segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

QUE FAZER?



por Emanuel Medeiros Vieira
para Gerônimo Wanderley Machado

Não é por acaso que a história do capitalismo tenha relação direta com a história do declínio da subjetividade, do fim do autoconhecimento, da mercantilização da biografia, do crescimento da indústria de celebridades e das vedetes
                                          (Márcia Tiburi)

   Aproveito uma obra de Lênin para intitular o texto abaixo..
Não, não vim para falar de materialismo histórico..
   Queria meditar um pouco sobre o “mal estar da civilização”, agora me aproveitando-me de um título de Freud.
   Sem nostalgia, em uma certa época – que vivi intensamente (por exemplo, a década de 60) –, a gente tinha ilusões, utopias, esperanças.
   Havia a sensação “inter-subjetiva" (não só individual) de termos um horizonte político.
   A tragédia brasileira é não ter nenhuma perspectiva. Pessimismo? Não creio.
   É pela defesa da vida – acreditem – que escrevo esse texto.
   A gente internalizava tais perspectivas – mesmo sob o tacão de uma ditadura militar, mesmo sofrendo a violência da tortura, do exílio, de mil processos etc.
   Percebe-se uma espécie de fascistização do mundo – não falo só da corrupção que degrada, que tira as esperanças e que enoja.
   É o crescimento da extrema-direita, sem falar nos Estados Unidos.
   Apesar das toneladas de papel que já foram escritos sobre Trump, queria meditar rapidamente sobre sua ascensão. Não apenas dizer que ele canalizou as frustrações de uma classe média branca e empobrecida – nos EUA.
   Philip Roth escreveu sobre o atual presidente dos EUA: “Donald Trump é ignorante sobre governo, história, ciência, filosofia, arte, incapaz de expressar ou reconhecer sutileza ou nuance, destituído de toda decência e detentor de um vocabulário de 77 palavras” (...).
   Houve uma época em que ser atacado com tanta violência por um dos mais importantes escritores americanos do seu tempo (Phiilp Roth), “representaria uma dor de cabeça séria para o presidente dos EUA”, como observou Sérgio Rodrigues.
   Hoje, suas palavras caem no vazio, ficaram no "sopão  frio de uma cultura em que deixamos de dar bola para o que pensam os escritores”.
   É um tempo de trevas, mas não para desistências.
   Precisamos fazer o que for possível para recuperar o HUMANO, A ESPERANÇA.
   Como? Caminhando. Como já disse alguém, as estradas foram feitas para serem  trilhadas.
“Aqueles que não caminham por medo de cometer um erro cometem o mais grave deles” (Papa Francisco  –Homilia, “Domus Sanctae Marthae”, 8 de maio de 2013)
(Salvador, fevereiro de 2017)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Globo e Folha sofrem censura de Temer e juiz, e apagam reportagens. Nós publicamos o que foi proibido.

 
 Ocorreu hoje um grande ataque à liberdade fundamental de imprensa perpetrado pelo governo do presidente Michel Temer, sua esposa Marcela e um juiz do Distrito Federal. Como resultado, os dois maiores jornais do país, Folha de S. Paulo e O Globo, foram forçados a retirar do ar artigos sobre um assunto de grande interesse público.

   Como um dos objetivos da criação do The Intercept era defender e apoiar a liberdade de imprensa em todo o mundo, estamos publicando os materiais censurados para que possam ser analisados pelo público. Não há nada mais perigoso do que políticos e tribunais aliados para determinar o que jornais podem ou não publicar, e faremos o possível para retificar esses ataques ao direito à informação.



O caso em questão surgiu da tentativa de chantagem da primeira-dama e do presidente feita por um hacker que clonou e roubou os dados do iPhone de Marcela Temer. O hacker, Silvonei José de Jesus Souza, foi condenado a cinco anos e onze meses de prisão por tentativa de chantagem após exigir o pagamento de R$ 300 mil para que o material não fosse divulgado. Ele também foi condenado por ter usado o acesso ao iPhone da primeira-dama para extorquir R$ 15 mil do irmão dela.

