quarta-feira, 1 de junho de 2016

OBLÍVIO


Por Emanuel Medeiros Vieira                           
      Narrativa para meus sobrinhos (Vivos e Mortos)
 “É preciso lançar-se na aventura da vida. Quem quiser guardá-la há de perdê-la”. (Santa Teresa de Ávila)

Esqueceste-me.
Esqueceste-me?
Queria passar ao longe de qualquer “chorumela” (passo?)      – céu plenamente azul, e mais um dia.
O tempo passou.
Não mudaste o país.
Não há métrica, rima.
Algo de mim (nós) ficará?
Bênção estar aqui ainda.
(Não é um texto sobre a danação.)   
Além do esquecimento, tudo se derrete (celebridades, vaidades, cobiças, noticiários).

Ilhados todos.
Ficará a lembrança de um rádio de pilha, pipa, tainha frita, mar, mãe, pai, irmãos, sobrinhos, amigos “encantados” ou não, lírios, orquídeas, pitangas, barcos, trapiches, riachos, campinhos – uma outra Ilha.
(E o cheiro da grama molhada ao amanhecer.)
“Não fazes mais parte deste mundo, de geringonças eletrônicas e de porteiros armados” – uma voz interior.
“Vais te repetindo nessa busca da Ilha mítica”– outra voz.
“Ela acabou – desiste”, decretam todos os alcaides e empreiteiros.
Sinto-me como um velho pistoleiro (que cai do cavalo e já não enxerga bem) – que vai tomar um trago num bar pé-sujo (está entardecendo).

Sobre a repetição:
“É que ninguém me escuta. Preciso insistir”, retruco.
Uma primeira paixão que não foi na Ilha, o mundo parecia um paraíso, e tinhas 20 anos.

Aqui era mar.
Está tudo aterrado.
“E o humor, grandão?”, indagam Letícia, Alfredo David, Marcelo, Pepe e Fabrício, Giocondinha, Patrícia – sobrinhos que algum anjo torto nos levou muito cedo.
“E a tua fé?”, interpela o Arcanjo Miguel, do qual sou sincero devoto.
“Ela é ambivalente: está enraizada no meu coração, e é também uma pobre folha ao vento.

- Acreditem: não é nostalgia – respondo (comovido).
Algo maior se foi.
E, então, num entardecer, alguém chegará perto de um túmulo (apenas duas datas: a da chegada e a da partida): é o mármore branco da minha rota peregrina.

2 comentários:

Anônimo disse...


Verdade.
E ainda vivemos para acreditar que 'moinhos de vento' podem ser gigantes.

Obrigado por publicar o poema.

Andre d'Aquino

Anônimo disse...

Meu querido Gigante das letras e do coração, Emanuel, meu Tio Tadeu, meu amigo, inspiração e incentivador: esse sobrinho morto-vivo, vivo-morto, encara esse poema como mais um belo presente. Obrigado. Paulinho