domingo, 20 de agosto de 2017

Rua Duque de Caxias, 16 - Vila Militar

Ponte da Concórdia que divide Quaraí )BR) de Artigas (UY)
    O título deste post talvez não "te" diga nada, mas para quem conhece Quaraí diz muito!
   Encontrei esta narrativa sobre a minha cidade (na verdade sobre uma vida em Quaraí) em um post no facebook. O autor é Leonardo Batista, um guri que saiu compulsoriamente do Rio de Janeiro direto para Quaraí. Ou seja: mudança de planeta!

   A forma como Leonardo vai narrando sua vida, desde a chegada, nesta pequena/gigante cidade da fronteira oeste do sul do Brasil, é emocionante. Narrativa fácil, clara e direta, mas com muita emoção.
   De um geração distante e completamente diferente da minha, bem mais jovem, consegue fazer um relato emocional que em nada difere das minhas emoções sobre a cidade e seus acontecimentos há 40 anos atrás.
   Valeu Leonardo!
   Um lance tri!

A imagem pode conter: 1 pessoa, barba e close-up
Leonardo Batista
  August 17, 2017
latitude 30º23'15" sul - longitude 56º27'05" oeste


- Fala pro seu irmão fazer 3 pedidos.
- Leandro, faz 3 pedidos.
- Quero ir embora. Quero ir embora. Quero ir embora.
 

   Assim começaram, o que talvez seja, os 4 anos mais inesquecíveis da minha vida.
   Esse conversa aconteceu aos sussurros na Igreja de São João Batista, em Quaraí. Isso! Qua/ra/í! Não é Kuwait, Corai ou Guaraí. É com quê, u, a!

   Quaraí fica no final da BR-293. E quando eu falo de final, é final mesmo! Fim. Acabou. Não tem mais nada além. Fronteira. Limite. Borda. É o mais puro sentimento de você chegou! Agora desce do carro, desamassa a bunda e, se a sua mãe for católica, entra na igreja para agradecer.

   Mas agradecer o quê? Eu não queria estar aqui. Eu não queria morar numa casa! Eu estava feliz no Chamonix! Eu não quero saber que vou fazer equitação e ter cavalo. Minha prancha e a imensidão do mar já não cabiam em mim! Aliás, o mar agora saía do programa semanal e virava um evento anual nas férias.

   E assim um Léo com 12 anos chega em Quaraí para morar na Rua Duque de Caxias, na casa 16 da Vila Militar. A última parada de uma viagem que começou em Minas, deu uma paradinha no Rio para as despedidas, cruzou São Paulo, Paraná, Santa Catarina, todo o Rio Grande e só não deu uma volta no Uruguai porque o Dino precisava parar.



Capítulo 1 – O Dino.
   Ele era uma mistura de Lúcifer com Michel Temer em forma de Husky Siberiano, que meus pais foram obrigados a aceitar como contrapeso pela mudança para um reino tão-tão distante.

   E foi graças ao Dino que estou aqui, para contar essa história para vocês, e não enterrado vítima de objeto voador não identificado.
    Assim que chegamos em casa, fomos fazer um reconhecimento da área antes mesmo de ver se as caixas da mudança haviam chegado.
   O quintal era enorme, com umas 3 ou 4 árvores de grandes porte, que não faço ideia o nome, alguns arbustos e até uma parreira, que além de fornecer algumas uvas, também fazia uma baita sombra e servia de lugar perfeito para o ninho dos passarinhos. O Dino descobriu isso rapidamente e nos dias de ventos fortes ficava de baixo da árvore esperando o filhote fazer o seu primeiro e último voo.

   Mas vamos esquecer o último voo dos filhotes de passarinho e lembrar do primeiro passeio do filhote Dino pelo quintal. Após três dias de viagem e dentro de um carro, você pode imaginar como ele queria correr e ter um lugar para chamar de seu. E foi exatamente isso que ele fez, ou tentou fazer, quando avistou aquele mundo que era o nosso quintal.

    Porém, ao passar pelas primeiras árvores ele tropeçou em alguma coisa e capotou. Achei que era algum efeito ( ou defeito) provocado pela viagem. Ele olhou sem entender muito e tentou dar mais um pique entre outras árvores. O resultado foi o mesmo, mais um capote. E a cena se repetiu mais umas cinco vezes até que eu, preocupado em ter um pião de estimação ou um cachorro com labirintite, fui dar uma checada no que estava literalmente passando a perna no Dino.

   Uma linha de pesca rente ao chão ligava uma árvore a outra transformando o quintal em um verdadeiro campo minado. Na última e maior árvore um linha mais grossa subia pelo caule. Sua tensão parecia que sustentava algo muito pesado. Era uma verdadeira obra do Coyote que persegue o Papa Léguas, e eu comecei a rezar para que aquilo terminasse como o desenho.