Na sexta-feira (10), a Folha publicou um artigo descrevendo algumas das mensagens de chantagem enviadas pelo hacker à primeira-dama pelo WhatsApp. O jornal explicou que o hacker alertou que, se fosse divulgado, o material poderia prejudicar a reputação do presidente Temer — jogando o nome dele “na lama” —, pois mostraria que ele teria se envolvido em conduta imprópria e, talvez, ilegal. O jornal também publicou diversas mensagens de WhatsApp enviadas pelo hacker.

O presidente Temer e sua esposa negaram que o material hackeado revele qualquer irregularidade. No entanto, na sexta-feira, onze minutos após a Folha publicar o artigo, o presidente enviou seus advogados para requerer, em nome de sua esposa, uma ordem judicial para que os jornais tirassem as reportagens do ar e não publicassem mais materiais sobre o conteúdo das conversas no futuro. O tribunal não apenas emitiu a ordem de censura como impôs uma multa de R$ 50 mil em caso de descumprimento.



Decisão do juiz

Na manhã de hoje, a Folha publicou um artigo explicando que havia recebido uma ordem judicial. O artigo dizia: “A pedido do Palácio do Planalto, a Justiça de Brasília censurou reportagem da Folha sobre uma tentativa de extorsão sofrida pela primeira-dama Marcela Temer no ano passado”. Citava ainda um trecho da decisão que dizia estar fundamentada na defesa da “inviolabilidade da intimidade” da primeira-dama. Como resultado, a Folha apagou sua própria reportagem da internet e a substituiu por esta matéria sobre a ordem de censura. O Globo fez o mesmo logo depois.

O que torna esse episódio particularmente bizarro é que não havia informações sensíveis no material publicado pela Folha. Embora haja indícios de que o hacker tenha obtido fotografias íntimas do telefone de Marcela, nada no artigo da Folha descrevia ou revelava qualquer coisa do gênero.

Pelo contrário, tudo o que a Folha publicou e descreveu é parte do registro público do processo contra o hacker. De fato, na reportagem sobre a censura, a Folha explica que qualquer advogado ou pessoa com cadastro no site da Justiça poderia acessar o material que o jornal foi ordenado a retirar do ar.

O caso em questão e o material a ele relacionado são de pleno interesse público. Enquanto Temer e sua esposa negam que haja qualquer revelação de irregularidade de sua parte, há uma acusação criminal, respaldada pelo material, que levou um homem a ser condenado a mais de cinco anos de prisão. Alegações de que o presidente do país tenha incorrido em atividades ilegais ou antiéticas devem ser resolvidas através da análise das evidências, e não pela censura de jornais.

Em coletiva de imprensa realizada hoje, o presidente negou que tenha buscado qualquer tipo de “censura”, mas não fundamentou sua afirmação. De fato, a supressão de reportagens jornalísticas visando proteger aquele que ocupa o posto de maior poder no país é um caso clássico de censura, e da mais perigosa espécie.

Por isso, The Intercept está publicando o material relacionado ao caso que foi obtido através dos registros públicos. São os mesmos registros que a Justiça ordenou que a Folha e O Globo (e ninguém mais) não publicassem. Fazemos isso em defesa do direito da imprensa de trabalhar sem ser censurada pelo Estado, assim como para levar informações vitais que o público tem direito de conhecer sobre seus líderes. Continuaremos a analisar o material para estabelecer o que atende ao interesse público.

Não fazemos isso por conta de nosso afeto pela Folha de S. Paulo ou pelo Globo. Os dois jornais atacam a liberdade de imprensa de outros veículos regularmente. A associação por eles controlada entrou com um processo que busca negar a liberdade de imprensa a veículos como BBC Brasil, El Pais Brasil, BuzzFeed Brasil e The Intercept, pedindo aos tribunais que determinem que não podemos fazer reportagens sobre o Brasil. E, ironicamente, esses dois veículos apoiaram o impeachment de uma presidente eleita democraticamente, Dilma Rousseff, levando Temer ao poder.

