sexta-feira, 2 de junho de 2017

BOB DYLAN















por Emanuel Medeiros Vieira

Ah, Deus disse a Abraão “Mate um filho para mim”/O cara diz  “Meu, você deve estar de sacanagem”/Deus diz “Não”. O cara diz “Como é que é?”/Deus diz “Pode fazer o que quiser, meu chapa, mas/ Na próxima vez que você me vir chegando, melhor correr”/Então o cara diz “Onde é que você quer essa morte?”/Deus diz “Lá na Estrada 61
(Bob Dylan - “Estrada 61 Revisitada” – ‘Highway 61 Revisited”)

   Tomando como base, letristas/compositores nascidos a partir de 1940 (como referência simbólica) creio que Bob Dylan é o que alcança as maiores alturas (junto com Lou Reed –1942-2013 –, também de grande densidade e profundidade).
    (Quando aparece “na minha frente” alguma dupla de sertanejos ditos universitários, chego a sentir um calafrio de horror, pela pobreza indescritível das letras, a idiotia e a mediocridade que representam. com suas botas texanas, sejam homens ou mulheres.)
   
   Isso num país que deu Cartola (1908-1980), Pixinguinha (1897-1973), Lupicinio Rodrigues (1914-1974), Geraldo Vandré (1935, Sidney Muller (1945-1980), Belchior (1946-2017).
   Hoje pouco lembrado, Sidney Muller é o criador da belíssima canção “A Estrada e o Violeiro”, e de “Pois É, Pra quê?”.
   Não falo, é claro, de Tonico (1917-1994) e Tinoco (1920-2012), de Renato Teixeira (1945), de Almir Sater (1956), de Sérgio Reis (1940) e outros, que engrandeceram o nosso cancioneiro dito sertanejo. Mais do que isso: universal.
   
   Sim: Dylan também é escritor.
   
   Publicou livros de poesia, letras de músicas e um de ficção (“Tarântula”), além de suas memórias em “Crônicas Volume 1” (2004).
    Dylan tornou-se  figura  célebre da música popular americana e da cultura musical com canções como Blowin’ in the Wind, The Times They are A- Chagin, A Hard Rain’s A-Gonna Fall, All Along the Watchtower, Tambourine Man e Like a Rolling Stone, compostas nos anos 60, “com conexões com os movimentos de protesto contra Guerra do Vietnam”, como lembrou Hagamenon Brito.
   A força de suas letras, foi percebida “muito acima dos seus limites tradicionais” (escritas  quando ele tinha pouco mais de 20 anos) – falo nas contidas no livro.
   Foi acompanhando as mudanças e tormentos deste mundo, desde jovem até agora – aos 76 ano. 
 
    Socorro-me de Caetano W. Galindo, que traduziu o livro de 640 páginas “Letras (1961-1974”) ––o primeiro de dois volumes : “A concessão do prêmio Nobel de Literatura a Bob Dylan certamente contribuirá bastante para as velhas discussões quanto ao estatuto literário da canção. Ou, no que mais nos interessa aqui, quanto ao estatuto literário da letra da canção, separada de melodia, harmonia, ritmo, produção, performance.” (...)  
   Cantor e letrista rebelde ou de “protesto”, na maturidade buscando captar (descobrir?) a essência do SER, Bob Dylan sempre foi fiel a si mesmo, também cantando as letras de outros autores e músicos.

   A gente sente um caráter “oral”, escutando Dylan: “Tudo (...) imerso no que eu chamaria de um oralidade sofisticada, que faz com que, mais que cantadas, suas letras pareçam, faladas, mesmo em livro” (Caetano Galindo).
E acrescenta o tradutor: “Dylan, ao longo das duas décadas aqui retratadas (ele fala sobre o volume citado), não escreve canções com vozes diferentes, com textos que vão do folk à retórica neopentecostal;  ele mistura esses registros no mesmo texto. Do inglês de rua à elevação bíblica, dos poetas Beat a Dante Alighieri, da prosa ao verso mais evocativo, das cadências mais constante ao discurso espraiado”. (...) 
   Mesmo que pareça muito genérico (ou puro lugar-comum) o que vou escrever, creio que em toda a sua vida, Bob Dylan refletiu intensamente sobre os conflitos de nossa geração, a impotência em relação ao espírito bélico, às guerras e outras desgraças da modernidade (ou a tragédia de todos os tempos).

   E - ouso dizer - no sentido metafísico -, que ele meditou com incrível profundidade (que a “simplicidade” de algumas letras engana), sobre a nossa humana condição (finita).
   Com sua voz roufenha e, segundo alguns, de “dicção difícil”, ele foi atravessando os tempos.
   Como na epígrafe do meu texto, ele discute a relação do homem com o Divino e a recusa do de nós todos a certos desígnios: como pode Deus querer que alguém entregue o seu filho à morte?
   Precisaria aprofundar muito mais. Mas ficaria cansativo.
   Só proclamo: Longa vida, Bob Dylan!
   Saudades, Lou Reed!
   Estrela Elis Regina: “és para sempre”!*

*Também foi lançado o primeiro disco triplo da carreira de Bob Dylan: “Triplicate” (que ainda  não pude adquirir).
Alguém comentou: conhecíamos o Bob Dylan “o inovador”, “o cantor de protesto”. Recentemente, segundo Agamenon Brito, “passamos a conhecer, também, Dylan,’o cronner’ admirador de Sinatra”.  (...)