   Acho que o Dino pressentiu o que estava acontecendo e se meteu entre as minhas pernas tentando encontrar o final daquele fio. Uma bigorna? Uma flecha? O que faltava para a gente cair na armadilha?
   A linha cruzou todo o quintal e foi parar em cima do telhado da casa. Lá em cima, vimos o pedaço de um tronco pronto para despencar e trucidar tudo e qualquer coisa que parasse no seu caminho. Ao lado do tronco, dois moleques observavam tudo com uma cara de desapontamento.
   Deus tirou a armadilha do meu caminho, mas em compensação colocou os gêmeos na minha vida.

Capítulo 2 – Os Gêmeos.
   Tirando drogas pesadas e crimes dolosos, aqueles em que há a intenção de matar, acho que fizemos de tudo. Com eles e mais o Alexandre, a vida em Quaraí começou de verdade.

   Quando eu cheguei, estávamos em férias na escola e eles eram o meu único contato com a vida local. Eu até via outras crianças pela rua, andando de bicicleta, jogando um esporte estranho numa quadra que parecia de tênis, jogando bola na quadra do meu futuro colégio, mas me limitava a milícia mirim da Vila Militar.
   Não lembro se eu achava tudo isso estranho naquela época ou se isso é algo que me recorre agora. A verdade é que, por alguns meses, valia tudo para encontrar o meu lugar naquela cidade. Valia correr atrás das meninas, valia jogar pedra na janela do ginásio da cidade, invadir casa dos outros.
   Estava valendo tudo naquele fim de férias, onde a sensação era de uma viagem sem volta. Mas aí, as aulas voltaram.

Capítulo 3 – Escola Estadual de 1º e 2º Graus Professor Diehl.   Quando começaram as aulas, o Diehl era só um colégio gigante. Tão grande, que a quadra fazia divisa com o muro dos fundos da minha casa, e por muito tempo
   Esse foi meu principal caminho todas as manhãs. Aliás, ir para escola em Quaraí era completamente diferente de ir para escola no Méier. No Rio, só dava pra sentir frio no ar-condicionado. Era impossível sair de casa sem tomar banho.   O uniforme era bermuda, camiseta e tênis (sem meia por favor!). Já a nova rotina exigia mais disciplina e menos banho pela manhã. Ao invés de tirar a roupa e entrar no chuveiro, era o uniforme que vinha para debaixo do edredom e por cima do pijama. Se no Rio eu saía pela porta da frente, cumprimentava o Aguinaldo e ia andando para o colégio, em Quaraí eu saía pelos fundos, brincava com o Dino e pulava o muro.


   Lá dentro tudo era diferente do que eu já tinha visto. Pra começar tinha merenda de graça! Na hora do recreio, você chegava na cozinha e sempre tinha uma tia te esperando com biscoito e achocolatado. Alguns dias ainda rolava um bolo ou um doce.
   E foi ali, no refeitório daquela Escola Estadual, que eu comecei a ver que Quaraí era muito maior que a Vila Militar. E que o mundo era maior do que qualquer mar.
   Entendi que a minha hora do recreio era na verdade a primeira refeição de alguns dos meus colegas. As viagens de avião, que viraram corriqueiras no fim de ano, provavelmente seria uma experiência que alguns deles jamais viveriam. Entendi que, para muitos, presunto e queijo era só para o lanche de fim de semana.

    E foi me fazendo entender tudo isso que o Diehl me ensinou matemática, português, história, geografia e ciências. Me ensinou mais do que a viver e conviver com as diferenças. No Diehl eu aprendi a ter dúvidas com o diferente. E aprendi também a tirar dúvidas com ele. Descobri que os amigos da escola também podem ser os amigos do futebol, do paddle, da bicicleta.
   Foi na escola que minha vida em Quaraí ganhou mais gente e aprendi que gente é o que transforma qualquer lugar em lar.
   Só que esse lar era no Rio Grande do Sul. E em setembro, meus amigos, o Rio Grande do Sul vira outro país!

Capítulo 4 – Onde fica o Alegrete?   Para quem não conhece Quaraí e ainda está por aqui, preciso explicar que a cidade fica na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Fazem parte da Grande Quaraí algumas cidade como Uruguaiana, Itaqui, São Borja e Alegrete. E foi por causa do Alegrete que eu quase fui expulso. Não só do colégio, mas também de casa.

   Segunda-feira, 12 de setembro de 1995, como sempre eu sou o primeiro a chegar na sala de aula. Entro e sento no meu lugar. Os alunos começam a chegar, todos eles vestidos de um jeito diferente, mas ao mesmo tempo igual. Uma calça larga nas pernas e fina nas canelas, uma sandália e camisa de botão. No intervalo da primeira, aula a professora Geane entra na sala e me chama para uma conversa particular.
- Léo, cade sua pilcha?
 

- Que isso, professora?
 

- Sua bombacha?

- Tenho isso não.

- Então você vai ter que comprar.

- Pra que se eu não vou usar?