Pelo contrário, fazemos isso por reconhecer que o ataque à liberdade de imprensa de qualquer meio de comunicação – mesmo do Globo e da Folha – representa uma ameaça à liberdade de imprensa de todos. Estamos publicando o material em defesa do direito dos meios de comunicação de trabalharem sem qualquer censura por parte do Estado, assim como para levar informações vitais que o público tem direito de saber sobre seus líderes.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Um Trapo Constitucional

por Eduardo Guerini
O núcleo da questão social hoje seria, pois, novamente, a existência de “inúteis para o mundo”, de supranumerários e em torno deles, de uma nebulosa de situações marcadas pela instabilidade e incerteza do amanhã que atestam o crescimento de uma vulnerabilidade de massa. (Castel, Robert. As metamorfoses da questão social, 1998, p. 593)
   
O governo Michel Temer retoma o discurso do infortúnio para os trabalhadores em relação aos direitos sociais garantidos na Constituição de 1988, vulgarmente conhecida como Constituição Cidadã, tendo em vista que assegurava ampliação da cidadania usurpada no período ditatorial.

   O impacto das lutas sociais travadas por movimentos de trabalhadores urbanos e rurais, colocadas no centro da construção da sociedade brasileira em transição democrática, que buscava resgatar a dívida social que desconcertava as elites dirigentes era evidente. Os meios de representação institucional diante do aprofundamento da crise econômico-social, espelhado na pobreza urbana e rural eram visíveis a todos os grupos e classes sociais. A desigualdade social e os novos padrões de mobilidade e de conflito social promoveram o confronto entre a velha forma de requisitar direitos, notadamente o sindicalismo tutelado pelo modelo getulista, o peleguismo foi superado pelo sindicalismo de combate, orientado pelas lutas com a participação das bases. Essa agitação proporcionou um redesenho institucional no marco legal-constitucional ampliado, com inegável progresso na defesa de direitos sociais.

   A vanguarda do movimento sindical, alicerçada em movimentos sociais de caráter progressista forjou o modelo de “welfare state” tupiniquim, com nuances corporativistas manifestos na Carta Constitucional de 1988. Como afirma Carvalho (2010:223): “Apesar das críticas à CLT, as centrais sindicais dividiram-se quanto ao imposto sindical e à unicidade sindical, dois esteios do sistema montado por Vargas. Tanto o imposto como unicidade foram mantidos. Os funcionários públicos conseguiram estabilidade no emprego. Os aposentados conseguiram o limite de um salário mínimo nas pensões, os professores conseguiram aposentadoria cinco anos mais cedo, e assim por diante.”

   Esse legado de mudanças e cidadania tutelada sofreu transformações a partir da década de 1990, auge da reestruturação produtiva e globalização econômica, momento de nova crise econômico-social que marcaram a implementação das reformas neoliberais propostas no “Consenso de Washington”. O movimento sindical entra em mutação, o sindicalismo de combate pela base, que promoveu “ondas grevistas” com ganhos substantivos para as categorias de trabalhadores mais organizadas sucumbe diante do “sindicalismo de resultados” pautado no conciliarismo de classe.

   A estabilização da economia brasileira iniciada em 1994 sob a batuta de FHC, com políticas de clivagem neoliberal potencializariam o enfraquecimento da representação sindical , principalmente no âmbito das organizações vinculadas as estatais e funcionalismo público federal. O auge da quebra do sindicalismo de combate foi a famosa greve dos petroleiros de 1995.


