quinta-feira, 6 de julho de 2017

DO LADO DE CÁ

por Emanuel Medeiros Vieira

Minha África do lado de cá: Bahia – eu queria te entender.

Um Atlântico a nos separar (e agregar).
Ah, Bahia: não a estereotipada, de cartão postal,  e shoppings, de alguns turistas que só registram e não enxergam, dessacralizada e mundana.
 Queria entender os teus mistérios, os teus santos, o teu sincretismo, tuas lutas –
Bahia, também meu amor, o peixe, a pele, a moça morena no Mercado Modelo,
Castro Alves e sua praça– declamo alguns poemas,  contemplando o mar ao fundo.
E lembro-me de Gregório de Matos, Carlos Marighella, Anísio Teixeira, Walter da Silveira, Glauber Rocha, Jorge Amado, João Ubaldo, do mago “Seu” Claudionor (“perdi” seu sobrenome), grande oráculo – todos  encantados.
Queria “saber” o que mais fundo há no Pelourinho –, além da beleza, do casario, das pedras, das “subidas”, dos sofrimentos dos escravos, das revoltas populares.
(E os pés que hoje piso, guardam  gemidos –  e o homem atento poderá escutá-los.)
Ainda e sempre o mar, a Bahia de Todos os Santos – tantos sim.
A vista na Avenida Contorno, a Ponta do Humaitá, teus oráculos, o Samba de Roda, a Ladeira da Barra, a Igreja de Santo Antônio, os coqueirais, o Cemitério dos Ingleses – e assim caminho olhando teu casario colonial (do que restou), a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e de São Francisco.
O pôr do sol na Ilha de Itaparica, os últimos raios iluminando o mar, e a noite cai – atabaques, tambores, não a Bahia estatutária – a terra da Fé, do sincretismo, da Colina Sagrada, e todos os rituais.
Aquela missa no Pelourinho, com ritos católicos e das religiões africanas, o Candomblé e a Consagração (somos todos assim, sincréticos, sempre à espera de algo que não vemos.)
( Lembro-me da Ilha do meu nascer, mítica,  da Bahia Sul, onde uma vez minha mãe me levou para assistir a uma regata, e eu tinha sete anos.)
Assim é: falando “Bahia” quando só escrevi sobre “Salvador”–, era assim que Amado dizia (“Cidade da Bahia”) e também da Ilha, a outra, que forjou o, meu barro.
E haverá cinza da matéria finita: poderia ser jogada  em algum mar, não importa se de lá ou de cá, ou ainda no Cerrado do meu coração – a primeira e a última capital deste país.
Cidadãos do mundo: assim somos, e poderia falar mais –, como esta prosa fosse uma roda de conversa.
Falar ainda? Do belo amor da maturidade, também baiano, assim seja, e posso dar – mesmo  com a escrita precária,  dizendo muito menos do que pretendia  (assim é a sina da escrita – sempre ficar aquém do que queremos)    os trâmites por findos .

É apenas uma prosa nos idos de março.

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