   E assim o papo se prolongou até chegar à minha casa. Na verdade mesmo, estava começando a Semana Farroupilha. Uma espécie de ano-novo chinês que só acontece no Sul. Por duas semanas é cavalo, bombacha e overdose de erva-mate!

   No colégio isso se traduz em apresentações de dança, coral e tudo mais que a imaginação da professora responsável pela turma permitir. No meu caso, seria um coral onde os alunos vestidos com as roupas tradicionais (uma dica: nunca na sua vida, mesmo em caso extremo de morte, chame uma bombacha de fantasia!) iriam cantar o famoso CANTO ALEGRETENSE.

   Você deve estar se perguntando: famoso? Sim, gente. Mais famoso que qualquer sucesso do CD AXÉ BRASIL 95. Só que, para mim, parecia canto gregoriano.
  E a professora queria que eu cantasse! E de bombacha. Sério, não dava. Até esse dia eu estava na moral: fazendo amizades e falando leitE quentE faz mal para o dentE.

Mas aí já e demais!

   Fato é que meus pais foram chamados na escola e ficou decidido que eu ia cantar, mas com roupa normal. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
   Primeiro, porque eu fiz questão de ir vestido ao melhor estilo Rap Brasil no Mackenzie. E segundo. Apesar de ter decorado a letra, aconteceu o impossível.
   Durante todo o imbróglio do canta ou não canta. Do veste ou não veste. Se passaram alguns dias e um dos meus amigos cismou que eu tinha que cantar com bombacha, lenço e chapéu. Para o Alex, eu estava de frescura (ou balaca, na gíria da época).
   E era justamente o Alex que estava ao meu lado na formação do coral. Ficamos lá no alto. Onde a gente pode ver todo mundo e consequentemente todo mundo pode ver a gente.
   A introdução do Canto Alegretense foi especialmente grande, mas o que realmente chama a atenção é a letra da música.

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy

    Tanto é que eu passei uma semana decorando esse trecho. Eu estava ao lado do Alex! Eu não podia errar! Eu já era o “carioca balaqueiro que não respeitava as tradições gaúchas”, e se errasse um dos hinos gauchesco seria fim!

O Alex errou!

   Mas não foi um errinho. Ele começou pelo refrão! Começou antes de todo mundo e pelo REFRÃO!

(PAUSA PORQUE ATÉ HOJE NÃO CONSIGO LEMBRAR DISSO SEM RIR)

   O Canto Alegretense começa com um pedido: não me perguntes onde fica o Alegrete.
   O Alex começou justamente pela parte que eu me esforçara tanto para decorar. E quando ele começou, eu terminei. Não conseguia parar de rir nem olhando para a cara de puto do meu pai, na plateia.
   Foi uma crise de riso que me obrigou a sair de fininho por trás de todo mundo e correr para as coxilhas. De lá ouvi consegui ouvir toda a exuberância da música gaúcha entoada pelos meus amigos.
   Amigos que, por um bom tempo, o castigo só me permitiu encontrar na sala de aula. Ao todo, acho que perdi umas 3 discotecas pelas garagens da cidade.

Capítulo 5 – As Discotecas.
   Sim. O tempo em Quaraí era medido pelas discotecas. Geralmente organizadas pelas gurias e frequentada por guris com camisa xadrez, calça jeans e um mesmo sapato que se comprava no Uruguai.
   O DJ levava todo o equipamento de som, as luzes e as cumbias. É isso mesmo, hermano, enquanto você ainda nem sonhava com o Despacito, eu já estava na sofrência de Los Autenticos Decadentes.

   Enquanto o Brasil inteiro balançava o esqueleto e a bunda com o Axé, as discotecas de Quaraí misturavam o ritmo brasileiro com muita música uruguaia, ou colombiana, ou peruana, ou argentina, ou chilena. Eu até hoje não sei de onde vem as Cumbias, e se elas vém todas do mesmo lugar.
   Pelo o que eu me lembre, só os Mamonas foram capazes de tocar um disco inteiro nas festas e Garota Nacional, do Skank, era obrigatória. Tirando essas exceções, a regra era Latinidad, Halls azul ou vermelho e tudo mais que só a adolescência em uma cidade do interior permite.
   As festas mais esperadas aconteciam na casa da Vanessa Soriano. Talvez porque não necessariamente aconteciam em uma garagem. Mas também rolava no Inácio, mas essas eram mais perigosas porque ele morava na esquina da minha rua e sempre corria o risco dos meus pais passarem por ali.



   Tinha festa atrás da agência do banco Banrisul, na casa de Vô, na casa de tia e também teve uma na vila militar.
   Mas era na casa da Dani Gindre que as discotecas ganhavam um novo status! Aliás, foi nessa casa que eu tive meu primeiro contato com a TV a cabo. Lembro de perder boa parte de uma discoteca assistindo pela primeira vez o Sportv!
   Não sei quando a galera começou a trocar as discotecas pelas casas noturnas. Não peguei a decadência das nossas festinhas e não sei como elas terminaram. Mas o grupo do Whatsapp, que reúne a galera desse tempo, tem foto de uma dessas festas no perfil. Ou seja, eu fui embora, as discotecas de garagem acabaram, mas todo esse tempo continua bem vivo em todos nós.