   O ano de 1995 marcou um novo turno de mudanças na legislação trabalhista brasileira. A Constituição de 1988 representou a restauração de direitos e deu uma autonomia relativa ao movimento sindical, mantendo, no entanto uma forte presença do Estado na regulação das relações entre capital e trabalho, as mudanças ocorridas entre 1995 e 1999 foram voltadas para a flexibilização dos direitos plasmados na Consolidação das Leis do Trabalho. Uma convergência de fatores possibilitou criar as condições para essas mudanças, decorrentes das mudanças no ambiente macroeconômico e suas consequências no mercado de trabalho. Desde meados de 1995 a questão do desemprego vem ganhando crescente centralidade na agenda política brasileira, ocupando grandes espaços na imprensa nacional, e configurando-se como peça chave das pautas de mobilização sindicais e como referência obrigatória na retórica governamental e empresarial. Paralelamente, deu-se o incremento do trabalho de menor qualidade, consequência direta do fechamento de postos de trabalho na indústria, setor que tradicionalmente gera empregos melhor remunerados e de maior produtividade, e que concentra os empregos registrados legalmente.

   No bojo da conjuntura de mudanças liberalizantes, a dinâmica societária cada vez mais complexa, heterogênea e diferenciada, supõe que, na democracia representativa, a construção das “regras do jogo” se ampliam para além dos combates cotidianos, sendo construídas no interior de uma racionalidade formal de ordem constitucional, mediadas nos espaços públicos onde são negociadas as questões pertinentes a esfera da lei e das instituições. Uma sociedade na qual as relações sociais são mediadas pelo reconhecimento de direitos e representação de interesses, de tal forma, que se encontre uma linha de conduta (directum), na regula (régua) ou na norma (esquadro) latina, como afirma Suppiot(2007).

  Por outro lado, a superação do período de reformas neoliberais de FHC, a ascensão de Lula como Presidente que representaria a “esperança” de mudanças em prol dos trabalhadores, a dubiedade da política econômica determinou clara limitação da política social no que denominou Oliveira (2007) com “hegemonia às avessas”, ou seja, “os dominantes aceitam ser conduzidos politicamente pelos dominados. Desde que não sejam contestados.” Assim, os dois mandatos de Lula, e, posteriormente o de sua sucessora, foram exercidos pela força do mito, com renúncia de combater as causas estruturais dessa desigualdade, incorporando plenamente suas ações em favor da adaptação à “ordem econômica mundial”, com subordinação das políticas sociais flexibilizadas e residuais, ainda que, a precarização e informalização no mundo do trabalho continuassem se elevando. Esse modelo liberal periférico e suas políticas sociais, consequentemente são observados em diferentes dimensões para os trabalhadores – desregulamentação, mudanças da legislação trabalhista, diferentes formas de contrato, jornadas móveis de trabalho, salários flexíveis, multifuncionalidade e polivalência, implicando na precarização periférica com altas taxas de desemprego e informalidade.

   O movimento sindical ficou à mercê de governos liberais e progressistas no período de transição democrática que se encontra no marco divisor na atualidade. A agenda de reformas no governo transitório de Michel Temer é entoado como “mantra” para o Brasil retomar o seu potencial de crescimento sustentável, como uma agenda regressiva que colocará em xeque a representatividade dos movimentos sociais tradicionais, nestes, os sindicatos, federações e confederações. As principais centrais sindicais CUT (33,7%), Força Sindical (12,3%), UGT (11,7%), CTB (9,13%), NCST (7,84%) e CSB (7,43%) com representatividade expressiva dos trabalhadores assalariados, distribuídos no universo de 16.429 sindicatos ativos, serão colocadas à prova nesta nova rodada de reformas estruturais. Em parte pela pulverização dos interesses políticos-ideológicos-econômicos em jogo, fruto de ausência de negociações coletivas e unificadas, e, por outro lado, na excessiva informalização do mercado de trabalho, a evidência que a representatividade é restrita. Se a queda da sindicalização é um fenômeno mundial, no caso brasileiro, é potencializado pela pulverização classista, falta de representatividade e altíssimo nível de informalidade do emprego dos brasileiros.