(Salvador, maio e junho de 2017)
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Luiz Fernando Cabeda deixou um novo comentário sobre a sua postagem "BOB DYLAN":

Ótimo texto para permitir o entendimento do Nobel atribuído a Dylan, pois muita gente não entendeu.
Se fosse admitido que o prêmio é atribuído por pessoas que se qualificam por considerarem tudo o que diz respeito ao valor literário, então as defecções de Borges, Pessoa e outros insuperáveis não teriam ocorrido.
Mas não é assim: situações conjunturais pesam muito. Políticas de 'integração' prevalecem. Desde os remotos tempos da civilização sabe-se o valor da cerimônia, o quanto ela conta também como valor de compromisso.

Parece que foi Elie Wiesel, um nobelizado, que disse terem sido os judeus os primeiros e verdadeiros europeus, pois quando o sentimento de pátria era exacerbado e excludente eles viviam em todo o continente como 'em sua casa'.
Não se pode dizer o quanto o fato de ser judeu - culturalmente falando - não responde significativamente pela trajetória e pela premiação de Dylan. Ele adotou muitos movimentos políticos para uma trajetória offsider, desde os remotos tempos da contra-cultura, nas então conhecidas como 'músicas de protesto'.
Naquele tempo bem mais apreaciada era Joan Baez, injustamente esquecida, com quem Dylan esteve casado.
No entanto, ele é que foi capaz de persistir, com sua voz anasalada e (para muitos) desagradável, mas que se fez intérprete de uma elaboração temática e de estilo que remontava aos beatniks, depois aos off roads e finalmente algo também de Nashville.

A 'desenvoltura' de Dylan, fazendo das sucessivas tendências 'a sua casa', evitou que incorresse no erro desastroso de Borges, por exemplo, que nunca negou simpatia pelos regimes de Pinochet e Videla. Explicar que isso fazia parte da "história do ressentimento' é muito difícil; na verdade, Borges havia sofrido o esmagamento do peronismo onipresente e avassalador. Mas essa circunstância era inexplicável em uma Suécia então cheia de exilados chilenos e argentinos.

Janer Cristaldo gostava de satirizar as escolhas do Nobel. Em muitos casos, foi feliz, como na de Rigoberta Menchú, que acabou confessando - depois de irretorquivelmente descoberta em sua fraude - ter falsificado a biografia, como resistente indígena na Guatemala e sobrevivente de uma repressão trágica, que lhe acedeu o prêmio.

Isto tudo é uma história paralela.
O importante é que Emanuel Medeiros Vieira tenha produzido um belo texto, de acordo com teu gosto e sensibilidade.
 

Quanto aos sertanejos, talvez alguém os relacione - como é tão óbvio - a uma transferência de riqueza para o centro-oeste, notadamente Goiás, que hoje é um Estado rico e próspero (em contrário ao decadente e orgulhoso RGS), em que a participação no produto social, o gozo do lazer, o acesso à lascívia, tinham de ser construídos fora da 'cultura de praia', cuja hegemonia já apresenta algum cansaço.

LUIZ FERNANDO CABEDA

3 comentários:

Mané_Estrangeiro disse...

Comparado com Dylan e os outros autores citados, notadamente os brasileiros, o sertanejo universitário (ou não) realmente causa horror. O que dizer então do funk e congêneres? Depois de Ministérios da Cultura petistas, psolistas, comunistas e outros istas imundos, aquilo passou a ser considerado música. Pior, arte e cultura...

Luiz Fernando Cabeda disse...




Ótimo texto para permitir o entendimento do Nobel atribuído a Dylan, pois muita gente não entendeu.
Se fosse admitido que o prêmio é atribuído por pessoas que se qualificam por considerarem tudo o que diz respeito ao valor literário, então as defecções de Borges, Pessoa e outros insuperáveis não teriam ocorrido.
Mas não é assim: situações conjunturais pesam muito. Políticas de 'integração' prevalecem. Desde os remotos tempos da civilização sabe-se o valor da cerimônia, o quanto ela conta também como valor de compromisso.