Capítulo 6 – A volta.
   O desejo do meu irmão se realizou 4 anos mais tarde. Em 98 me tiraram a cidade que me acostumei a gostar. Já não sentia mais a necessidade de voltar para o Rio e a única coisa que me preocupava era se na nova cidade, eu iria reencontrar tudo o que estava deixando em Quaraí.
   Os cavalos e as aulas de equitação, as salas do Diehl, a Semana Farroupilha e a professora Nair com seus mapas. O futebol e o paddle no Círculo Militar. O verão com sol até as nove horas da noite ou inverno que fechava a piscina do clube.



   Queria reencontrar na próxima cidade, aquelas crianças chatas que ficavam zoando o meu erre, o meu s, e qualquer outra palavra que eu falava. Que muitas vezes falavam uma língua totalmente incompreensível para mim tipo: zorrilho, gineteada, campanha, bagual e jogar uns ganchos.

   Uma galera que, mesmo sendo Tetra, achava tudo o que era legal Tri. E mesmo ano que vem, caso Neymar e cia sejam campeões na Rússia, o Hexa vai ser Tri.

   Aliás, galera não. Gurizada! Que terminava toda frase com tchê ou barbaridade. Que usava tu ao invés de você. Que come negrinho ao invés de brigadeiro. E que vai passear no Uruguai como quem mora no Méier dá um pulo na Dias da Cruz.
   Mas eu não encontrei mais nada disso. Acho que, na verdade, ninguém que viveu em Quaraí nessa época reencontrou tudo o que vivemos em outros lugares.
   Hoje, eu descobri que Quaraí é muito mais que uma cidade na fronteira do Brasil com o Uruguai, no sul do Rio Grande do Sul.
  Quaraí foi uma professora que ensinou para a geração que hoje curte fotos no Facebook, que bom mesmo era curtir a guerra de balão (bexiga) d`água na rua.
  Uma geração que compartilha ideias no whatsapp com uma baita saudade da conversa fiada na frente da casa do Tarso.
   Uma galera que até posta fotos de festas incríveis no Insta, mas guarda algumas fotos das festas nas garagens com todo carinho na casa dos pais.
   Quaraí é uma história com início, meio e fim. Muito bem vivida por todos nós. E todo dia reescrita em nossas lembranças. E se você chegou até aqui, sem conhecer o meu Quaraí ou reencontrar o seu, eu te pergunto.

- Tu é louco, tchê? Ou te faz?

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reale Jr. diz que Brasil tem novo ator político e instituições estão de costas para a nação

Livro registra reconstrução das fortalezas da Ilha de SC

   Os esforços para a preservação e restauro das fortalezas da Ilha de Santa Catarina, encabeçados pelo empresário Armando Gonzaga, são relatados em livro a ser lançado nesta terça-feira (15.8), às 18h30, no Centro Integrado de Cultura.

   Em 151 páginas ficamos sabendo como foram conservados os fortes e fortalezas de Santana e Santa Bárbara (Centro), Santa Cruz (ilha de Anhatomirim), Santo Antônio (ilha de Ratones Grande) e São José da Ponta Grossa, além da tentativa de recuperar a de Nossa Senhora da Conceição (ilha de Araçatuba).

   A obra se concentra no período inicial do restauro, executado por profissionais de renome como Luis Saia, Cyro Corrêa Lyra, José La Pastina Filho e Dalmo Vieira Filho, todos do Iphan, com o respaldo decisivo de Armando Gonzaga. Posteriormente estas edificações foram assumidas pela UFSC, que as mantém até hoje.

   Além de contar com os depoimentos de Gonzaga, La Pastina, Dalmo e Cyro, entre outras fontes, o livro conta com dezenas de fotografias (cerca de 90% inéditas), antigas e atuais, além de outras imagens (desenhos). 

(DAQUI)

sábado, 12 de agosto de 2017

Carlos Araújo

   por Emanuel Medeiros Vieira
   Mesmo brevemente, queria homenagear Carlos Araújo, morto no começo da madrugada deste sábado, 12 de agosto de 2017, em Porto Alegre.
   Estivemos presos juntos, combatendo a ditadura, na Operação Bandeirantes (OBAN) - a maior sucursal do inferno que conheci na minha vida.
   Foi um dos seres humanos mais corajosos no enfrentamento da tortura que conheci.
   Discreto, quando a sua ex-mulher Dilma, assumiu a presidência da República, não foi atrás de "bocas" ou de sinecuras.
   Ficou na sua amada Porto Alegre, como atuante advogado trabalhista, ajudando a muitos clientes que não podiam pagar.
   E, naquela cidade, deixará os seus ossos. Fumante há décadas, sofria de problemas pulmonares.
  Foi também deputado estadual - creio que por três vezes - pelo PDT, no Rio Grande do Sul.
   Se, sinceramente, ACREDITO que a nossa vida é uma MISSÃO, ele a cumpriu plenamente - sendo fiel a si mesmo, aos seus valores, seguindo as suas convicções e combatendo o fascismo.
   Agora, digo-te adeus.
   Talvez, um dia, alguns sonhos dos nossos "ANOS JOVENS", sejam realizados pelas gerações vindouras. 