   As sucessivas emendas constitucionais para adequação da estrutura legal-constitucional no cenário de crise conjuntural da economia brasileira transformaram a Constituição de 1988, num trapo legal, com diversos retalhos que evidenciam o quanto o cobertor ficará curto para os trabalhadores. A destruição do Sistema de Seguridade Social amparado no regime de assalariamento está em risco para o futuro da sociedade brasileira. O descrédito de partidos, casas legislativas e processos eleitorais, o enfraquecimento dos sindicatos significam uma reviravolta nas conquistas sociais e alargamento da cidadania. Daí, o governo Temer, os agentes econômicos e grande mídia, apressaram os pacotes de reformas estruturais sem nenhum rodeio. O sistema financeiro nacional/internacional, o grande empresariado nacional associado ao capital global entoa “menos Estado, mais mercado” com urgência. Afinal, como diz aquele velho adágio popular “tempo é dinheiro”, o capital não dorme. A ofensiva do temeroso governo de transição, impondo rapidamente a reforma previdenciária e trabalhista, é o tom sintomático de tempos sombrios que políticos falam em “cortar a própria carne” e acabam mesmo é “cortando até os ossos dos trabalhadores”, tudo em prol da melhoria do ambiente de negócios.


   Durante a greve de maio de 1995, os petroleiros resistiram às manipulações e repressões do governo e à campanha escancarada da mídia para tentar jogar a população contra a categoria. Milhares de trabalhadores foram arbitrariamente demitidos, punidos e enfrentaram o Exército, que, a mando de FHC, ocupou com tanques e metralhadoras as refinarias da Petrobrás. A FUP e seus sindicatos foram submetidos a multas milionárias por terem colocado em xeque os julgamentos viciados do TST, que decretou como abusiva uma greve legítima e dentro da legalidade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

JÁ QUE...

por Emanuel Medeiros Vieira

   
   Já que não posso vê-lo mais, busco um livro que ele amava quando era pequeno,
   É aqui que envelheço, lembrando de antigos abacateiros, pitangueiras e mangueiras. 
   Escrevo para quem sabe que vai morrer.
   O que espero? Já escrevi  tudo o que precisava?
  Não, não contaria a ele sobre o câncer – a “tristeza das células”, segundo Jayme Ovalle.  
   Ele não merecia mais uma notícia ruim. Ruim? É da humana lida. Saudades? Sim. Sentia muito. Soaria pomposo, faria “filosofia” e não ficção se falasse em dessacralização do real, ou de que nada mais importa, tudo se evapora, nada fica, mesmo as palavras de um sábio caem no vazio? O pensamento profundo, como pensava George Steiner,  nasce de uma “necessidade de transcendência”. E que transcendência há nesse mundo?
   Ficção ou ensaio? Ensaio o ficção? Tudo misturado. Não são fáceis as palavras na velhice.
   “O mundo, livre de Deus, foi sendo aos poucos dominado pelo diabo, pelo espírito do mal, pela crueldade”. (...)
   Vejamos o universo à nossa volta, e aquele menino, agora adolescente que eu não poderia ver. Um menino anônimo no meio do culto pela fama, pelo prazer instantâneo, pelas “redes sociais” que demonizam quem pensa diferente.
   Pós- cultura, pós-verdade, e necessitamos de algo que já não sabemos definir.
   Seria Deus na soleira da porta?
   É a “sociedade do espetáculo”, como definiu Guy Debord.
   Mas queria falar sobre o menino – quase-adolescente.
   Que tanto amei.
   Estou sentado em cima de fragmentos, de memórias, de guerras, de torturas, de pesadelos.
   Eu sei e já disse: tudo é veloz, e é aqui que envelheço. É um mundo apenas financeirizado, da hegemonia da competição, e onde não sabemos mais distinguir o que é verdade do que é mentira. Levara o menino em parques, circos, colhemos  goiabas.
   Nesse mundo – outros já o disseram – as coisas (mercadorias) passaram a ser os verdadeiros donos da vida.
“O espetáculo, afirma Debord, “é a ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna” – lembrado por Vargas Llosa em “A Civilização do Espetáculo”.
   Onde estão aqueles velhos domingos em que eu saía com o menino? As categorias que falam em “otimismo” ou “pessimismo” não entram na mente daquele que escreve visceralmente, por funda necessidade. Os domingos? Nos porões da memória, E a memória foi ficando a alma do humano – ou de que é humano para mim.
   Eu sei, eu sei. Repito Terêncio: nada que é humano me é estranho.
   Mas deste amor, menino, eu não abdico, até chegar à Terceira Margem do Rio. Menino.
(Salvador, fevereiro de 2017)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Tribunal de contas CENSURA o CANGABLOG


