quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O PÁRIA

Parte 2 da reportagem de Renan Antunes de Oliveira para o BRIO.  (Parte 1)

lustração: Pedro Matallo.
 Por mais inacreditável que esta história pareça, todos os documentos citados nesta reportagem, em mais de 6 mil páginas de processos, foram verificados pelo BRIO.

Parte 2: Surras.

   Às oito horas de uma noite de outono de 1989, José Germano Neto, um corpulento empresário do ramo de madeiras com 40 anos de idade, seria surpreendido de maneira menos gentil do que na abordagem dos policiais no hotel de luxo em Nova York nove anos depois. Ele tinha acabado de chegar em casa, no bairro de Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro, naquela época ainda mais distante do charme da zona sul e sem nem sinal de Parque Olímpico no horizonte.
   A campainha tocou e, apesar de ter estranhado o fato de alguém bater na porta naquele horário, foi ver quem era. Dois carros o esperavam do lado de fora. Em menos de dois minutos, Germano estaria estatelado no chão, com um dedo e um nariz quebrado, um corte profundo na cabeça e vários hematomas pelo corpo.
   No grupo de oito pessoas, Germano conhecia um deles. Um personagem até hoje identificado apenas como “Cabo Lopes”. Era figura fácil no submundo de Bangu naquele final de década perdida. Policial militar envolvido em negociatas e que também atuava, supostamente, como matador de aluguel. Também ganhava uns bons trocados como informante da Polícia Federal. Circulava com desenvoltura em meio ao bando do então top traficante carioca Celsinho da Vila Vintém, depois fundador da facção Amigos dos Amigos (ADA). O primeiro encontro entre Germano e Cabo Lopes havia acontecido algumas semanas antes.

   A história que baseia tudo o que acontecerá depois nesta reportagem é a seguinte: no início de 1989, Germano comprou um Chevette usado de uma mulher chamada Maria Inara Fontenelle. Fez um aparente bom negócio. Em troca do veículo, contou depois para a polícia, cedeu materiais de construção de sua loja em Campo Grande, no extremo oeste do Rio. Semanas depois, mandou um amigo ao Detran legalizar o Chevette e descobriu que o carro era roubado.
   Germano foi então à delegacia e, ao dar o nome da mulher de quem havia recebido o carro, soube que também se tratava de uma figura fácil no mundo do crime no Rio naquela época. Ex-tenista profissional, Fontenelle na verdade era Inara Medeiros de Freitas. Ela era envolvida com o suíço Michel Frank, acusado de homicídio em um crime que chocou o Brasil em 1977: o assassinato da jovem Cláudia Lessin Rodrigues, cujo corpo foi encontrado nu, com um saco cheio de pedras amarrado no pescoço, nas pedras que separam a Avenida Niemeyer do mar e por onde hoje passa a ciclovia Tim Maia.
   O carro de Germano ficou apreendido na delegacia, mas a polícia não trouxe nada de novo para esclarecer o caso. O empresário seguiu em frente para recuperar o prejuízo.    Tentou achar Inara, mas sem sucesso. Ela já tinha ido embora do país. Meses depois de passar o Chevette para Germano, Inara seria presa em um hotel de luxo em Zurique, onde entregaria 32 quilos de cocaína para um contato. Isto posto, era uma turma que não era exatamente flor a ser cheirada.

Leia a parte 2 inteira: Beba na fonte.

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