segunda-feira, 20 de maio de 2013

ÓRFÃOS DE THOREAU


  Por Janer Cristaldo
   Modas bobas com foros de sabedoria é o que não falta na imprensa. A última parece ser a da penúria como modo de vida. Em artigo para o jornal Valor Econômico, leio sobre um escritor carioca que, criado em um apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, no Rio, cresceu tendo para si um quarto com mais de 20 metros quadrados. Hoje vive em um apartamento pouco maior do que isso. Nos 22 metros que ocupa, em Copacabana, são poucos os móveis e objetos e, se há um sofá e uma rede, não há espaço para uma cama. Nem gavetas nem armários, exceto um pequeno, de limpeza.
   Além de três pares de sapatos, seus pertences são outros três de Havaianas, três calças, uma camisa, 12 camisetas (número aproximado), dois casacos, um blazer, dois jogos de toalhas, dois de cama, alguns utensílios de cozinha, um notebook, um Kindle, um celular e uma câmera digital. Poderia ser uma história de ruína financeira, mas se trata de um fenômeno cada vez mais observável. Castro aderiu a um estilo de vida minimalista. 
   Confesso que até hoje não entendi o que queira dizer minimalista. Nem ninguém conseguiu explicar-me. A palavra pretende significar tantas coisas que acaba não significando nada. É o mesmo que holística, palavrinha que geralmente vem acoplada a picaretagens. Mas admitamos que minimalista, no caso, tenha o prosaico significado de viver com o mínimo necessário.
   Pra começar, o escritor tem algumas posses a mais do que eu, a saber, 12 camisetas, um blazer e dois casacos. Não tenho nenhum destes itens e vivo muito bem. Utensílios de cozinha e celular, os tenho porque herdei da finada. Não como em casa nem utilizo o celular. Quanto a viver sem gavetas, os despojados que me desculpem. As gavetas foram um dos grandes momentos da criatividade humana e viver sem elas é conviver com o caos. Quanto a viver num ap de 22 metros quadrados podendo viver num de 600, sem espaço para uma cama, isto já é estar de mal com o mundo. Como receber uma visita, um amigo, uma amiga, um parente?
   E a biblioteca do escritor onde fica? Ou será um escritor tão minimalista que nem biblioteca tem? Ou a terá no Kindle? Mas nem todos os livros que necessitamos têm versão digital. Pelo jeito, o escritor não preserva a memória. Mesmo na era digital, memória ocupa espaço. São os objetos pelos quais temos apreço estético ou valor afetivo, presentes de pessoas queridas, ornamentos que tornam nosso entorno mais aconchegante.

Leria o artigo completo.Beba na fonte.

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