DESCANSA EM PAZ, CARLOS FRANKLIN PAIXÃO DE ARAÚJO (ou "Max"- seu nome de "guerra" na luta armada)!



Salvador, 12 de agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A corrupção e a elite judiciária

Raramente concordo com os comentários políticos do Kennedy Alencar. Antes, muito engajados. Hoje mais independentes e racionais.
O artigo que reproduzo abaixo foi uma das melhores análises que li nos últimos tempos sobre a corrupção e os privilégios do judiciário.


Por mais salário, juízes e procuradores criam “patrimonialismo moral”

É desonesto invocar combate à corrupção para abocanhar dinheiro público
   por Kennedy Alencar
   Quando a notícia apareceu no final da tarde ontem, parecia “fake news”. Mas era verdadeira. Ela estava no blog do excelente jornalista Frederico Vasconcelos, repórter da Folha que cobre assuntos do mundo jurídico.
   A Frentas (Frente Associativa da Magistratura e do Ministério Público) divulgou uma nota com reação dura à decisão de 8 dos 11 ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) de não prever reajuste salarial de 16,3% para juízes e procuradores no Orçamento de 2018.
   De acordo com a Frentas, que representa cerca de 40 mil magistrados e integrantes do Ministério Público, a decisão do STF seria “intolerável”, porque jogaria o peso da crise econômica sobre “as costas das categorias”.
   A Frentas invocou, indiretamente, o combate à corrupção para dizer que juízes e procuradores estariam sofrendo retaliação. Foi preciso ler para crer: “Ao fim e ao cabo, a Magistratura e o Ministério Público, que tanto vêm lutando para corrigir os rumos desse País, inclusive em aspectos de moralidade pública, estão sofrendo as consequências de sua atuação imparcial, com a decisiva colaboração do Supremo Tribunal Federal, ao desautorizar o seguimento de projeto de lei por ele mesmo chancelado e encaminhado em 2015”.
   É inacreditável que juízes e procuradores, que ganham excelentes salários na comparação com a maioria dos brasileiros, tenham reagido de tal maneira numa hora de alto desemprego, de grave crise fiscal e na qual os mais pobres estão pagando com imenso sacrifício a conta do ajuste econômico.
   A nota da Frentas, endossada por nove entidades representativas de juízes e procuradores, equivale a um manifesto de criação do “patrimonialismo moral” no Brasil, dando contribuição inovadora, digamos assim, aos conceitos da sociologia e ciência política.
   O patrimonialismo é uma característica do atraso civilizatório do país, segundo o qual uma elite não faz distinção entre o patrimônio público e privado, mas uma confusão entre os dois. Essa elite, desde o colonialismo português, gosta de se apropriar de fatias do Estado em benefício próprio, vivendo como uma casta privilegiada em meio a uma enorme desigualdade social.
   Ao apelar para uma suposta retaliação pelo combate à corrupção, a Frentas mente em nome do “patrimonialismo moral”. Basicamente, o argumento é o seguinte: não querem me dar aumento porque luto contra corruptos. Ora, os 8 ministros do STF que se recusaram a colocar o reajuste de mais de 16% no orçamento de 2018 não estão retaliando ninguém por combate à corrupção.
   Aumentar o salário de ministros do STF elevaria o teto salarial em todo o país, num efeito cascata negativo para as contas da União, Estados e municípios. O Supremo acertou.   Agiu com responsabilidade.
   O governo decidiu elevar as metas fiscais de 2017 e de 2018, que já são negativas, porque não há dinheiro suficiente para fechar nem o rombo previsto.
   É desonestidade intelectual usar o combate à corrupção para justificar aumento salarial. Se os juízes e procuradores que assinaram a nota da Frentas julgam e acusam com a honestidade intelectual com a qual argumentaram, os cidadãos estão perdidos.