   Recebi ontem a noite esta cartinha do meu colaborador de além mar (Lisboa), o jurista Leal Roubão. 

 Caro jornalista Sérgio Rubim,

   Inobstante o fuso horário, falei hoje com amigos no Brasil e em Santa Catarina.
   Alguns do STF, outros em Curitiba e também no Tribunal de Contas em Florianópolis.
   Soube que o Cangablog não mais pode ser acessado na Augusta Corte de Contas.
   Lastimável, pois o vosso blog é um excelente instrumento de comunicação e informação.
   Além de respeitar e submeter-se ao direito de liberdade de expressão, garantido na Constituição da República Federativa do Brasil.
   Bem, após esta informação fui conferir se realmente havia algum problema com relação ao Cangablog, na "Côrte de Contas" do estado de Santa Catarina.
   Mais conhecido pela ficha corrida de seus conselheiros indicados politicamente,  e como Tribunal de Faz de Contas, a instituição realmente bloqueou o acesso dos funcionários ao meio de comunicação Cangablog, o único "jornal" da capital que realmente denuncia corrupção e estampa o nome de políticos e autoridades "ilibadas" nas suas páginas. 

   Comenta-se que a censura, foi o primeiro grande ato do novo presidente da "Côrte de Contas", ex-deputado Dado Cherem, que aliás, já frequentou estas páginas em situações nada recomendáveis.

Por último, fica uma dúvida: Os computadores dos sete conselheiros também estariam censurados ?

Aguardo uma resposta do TCESC sobre o porque da censura!

Comentário de Emanuel Medeiros Vieira

Estimado amigo  Sérgio
É para não acreditar: em pleno Século XXI a censura ainda perdura. Parece-se com as fogueiras da Inquisição.
É pouco, eu sei: mas da Bahia para a Ilha, vai a minha solidariedade inteira, total, do teu amigo Emanuel Medeiros Vieira*
*Sempre na luta. Sempre na esperança. Contra os vampirizadores, contra os que têm medo da verdade. Pela liberdade. A esperança e a fé serão sempre maiores.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mulheres argentinas em luta

Do El Clarín
Las manifestantes reclamaron que sus cuerpos no sean tomados como objetos

La polémica por el topless salió de la playa y llegó al Obelisco 
 Una chica mete el dedo en un tarro de témpera roja, lo saca y escribe "LIBRES" en el pecho de una de sus compañeras de militancia, justo encima de las tetas. Hay fila para llevarse una consigna escrita en el cuerpo, desde "Censurame éstas" hasta "Mi cuerpo no es una contravención". Alrededor de las chicas, se amontonan varones que las miran, les miran las tetas, les sacan fotos, o pasan más o menos cerca para que algún amigo cómplice los retrate junto a las mujeres semidesnudas en una maniobra rápida con el celular. Así empezó el "tetazo" que tuvo lugar ayer en el Obelisco, convocado para repudiar el operativo en el que unos veinte policías les exigieron que se cubrieran a tres mujeres que hacían topless en una playa de Necochea.
Leia mais. Beba na fonte.
Do Macaco Simão:

De Michel Temer para seu filho

- Michelzinho, toma essa sopa logo antes que coagule!

