terça-feira, 31 de maio de 2016

O maior mistério da Olimpíada



Seis vigas de aço pesando 110 toneladas simplesmente desapareceram em meio às obras para o Porto Maravilha. Nosso repórter foi atrás dessa história e da fracassada investigação policial



   O furto da coisa pública mais pesada de todos os tempos foi o de seis vigas de aço: cinco de 40 metros de altura por 6 de largura e uma de 25 metros de comprimento por 6 de espessura. As seis somavam mais de 110 toneladas e ajudavam a sustentar o Elevado da Perimetral, no Rio de Janeiro, junto com outras centenas de vigas parecidas. Ninguém, até agora, sabe ao certo o dia em que elas foram furtadas da capital fluminense em 2013. Pior: como as peças, a investigação anda meio sumida.

   A Perimetral, como era chamada, morreu em 2014. Mas seu espectro continua a rondar o imaginário carioca porque o crime até hoje não foi esclarecido. Apelidada de “monstrengo”, sua forma aterrorizante proporcionava uma ligação direta à avenida Brasil, que corta 26 bairros das zonas norte e oeste, e dali deixava o motorista no caminho do Aeroporto Tom Jobim. Cravada em boa parte da região portuária, seus tentáculos suspensos alcançavam a Ponte Rio-Niterói, o Aeroporto Santos Dumont e, contornando o litoral, levavam à zona sul, desafogando o tráfego de quem vinha da zona norte, dos municípios vizinhos e, sobretudo, do centro. Enfim, quebrava um galhão.

   Essas toneladas de aço eram tão valiosas que o engenheiro responsável pela obra, Emílio Ibrahim, hoje com 86 anos, ia pessoalmente à Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, na década de 1970, negociar a compra do material. “Esse prefeito fez uma loucura ao derrubar a Perimetral. Ela era importante praticamente para toda a região metropolitana”, diz, citando um texto do arquiteto e urbanista modernista Lúcio Costa no qual ele descreve a Perimetral como um excelente mirante para admirar “as fachadas leste e norte do imponente mosteiro de São Bento”.
Essa estrutura gigantesca foi derrubada por ser considerada uma afronta à estética, no bojo do projeto do Porto Maravilha, cujo objetivo principal é valorizar a região portuária, transformando-a numa área turística. O projeto é listado como um dos legados da Olimpíada 2016 no site da Autoridade Pública Olímpica. O fim da Perimetral descortinou a vista para o mar e as edificações históricas, além do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio – ambos administrados pela Fundação Roberto Marinho. Também está em jogo, claro, a valorização imobiliária do porto, onde já se veem novíssimos edifícios espelhados de até 50 andares.

   Enquanto isso, a pergunta não cala. Como é que as seis vigas mais altas que alguns prédios da cidade, cujo metal nobre (denominado cortem, uma mistura de aço, nióbio e cromo) tem durabilidade de até quatro séculos, foram levadas?


   Embora a imprensa carioca tenha descoberto o caso em outubro de 2013, imagens de satélite mostraram que desde agosto não havia mais vigas no terreno para o qual elas foram levadas em fevereiro. A prefeitura diz que só se deu conta do sumiço quando saiu nos telejornais e informou, por uma nota, que havia 18 vigas ali. Doze foram reutilizadas em outra obra. Seis foram afanadas.

   A investigação dessa história vai muito mal, obrigado. À reportagem da Pública, a Delegacia de Roubos e Furtos afirmou que a apuração dos fatos estava sendo tocada pelo Ministério Público Estadual (MPE). “Em resposta ao pedido de entrevista, o Delegado de Polícia Marcio Braga agradece o seu interesse mas infelizmente não poderá atendê-lo”, diz a nota. No mesmo dia (6 de maio), o próprio MPE comunicou que não estava mais à frente da investigação, a qual havia sido devolvida à polícia para que se façam mais diligências. Ainda não havia, portanto, condições para o MPE oferecer uma denúncia à Justiça. “De acordo com a 14ª Promotoria de Investigação Penal da 1ª Central de Inquéritos, o inquérito ainda não retornou ao Ministério Público”, retruca a mensagem do MPE.

   Leia matéria completa na Pública

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