio. Coisa de três quadras brasileiras, de 150 metros cada, no Uruguay as quadras tem outra medida.

   Mas o percurso deste pequeno espaço, de cerca de uns 500 metros, continha um universo enorme de lembranças das minhas andanças de guri arteiro pela periferia da cidade.

   Uma delas, foi a antiga casa de tijolo preto sem reboco, na esquina de Cel. Pilar com a Av. Artigas. Ali morava o "Pía", que administrava uma casa de jogo de baralho. Jogatina, calaveragem!
   
   A casa preta era de chão batido, pé direito alto, sem forro, com telhado de zinco. Quando passava por lá, sempre dava uma espiada nos homens jogando. Guri de uns 11, 12 anos, só podia espiar pela janela. Com o tempo conseguimos uma licença do Pía, para formar uma mesa de cacheta. Era após o meio-dia, no horário da siesta, quando a casa estava vazia. O jogo dos grandes, começava por volta das 4 da tarde.

   Éramos em cinco, todos mais ou menos da mesma idade e cheio de moedas nos bolsos. Na hora que chegávamos o Pía arrumava a mesa com um feltro verde, uma caixa de fichas e um baralho usado, mas em boas condições, sem cartas marcadas.

   Ao lado da mesa, em cima de um banco alto, o Pía colocava um copo de metal, com alça, que era onde depositávamos a "coima", que era um porcentual dos moedas apostadas, a cada rodada, que ia para "a casa".

   Tudo organizado, o Pía se retirava para um quarto sem porta, atrás de uma divisória de madeira, onde ia dar um sesteada. Não sem antes avisar energicamente: 
- não esqueçam da coima, gurizada!

   Felizes por aquela regalia que o Pía nos dava, nos comportávamos super bem, gritávamos baixo para não acordar o anfitrião. A cada rodada, a sagrada coima era jogada no copo de metal que tilintava alto no contato com a moeda de níquel.

   A uma certa altura do jogo, acreditando que o Pía já tinha ferrado no sono, iniciamos uma nova rodada e não depositamos a coima. O Pía dormia com um olho só, imagino. Ao não escutar o barulho da moeda no copo, gritou:
  - Olha a coima gurizada!

   Ao que imediatamente respondemos:
- É dinheiro papel, Pía!

   E assim passávamos aquelas poucas horas de diversão e entretenimento, na beira do Rio Quaraí.

   Tudo isso me veio à lembrança quando passava na frente da casa preta a caminho da "picada", que ficava antes da Volta do Perau.

   A "picada" era outra história. Lugar frequentemente nominado pelos guardas aduaneiros colegas do pai, a "picada" é um local de contrabando aberto, por onde se passa mercadoria ilegalmente do Brasil para o Uruguay ou vice versa, conforme a conveniência do câmbio.

   Na época de seca, que o rio fica bem baixo, o contrabando é feito em carroças puxadas por dois cavalos. Quando o rio está cheio, os executivos de fronteira fazem o transporte em pequenos barcos chamados de botes.


   O rio estava bastante cheio e imaginei que não encontraria movimento na "picada", mesmo porque o peso está desfavorável para nós, brasileiros. Nada se trás do Uruguay, neste momento. Com o Real desvalorizado, os produtos uruguaios ficaram muito caros.
  
Qual a minha surpresa, quando chego na beira do rio e encontro um movimento intenso de botes vindo de Artigas e de caminhonetes que entravam e saiam da "picada".

   Tentei fazer umas fotos do local e logo fui interpelado por um pessoal que se sentiu incomodado com o gesto. Falei que moro que Florianópolis, que não era da Receita Federal e muito menos da polícia, que era jornalista. Nada disso convenceu muito o pessoal, até que falei que era de Quaraí, filho do "guarda" Rubim. Pronto, a palavra mágica! Tinha dois mais velhos que conheciam e lembravam do pai. O Velho sempre "levou livre" e teve uma boa relação com os "chibeiros", como chamava os pequenos contrabandistas.

   Resolvida a questão das fotos, perguntei que mercadoria estava vindo do Uruguay, já que tudo estava mais caro do outro lado.

- Azevém, semente...me respondeu um deles.

   O azevém é um tipo de grama de origem européia e asiática, excelente forragem para o gado, e se usa como pastagem de inverno. No Uruguay a semente é limpa, não vem misturada com outras sementes de "inso" que suja os campos, e está mais barata que no Brasil. 

   Estava explicado o comércio exterior que se praticava naquele momento nas barrancas do Quaraí.

   Belo passeio pelas minhas lembranças...

 

2 comentários:

Marcio disse...

Quando escreves com o coração teu texto reluz!

João David Martins disse...

Belo texto Canguita.