Mesas Ecléticas , Legislativos Subservientes

por Eduardo Guerini
 Aquele que perdeu o crédito morreu para o mundo. (Provérbio Inglês e Alemão)

Na republiqueta brasileira, o ano legislativo começa com relativo atraso no calendário, afinal de contas, os parlamentares eleitos para representação nas Casas Legislativas necessitam sentir a pulsação de suas bases (sic).

O cenário político-institucional em 2016 foi conturbado, com elevação do grau de rejeição da sociedade diante da degeneração ética de partidos e seus representantes. A capilaridade da corrupção no aparato estatal e ramificações nas promíscuas relações entre o público-privado, ampliaram a abissal rejeição da classe política brasileira.

Na conjuntura de crise econômica, combinando recessão, desemprego, perda do poder aquisitivo, e, por assim dizer, falta de uma janela de oportunidades para o futuro, transformou os esperançosos brasileiros, em céticos e ranhetas de ocasião. O colapso fiscal de Estados e Municípios soterrou todas as esperanças no processo eleitoral, composto por um quadro partidário amplamente envolvido nos desvios de recursos e apropriação do aparato estatal para enriquecimento privado. Enquanto a classe política exige sacrifícios da população em geral, as regalias e aumentos polpudos das benesses, alavancam a remuneração dos representantes políticos.

A eleição de mesas diretoras, com presidentes e secretários nas casas legislativas do Planalto Central à Planície litorânea, segue o mesmo padrão, independente de ideologias e agremiações partidárias, garantir poder e recursos, garantindo espaço para exercício de traficâncias dos representantes parlamentares no “presidencialismo de coalizão”. O resultado que destrona qualquer esperança para os militantes e eleitores que depositaram sua confiança: ter um partido e seus representantes eleitos com altivez e autonomia diante do poder executivo. O autoengano produzido na corrompida democracia representativa brasileira foi revelado pelos sucessivos escândalos de corrupção: o eleitor é uma engrenagem funcional que legitima essa engrenagem sem lastro ideológico e base social.

Daí, a constituição de mesas ecléticas submete legislativos subservientes ao Poder Executivo, todos irmanados na defesa corporativa da coligação/partido que detém o controle do poder incumbente do momento. O que dizer da mesa eclética da Assembleia Legislativa de Santa Catarina? Que tal as Câmaras Municipais que elegem mesas diretoras com acompanhamento do poder executivo municipal? No caso do Congresso Nacional da Republiqueta, todos os partidos políticos lutam encarniçadamente por espaços na mesa diretora da Câmara de Deputados e Senado Federal. Qual o princípio ou padrão ideológico que norteou a negociação?

Neste momento, o descrédito da população em geral com os seus representantes, independentemente de partido político é apenas um gota no oceano de indignação das negociatas e cooptações que mantém os privilégios, afastando definitivamente o representando dos seus representantes.

Com trinta moedas, uma secretaria ou ministério, alguns cargos de segundo e terceiro escalão, a classe política demonstra com transparência sem precedentes que continua não valendo nada. E ainda quer impor ao cidadão pauperizado toda sorte de sacrifícios diante de uma crise econômico-social sem precedentes.

Tais mesas ecléticas, comemorada em prosa e versa por colunistas “chapa branca”, gestores autoritários e oportunistas, indica que, na falta ética e princípios, todos as ratazanas estão à mesa. Por isso, a canalha política sumiu das ruas e das praças, não por vergonha, mas por medo!!! 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Saravá, Francis


   Em sua homenagem a Paulo Francis, a Folha de S. Paulo citou a coluna sobre Lula que acabou acarretando seu afastamento do jornal.

   A coluna dizia:

  Com Lula, o medo é mesclado ao desprezo, e o medo não é de "classe", ou seja, da burguesia contra o socialismo, mas de que Lula reduza o país a uma taba, que o Brasil, como o Haiti, volte aos tempos bíblicos do boi e do arado.