   O ministro Ricardo Lewandowski, um dos três votos no STF a favor do aumento, reclamou do baixo salário. A Frentas falou em perdas salariais acumuladas. É zero a consistência desses argumentos. Puro corporativismo.
   Os salários não são baixos na magistratura nem no Ministério Público. Perdas salariais atingem todas as categorias de servidores públicos e privados. Não é exclusividade da Frentas, que representa 40 mil juízes e procuradores.
Para ficar no exemplo do Supremo, em junho, todos os ministros receberam um salário bruto acima do teto constitucional de R$ 33,7 mil. O maior vencimento bruto foi do ministro Alexandre de Moraes: R$ 57.678,46. Isso gerou um salário líquido de R$ 44.344,82.
   Os menores vencimentos brutos do STF em junho foram dos ministros Dias Toffoli e Edson Fachin. Ambos ganharam R$ 45.017,13, mas Fachin teve um rendimento líquido um pouco menor do que Toffoli. Fachin ficou com R$ 30.841,27 após descontos.
   Juízes federais têm um salário base de R$ 27.500,17, com teto igual ao dos ministros do STF.  Aliás, é bastante comum que juízes e procuradores ganhem acima do teto constitucional com penduricalhos, que são salários indiretos, como o auxílio-moradia de R$ 4.377,73.
   Reportagem do jornal “O Globo” de outubro de 2016 mostrou que, dos 13.790 magistrados da Justiça comum, 10.765 ganhavam acima do teto constitucional na ocasião. No âmbito federal, 89,18% dos juízes ultrapassam o teto salarial. Aliás, há servidores nos Três Poderes que ultrapassam o teto, algo proibido pela Constituição.
   Receber acima do teto também é uma forma de corrupção.   Os cavaleiros do combate à corrupção deveriam reagir a isso. Para muitos, o teto virou piso. É contra essa ilegalidade, mascarada em “indenizações, vantagens e gratificações”, que a Frentas deveria se manifestar.
   Os números mostram que a magistratura e o Ministério Público pertencem a uma elite do funcionalismo. Os pobres não são invisíveis. São uma dado da realidade. É preciso maior sensibilidade social para falar em direitos adquiridos e perdas salariais, porque direitos básicos da população, como acesso à saúde, à educação, à moradia, à segurança pública etc. estão sendo sacrificados e desrespeitados todos os dias no Brasil.
   É preciso mais solidariedade, mais responsabilidade social e mais sacrifício dos mais ricos do funcionalismo e da iniciativa privada neste momento de grave crise. Portanto, intolerável foi a reação da Frentas, porque privilegiados perderam a vergonha de defender privilégios. A conta do ajuste econômico está pesando sobre o lombo dos mais pobres e não sobre as costas dos doutores juízes e procuradores do país. 

Léo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A corrupção e a elite judiciária":

Ganham demais, tem o dobro de férias, recessos1000, auxilios1000, e é AUMENTO, nem reposição salarial é... 




Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A corrupção e a elite judiciária":
Discordo da pessoa que comentou acima.
Em primeiro lugar, descontando imposto de renda e previdência todos eles recebem acima de 20 mil reais líquido, sem contar o auxílio-moradia e auxílio-alimentação que são verbas indenizatórias e que não entram no cálculo do IR e da previdência.
Em segundo lugar, os magistrados e procuradores possuem direito a 60 dias de férias por ano, sem contar o recesso forense, algo impensável em outros países e para outros agentes públicos do Brasil ou para a iniciativa privada brasileira. Muitos desses magistrados vendem suas férias e recebem em pecúnia.
Em terceiro lugar, em muitos estados existe ainda a figura da licença-prêmio, como o Estado de Santa Catarina, no qual após o interregno de 5 anos esses agentes públicos ganham um "bônus" de 3 meses de licença do trabalho com vencimento. Essa licença-prêmio também é passível de venda.
Em quarto lugar, como em Santa Catarina, recebem atrasados de tudo quanto é tipo de situação, ainda que potencialmente contrária à ordem jurídica - tudo de forma administrativa e sem questionamentos.
Em quinto lugar, todos os magistrados e procuradores possuem direito a assessores e servidores, os quais lhe ajudam enormemente no trabalho. Claro, a responsabilidade final é do magistrado, e há alguns casos que realmente são complicados, porém em causas complexas há recursos para as instâncias superiores, retirando assim um pouco da responsabilidade que corre nos ombros dos magistrados de 1ª instância.
Por fim, se você consultar a remuneração recebida por essas pessoas verá contracheques em valor líquido acima de 100 mil, 60 mil, 40, 50 mil - coisa que não é incomum.
 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

APRENDI



Emanuel
   por Emanuel Medeiros Vieira      
                
“Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém. Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim e ter paciência para que a vida faça o resto". (William Shakespeare)

 "Estamos vivendo um momento cinzento, obscuro. E é importante algo que nos conforte(...). Não sinto-me representado por ninguém". (Selton Mello - ator/diretor)                                 
"Não somos salafrários. Somos ecxelências". (deputado Júlio Lopes -PP/RJ)
   
   Esfarela-se o tempo e a sensação (no inconsciente coletivo) é de falência das utopias, de miséria espiritual, de degradação de valores, de descrença quase absoluta na transformação do país pela via institucional. (É claro que não estou falando em luta armada. De novo? Não.)

