segunda-feira, 30 de junho de 2014

NÁUFRAGO


   Por Marcio Silva
Aos meus avós Herondina, Cantídio, Ana e José

   A vida é uma carta. Conhecido o destinatário, a dúvida é o tempo de chegada. Se o remetente é econômico ou perdulário. Por isso, só depois de adulto descobri porque meu avô criava pombos. Foi assim que acreditei numa história de guerra, da mistura de barro vermelho com trigo para preparar o pão para não passar fome. Era ingênuo ainda quando a ouvi pela primeira vez, justo em minha estreia no cozido da ave.

   Meu avô era vivo e construiu sua casa em madeira de lei. No século de meu avô morrer era um evento. Não fosse a prematura surpresa o de papai não traria desalento. Não tenho irmãos. Não tive filhos. Sou saudade em vida, da falecida.

   Meu avô era vivo e o sótão de sua casa tinha um baú. Meu avô morreu e ninguém quis abrir seus guardados. Do contrário, anos em retalhos agruparam-se a todos os flancos do baú.

   Meu pai morreu, todos ficaram com cara de não sei e o sótão da casa de meu avô ainda tem um baú. No século do meu avô as fotos eram como folhas esmaecidas. No século de meu pai vírus de computador tornavam imagens desaparecidas.

   Na mesma época entendi porque meu avô saía toda semana à noite para caçar rãs. Luzia meticulosamente cada vão do brejo que serpenteava nossa casa. Escolhia as mais gordas e sempre trazia a conta dos comensais:

- Amanhã é outro dia!, com sua voz de touro dizia.

   Meu avô é ainda mais imponente ao lado de vovó. Vê-lo no amarelado da foto causa-me dó. Resta o baú. É uma caixa de história. O depósito do que se quer inesquecível. Perene e concreto, intraduzível, o fugidio nos escombros da memória. Se não abri-lo - essa é a ideia! - a casa em madeira de lei e seu sótão com baú e bugigangas vão enterrar-me ao natural. Seus segredos de abelha já são colmeia.

   A velha tranca do baú insiste em fazer do sigilo aleivosia. Uma martelada é lenitivo à teimosia. O filme em recortes e fotografias: Um soldadinho de chumbo, moedas, mechas de cabelo, dentes de leite, cordão umbilical, aliança de ouro, frascos de perfume, avental, folhas e folhas e folhas, escritos entre capa dura, flores e flores e flores, secas. Ao meio de cada folha pura.

   Vovô legou-me versos em seu baú encantado. Uma pequena folha do que deixou guardado é o que lhes apresento agora de sua cápsula do tempo: “ Sementes de ontem / no fértil de hoje / germinam amanhãs”. Vasculhar o baú deu-me convicção sem queixa - Não importa o que tem, o homem é o que é e o ser compreende o que faz e o que deixa.

   Muito além, soube que vovó por parte de pai vendeu fato durante décadas. Meu contato com ela era raro mas de dobradinha sempre tive asco. Questão de gosto porque pombos e rãs eram de meu perfume apenas o frasco.

   Em sua inocência de filha de escravo com índia, vovó duvidou que um dos pratos principais da dieta de seus arredores acabasse descartado. O trabalho das facas no abatedouro logo revelou a realidade e pôde encher o carrinho de mão do mais puro e perfumado mundongo de seis bois.

   Chegou ao rio pondo os bofes para fora, descansou um bocadinho e iniciou a mais repugnante tarefa, fazer brilhar aqueles valiosos estômagos. As mãos de pele carcomida encontraram gêmeas univitelinas ali mesmo, diante dos olhos, nos desvãos dos miúdos.

   Sutil como uma flecha, também limpou o carrinho e lhe devolveu a carga, range que range na direção de casa. A cozinha estava um pandemônio, mania de formar fila na pia para lavar de uma só vez as quatro estações. Abriu espaço para seus quitutes e pôs-se a nova faxina, lavando meticulosamente e cortando as peças em partes mais ou menos equivalentes.

- Um cruzeiro cada. – Imaginou a compra de nova fatiota, extravagância a que jamais se permitira, sempre vestida por doações.

- Fique lá no canto e não atrapalhe os pica-paus. – Ela ouvia todo dia o dono do abatedouro, que se considerava o único açougueiro de fato e fazia questão de deixar bem claro.
-Aproveite a semana que o bucho vai para o refugo.
   Só depois de adulto atinei porque ao primeiro sinal de salário meu pai trazia maçãs. Ele abria a caixa argentina, pegava uma faca e comia os pedaços com sofreguidão. Era a imagem da opulência que nunca teve sendo finalmente satisfeita. Só agora aos 50 e uns comecei a criar meus pombos, caçar rãs e plantar árvores frutíferas. A idade dói , abstrata demais, imutável sob nosso estúpido concreto.

   Os pombos do século XXI voam com as asas do lúdico assim como as memórias e as memoráveis rãs. Das árvores obtenho frutos - pitangas, limões, bananas, amoras, mamões, goiabas, jabuticabas - apenas as macieiras permanecem mirradas.

   A maçã é do frio e faz muito calor aqui, nesta ilha que me cerca de um mar de reminiscências.

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