   Li que Ribamar ficou impressionado com a votação alta de Lula no Nordeste e disse:

  "O povo votou com raiva".

  De quem o povo terá raiva, minha Nossa Senhora, ó xente?

   Adverti o leitor que não dissesse: pior do que Ribamar não pode haver. Há Lula. Os petelhos, Erundina, a república do paraíba, do pé rapado, e, como diz a Veja, Lula se assemelha ao eleitor médio...

  O que está aí é a escumalha, a alienação, a boçalidade no sentido físico da palavra. As elites brasileiras implodiram. E o país também vai implodir. Subvertemos a segunda lei da termodinâmica: entramos em entropia sem nos termos desenvolvido ao máximo. Saravá. (Do Antagonista)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

URGENTE: FACHIN É O RELATOR

Edson Fachin é o novo relator da Lava Jato.
Um dos inquéritos envolvendo Fernando Collor caiu para Fachin no sorteio do sistema do STF. Com isso, o ministro herdará todos os processos referentes à operação.

 
Do Antagonista

NAS MÃOS DO ALGORITMO

   Horas fundamentais para o futuro andamento da operação Lava Jato. Não que seja 8 ou 80 a escolha de um relator específico pelo misterioso sistema de algoritmos usado pelo STF para fazer a distribuição de processos entre ministros. Mas é um elemento que poderá desencadear outros passos e decisões que têm o poder minar ou impulsionar a operação no futuro próximo. Edson Fachin está confirmado dentro do sorteio a ser realizado amanhã, depois de ter dado início ao plano já combinado com Cármen Lúcia de se transferir para a Segunda Turma. Rafael Moraes Moura, no Estadão, resume bem o aleatório de tudo (como a fatalidade que tirou a vida de Teori Zavascki): “um funcionário da Secretaria Judiciária do STF […] apertará o botão “redistribuir” e será informado em tempo real sobre o novo relator”. No Globo, Carolina Brígido e Merval Pereira chamam a atenção para o fato de que um cidadão já tentou ter acesso ao código-fonte do algoritmo, por meio da Lei de Acesso à Informação, mas o pedido foi negado — embora isso não fosse um problema do ponto de vista técnico ou de segurança do sistema e, mais que isso, o regimento previsse que o acesso aos dados do sistema é público. (Do Brio)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A fuga Del Tribilin

    Tribilin é como se chama o Pateta, personagem de Walt Disney, no Uruguai. Minha filha menor tinha uma coleção de Patetas. De pano, de plástico, de borracha, pequenos, médios e grandes. Certa vez, de passeio pela fronteira, estava no free shop de Riveira, no Uruguai, e encontrei um Pateta de pano que se chamava El Tribilin.

   O presente foi um sucesso. O Tribilin foi imediatamente aceito e, daquele dia em diante, todos os outros Patetas viraram Tribilin.

   Os anos passaram, minha filha cresceu, e o personagem deixou de fazer parte da sua vida. Alguns estragaram, ficaram velhos e foram jogados fora. Outros tiveram destino mais nobre e foram doados para crianças no Natal.

   El Tribilin, no entanto, resistiu esses anos todos. O seu destino não havia sido dos melhores: foi trancado em uma caixa, com outros brinquedos, em um canto da dispensa.

   Sábado passado estava fazendo o churrasco de costume quando olho para a cerca que divide o nosso páteo do outro terreno e tive uma surpresa: El Tribilin!!!!

   O intrépido personagem, há muito desaparecido, surge na minha frente em posição de fuga. Parecia que tentava pular a cerca. Fiquei pensando nos anos em que ficou esquecido e preso dentro de uma caixa. Senti dó !

   Me aproximei. Peguei-o carinhosamente. Logo senti o perfume do amaciante. El Tribilin havia sido reabilitado. Foi lavado e estava secando na cerca.

Achei que íamos perdê-lo!

Ufa...Por pouco!