Parece que foi Elie Wiesel, um nobelizado, que disse terem sido os judeus os primeiros e verdadeiros europeus, pois quando o sentimento de pátria era exacerbado e excludente eles viviam em todo o continente como 'em sua casa'.
Não se pode dizer o quanto o fato de ser judeu - culturalmente falando - não responde significativamente pela trajetória e pela premiação de Dylan. Ele adotou muitos movimentos políticos para uma trajetória offsider, desde os remotos tempos da contra-cultura, nas então conhecidas como 'músicas de protesto'.
Naquele tempo bem mais apreaciada era Joan Baez, injustamente esquecida, com quem Dylan esteve casado.
No entanto, ele é que foi capaz de persistir, com sua voz anasalada e (para muitos) desagradável, mas que se fez intérprete de uma elaboração temática e de estilo que remontava aos beatniks, depois aos off roads e finalmente algo também de Nashville.

A 'desenvoltura' de Dylan, fazendo das sucessivas tendências 'a sua casa', evitou que incorresse no erro desastroso de Borges, por exemplo, que nunca negou simpatia pelos regimes de Pinochet e Videla. Explicar que isso fazia parte da "história do ressentimento' é muito difícil; na verdade, Borges havia sofrido o esmagamento do peronismo onipresente e avassalador. Mas essa circunstância era inexplicável em uma Suécia então cheia de exilados chilenos e argentinos.

Janer Cristaldo gostava de satirizar as escolhas do Nobel. Em muitos casos, foi feliz, como na de Rigoberta Menchú, que acabou confessando - depois de irretorquivelmente descoberta em sua fraude - ter falsificado a biografia, como resistente indígena na Guatemala e sobrevivente de uma repressão trágica, que lhe acedeu o prêmio.

Isto tudo é uma história paralela.
O importante é que Emanuel Medeiros Vieira tenha produzido um belo texto, de acordo com teu gosto e sensibilidade.
Quanto aos sertanejos, talvez alguém os relacione - como é tão óbvio - a uma transferência de riqueza para o centro-oeste, notadamente Goiás, que hoje é um Estado rico e próspero (em contrário ao decadente e orgulhoso RGS), em que a participação no produto social, o gozo do lazer, o acesso à lascívia, tinham de ser construídos fora da 'cultura de praia', cuja hegemonia já apresenta algum cansaço.

LUIZ FERNANDO CABEDA

Luiz Fernando Cabeda disse...




Ótimo texto para permitir o entendimento do Nobel atribuído a Dylan, pois muita gente não entendeu.
Se fosse admitido que o prêmio é atribuído por pessoas que se qualificam por considerarem tudo o que diz respeito ao valor literário, então as defecções de Borges, Pessoa e outros insuperáveis não teriam ocorrido.
Mas não é assim: situações conjunturais pesam muito. Políticas de 'integração' prevalecem. Desde os remotos tempos da civilização sabe-se o valor da cerimônia, o quanto ela conta também como valor de compromisso.

Parece que foi Elie Wiesel, um nobelizado, que disse terem sido os judeus os primeiros e verdadeiros europeus, pois quando o sentimento de pátria era exacerbado e excludente eles viviam em todo o continente como 'em sua casa'.
Não se pode dizer o quanto o fato de ser judeu - culturalmente falando - não responde significativamente pela trajetória e pela premiação de Dylan. Ele adotou muitos movimentos políticos para uma trajetória offsider, desde os remotos tempos da contra-cultura, nas então conhecidas como 'músicas de protesto'.
Naquele tempo bem mais apreaciada era Joan Baez, injustamente esquecida, com quem Dylan esteve casado.
No entanto, ele é que foi capaz de persistir, com sua voz anasalada e (para muitos) desagradável, mas que se fez intérprete de uma elaboração temática e de estilo que remontava Aos beatniks, depois Aos off roads e finalmente algo também de Nashville.

A 'desenvoltura' de Dylan, fazendo das sucessivas tendências 'a sua casa', evitou que incorresse no erro desastroso de Borges, por exemplo, que nunca negou simpatia pelos regimes de Pinochet e Videla. Explicar que isso fazia parte da "história do ressentimento' é muito difícil; na verdade, Borges havia sofrido o esmagamento do peronismo onipresente e avassalador. Mas essa circunstância era inexplicável em uma Suécia então cheia de exilados chilenos e argentinos.

Janer Cristaldo gostava de satirizar as escolhas do Nobel. Em muitos casos, foi feliz, como na de Rigoberta Menchú, que acabou confessando - depois de irretorquivelmente descoberta em sua fraude - ter falsificado a biografia, como resistente indígena na Guatemala e sobrevivente de uma repressão trágica, que lhe acedeu o prêmio.

Isto tudo é uma história paralela.
O importante é que Emanuel Medeiros Vieira tenha produzido um belo texto, de acordo com teu gosto e sensibilidade.
Quanto aos sertanejos, talvez alguém os relacione - como é tão óbvio - a uma transferência de riqueza para o centro-oeste, notadamente Goiás, que hoje é um Estado rico e próspero (em contrário ao decadente e orgulhoso RGS), em que a participação no produto social, o gozo do lazer, o acesso à lascívia, tinham de ser construídos fora da 'cultura de praia', cuja hegemonia já apresenta algum cansaço.

LUIZ FERNANDO CABEDA