   Saquearam o país. É um tempo no qual os “piratas” mais fortes fazem tudo o que não é lícito para manterem-se no poder.

   Isso é novo? Sempre existiu?

   Talvez não tenha ocorrido com tanta desfaçatez e falta de cerimônia. Muitos já buscam outros caminhos, como a Espiritualização em diversos igrejas ou cultos. Ou caem no cinismo: “São todos iguais” – em um nivelamento geral por baixo.

   O deputado citado acima, que votou a favor da absolvição de Temer contra a denúncia da Procuradoria-Geral da República, diz que ele e outros não são salafrários (poderia dizer velhacos, patifes). São excelências – garante.

   Ou será que aquilo que ocorreu naquela noite de horror, no fundo, seja uma metáfora da sociedade brasileira?

   Da cultura do jeitinho, da valorização da “esperteza” (não da criatividade), do hábito de atravessar sinais vermelhos, de ocupar vagas de idosos e deficientes, de furar filas, de ter a volúpia do calote – de uma cultura que quer tudo sem esforço e renega o mérito? Dos idiotizantes programas de auditório, do xingamento e ferocidades nas redes sociais?

   E o tempo não cessa, na angústia da ampulheta que não para de escoar areia, em uma sucessão interminável de instantes – como tantos já constataram (nada digo de novo).

   Posso deixar de interessar-me pela Política, mas ela não deixará  de se interessar por mim.

   Nosso olhar é medido pelo olhar do outro.

   É preciso que nos encantemos com as coisas simples e belas do cotidiano – é necessário construir o destino que só a nós pertence.

   Tudo que não tem valor contábil parece repudiado pela sociedade na qual vivemos: amizade, amor etc. (mas sem eles, nossa vida fica pobre, carregada de penúria amorosa e espiritual).

   Sem querer ser piegas, nota-se um déficit de ternura no mundo (não só nas contas do governo...).

   Não há internet ou geringonça eletrônica que sacie.

   Estão todos insatisfeitos e muitos procuram, desesperadamente, o caminho da celebridade.

   Fútil, vã – também passageira.

   Troquei de assunto? E por que citei Skakespeare numa das epígrafes?

   Não sei: talvez, para dar um alento à aridez do mundo, para tentar reconquistar algum espaço para a esperança – ou para utopia.

   Mas, afinal, o que quis dizer?

   Que cada um exerça plenamente suas convicções, seguindo o imperativo categórico kantiano: fazer o bem.


Somos meros grãos de areia na imensa praia global? Somos.


   Mas algo – sempre poderemos fazer, seja na “arma” da palavra ou em outra atividade, sem buscar álibis compensatórios (que sabemos ser mentiras)*


*EM TEMPO: Aqui vai nossa modesta solidariedade ao Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot – homem de bem, devotado ao seu digno trabalho, competente e pessoa de caráter – que tem sido atacado de maneira vil e ferozmente por gente que conhecemos: os eternos defensores da impunidade para o “andar de cima”, para os poderosos que mandam no país desde o seu descobrimento.

   Um dos furiosos atacantes é ministro do STF – que alguém qualificou de “Rasputin do PSDB” – vaidoso ao extremo, que adora um holofote, e ama falar fora dos autos.

   Não me esqueço do que disse dele o ex-ministro Joaquim Barbosa: “Não tenho medo de vossa excelência nem dos seus capangas”. 
   Nem nós.

 (Salvador, agosto de 2017).



Comentário de Eduardo Aydos
 
Querido amigo, publiquei na minha página uma referência ao teu poema, como segue:
 
'NOSSO OLHAR É MEDIDO PELO OLHAR DOS OUTROS' (apud APRENDI, Emanuel Medeiros Vieira, 09/08/2017) 
   Assim disse o meu amigo, no último poema que acaba de me enviar, e que eu ousaria explicitar no seguinte sentido: todo esforço do conhecimento é um processo de auto-reflexão comunicativa. E não se trata de apenas olhar-se, embora isso seja significativo, é também preciso falar-se... atualizando esse significado. E assim ele faz, e assim eu faço, e assim fazemos todos nós. Onde existe um outro, existe também um outro mundo, com sua cultura, sua história e sua vida presente e atual, cuja expressão, a cada preciso momento, é um convite ao entendimento. 
    É assim pensando, que celebro a legitimidade deste olhar desde um outro mundo, que é medida do nosso próprio, nas palavras que o expressam: "nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção, com denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República, não renunciar imediatamente ao cargo". Ouvi algo semelhante desde vários outros lugares do mundo; e, como celebração do seu próprio sentido, de muitas vozes do nosso próprio mundo. E agora o vejo reafirmado, em entrevista da jurista Hërta Däubler Gmelin, referindo fato acontecido na Alemanha, em 2012, quando o Presidente Christian Wulff renunciou ao cargo em razão de denúncia pelo procurador geral, envolvendo a quantia de 700 Euros. 
    Reconheço que não é fácil postular-se esse descortino. E, as declarações em realce, da jurista alemã, ilustram essa dificuldade. A ideologia cega, e a história oprime, quando se perdem os limites da sua utilidade e consequência. 
   
