sexta-feira, 30 de junho de 2017

Que tempo são esses?

Janela do blog
   Uma cena inusitada, acontecida na tarde de ontem, me despertou o pensar...
   O fato que me tirou da letargia pensativa, analítica assumida, desfilou - aos gritos e correrias - na frente da janela da minha mesa na Kibelândia.
   Foi na rua Vitor Meireles.
   A balburdia de buzinas e gritos cadenciados, num primeiro momento me pareceu ser uma passeata de protesto. 
   Não era! 
   Carros e motos buzinavam acompanhados de um coro que mandava: PEGA! PEGA! PEGA!
   Logo vi um jovem - bem vestido, camisa polo azul, calça skyni, sapatenis, cabelo cortado rente nas laterais - "deitando o topete" em direção à Praça XV. 
   Atrás, a turba multa correndo e gritando. A velocidade ágil do jovem esbarrou no grandão da loja de água, ao lado da Kibelândia.
   Capturado, com um celular que havia surrupiado de uma mulher na esquina anterior, o rapaz começa a chorar. Um choro ridículo, sem lágrimas, mas de desespero.
   A situação era bizarra!
   Muita gente ao redor, xingando. O grandão da água, mantinha a gravata - aplicada no larápio - no limite da responsabilidade. Na medida certa, apenas para "segurar" o rapaz.
   Pessoas ao celular chamando a polícia, outros se aglomerando para ver o rapaz, nesta altura, sentado na calçada, chorando sem parar e no prédio, do outro lado da Kibelândia, onde funciona uma escola de idiomas, três sacadas lotadas com futuros poliglotas, gritavam em coro: BATE! BATE! BATE!

   Olhei para cima e não acreditei no que via! Muito menos no que ouvia!
   BATE??????
   De cima das sacada, como em um tribunal acusatório, os alunos de idiomas falavam uma língua primitiva que, se levada à prática, chegaria ao linchamento!
   Logo em seguida escutei uns estalos estridentes, como de curto-circuito, bem ao meu lado.
   Um cidadão, com uma pistola de choque elétrico, apertava o botão da pôrra, chamando a atenção de todos e, a cada disparo, falava: TEM QUE MATAR! TEM QUE MATAR!
   A turba multa que corria e segurou o jovem tinha mais consciência e humanidade que aqueles que não participaram da ação e que apenas assistiam sadicamente o espetáculo.
   Pensei...olhei para o chorão...mirei de novo no tribunal de idiomas...e senti pena...de mim!
   Voltei para a minha mesa e escrevi isso. 
   Só para dar uma exorcizada!

   Já voltei...a não pensar!

 Comentário: Caro Sérgio
A cena que descreves - do rapaz que roubou um celular - e de muita gente querendo linchá-lo - incluindo (com perversa ironia) até alunos de escola de línguas, é impressionante sim!
   É também - caro amigo -metáfora do que está acontecendo no Brasil todo.
   O que hoje predomina no Brasil?
   A violência, a intolerância, o fundamentalismo, a raiva incontida, a vontade de esfolar o outro, a fascistização do cotidiano etc.
   É importante fazer o registro dessas situações, mesmo que seja doloroso.
PARECE QUE NINGUÉM QUER MAIS JUSTIÇA, MAS VINGANÇA!
   Que tempos!
   Abraços solidários do Emanuel



2 comentários:

Rafael disse...

Qual a surpresa, Canga? Apenas um dia qualquer no "paraíso tropical" do bom brasileiro, esse tipo que alguém sem vivência de rua já definiu como "honesto e cordial". Na terra das bananas uns roubam, outros rosnam, e a vida segue no ritmo do fracasso completo.

Philipe R. disse...

Lamentável. Neste caso ainda havia uma turba consciente, que não levou as provocações adiante. Agora, pergunto-me: e se essa raiva fosse dirigida àqueles que molestam os cofres públicos, não teríamos uma sociedade mais civilizada?