   Quando um convite à reflexão, sobre os padrões éticos que vigoram hoje na política brasileira, recebe como contraponto, em face da sua nacionalidade, a expressão de um desentendimento sobre os horrores do nazi-fascismo na Alemanha, evidencia-se o quanto uma ideologia - seja ela auto-identificada, como de esquerda ou de direita - e uma equivocada invocação da história podem constituir-se num obstáculo epistemológico à decifração da esfinge política que desafia o nosso olhar e o nosso discurso.
 
    Não preciso subscrever sua vontade de poder ou o seu consequente niilismo, para reconhecer a lucidez de Frederico Nietzsche em suas 'Considerações Intempestivas': "A serenidade, a boa consciência, a alegria na acção, a confiança no futuro, tudo isso depende, no indivíduo como na nação, da existência de uma linha de demarcação entre o que é claro e pode abarcar-se com o olhar e o que é obscuro e confuso. Trata-se de saber esquecer a tempo, como de saber recordar a tempo; é imprescindível que um instinto vigoroso nos advirta sobre quando é necessário ver as coisas historicamente, e quando é necessário não as ver historicamente. É este o princípio sobre que o leitor deve refletir: o sentido histórico e a sua negação são igualmente necessários à saúde de um indivíduo, de uma nação e de uma civilização". (PRESENÇA/MARTINS FONTES, P.109)
 
Abraço do
Aydos

domingo, 6 de agosto de 2017

Um Percurso Alternativo para o Brasil

“Os chiqueiros fazem os porcos ou os porcos 
fazem os chiqueiros?”
Dalrymple, Theodore. A vida na Sarjeta
 – O círculo vicioso da miséria moral, 2014.

   por Eduardo Guerini
   O arquivamento da denúncia de corrupção passiva contra Michel Temer sepultou as esperanças da sociedade brasileira no combate efetivo a corrupção epidêmica que se disseminou em todas as esferas da República Federativa. A estratégia governista na cooptação de parlamentares não é nada novo no esteio de governos que necessitam da governabilidade para impor suas propostas para o Brasil.

    É indubitável que a liberação de verbas parlamentares, em momento de contração fiscal, com demandas sociais crescentes diante do cenário aterrador da maior recessão e nível de desemprego jamais visto na história deste País, transformou-se em meio para atingir o objetivo desejado por Michel Temer e seu Ministério. Não se tratou de garantir a continuidade da agenda reformista e de retomada do crescimento, mas, da sobrevivência política de uma parcela considerável de investigados no âmbito do “foro privilegiado”.

    A condição é a formação de um Estado Cleptocrático de Direito, a corrupção pouco a pouco se naturaliza e se institucionaliza na compra e venda de apoio no interior do Congresso Nacional. Não importa o partido político e sua orientação ideológica – à esquerda, ao centro e à direita, todos os representantes parlamentares estão irmanados na sanha corruptiva e se movimentam para abastecerem a máquina eleitoral. O abismo entre governantes/governados, representantes/representados, partidos políticos e seus programas são elementos garantidores da crise de legitimidade e representatividade das instituições e da frágil democracia brasileira.

    Estranhamente, a multidão que invadiu as ruas e avenidas brasileiras para o impedimento de Dilma Rousseff, ficou silenciada e resignada. As sucessivas propostas do governo Temer para as reformas estruturais, têm um único alvo - desmantelar o sistema de seguridade social brasileiro, flexibilizar as relações trabalhistas, garantindo a segurança jurídica e lucros para setores conservadores que sonham uma república sem povo. Os resquícios autoritários são visíveis no ressurgimento do CENTRÃO e do DEM, duas forças conservadoras que tramam contra o interesse da maioria da população.

    A rejeição categórica aos partidos, parlamentares e ao próprio governo, pode ser um lampejo para as forças progressistas, o catalisador que indique um percurso alternativo ao caminho percorrido nos governos Sarney, Itamar, FHC, Lula e Dilma.

   É gritante a inexistência de um projeto nacional para o Brasil, com clara orientação para reformas estruturais que tenham como eixo a distribuição de renda, a inclusão pelo emprego e uma nova estrutura tributária, elementares para evitar a regressão socioeconômica em curso. O estágio é de reconfiguração de arranjos sócio-políticos, redefinição de agenda e formas de atuação do movimento social.

    Para superar nossas dúvidas, a retomada da confiança na atuação das lideranças dos diversos setores da sociedade implica que teremos uma longa e tortuosa caminhada para reestabelecer os laços de cidadania, rompidos pela degeneração ética no Brasil.

    Vivemos um limbo político-ideológico que nos remete a máxima de Dante: “Vamos, pois o longo caminha nos impulsiona”!