sábado, 5 de outubro de 2013

Praga, uma cidade para não esquecer

Moraria nesta cidade...
      Quando vesti a "campeira" grossa para descer e comprar yogurte no mercadinho do coreano ao lado do Ametyst Hotel Praha, já passava das 10 da noite. A temperatura tinha caído bastante, beirava os 7 graus e era potencialiazada por um leve mas terrível ventinho. Naquela noite, Praga tinha um céu azul. O dia tinha sido maravilhoso, como os dois anteriores desde a nossa chegada.
    
Sophia e  črt, amigos
    Era quarta-feira à tardinha quando chegamos na estação central de Praga provenientes de Viena. A viagem de trem foi ótima. Dividimos uma cabine de seis poltrona com um casal jovem que, após 3 horas e meia, tornou-se amigo.
Não dá prá entender...
   črt (se pronuncia chuêrt), nasceu na Eslovênia. Formado em Letras e Filosofia hoje faz curso de montagem de filmes em Praga. Sophia, é tcheca, estuda música e canto na universidade. É cantora e se apresenta com grupos folclóricos e de jazz. A aproximação foi possível porque črt falava algo de inglês e outro tanto de italiano e espanhol. A medida que conversávamos ele fazia tradução simultânea para a namorada. A conversa foi bastante surtida. Música, arte, cinema, economia, história e fatalmente política. A herança comunista no leste europeu não é nada recomendável. Os jovens não foram os primeiros a reclamar dos anos de obscurantismo do domínio soviético sobre seus países. 
O imponente Museu Nacional da República Tcheca
   Senti o vento frio cortando a pele do rosto mas não desisti de dar uma banda pelos bares das redondezas do Museu Nacional, centro da capital da República Tcheca. Comprei o yogurte, deixei na geladeira do bar do hotel e vazei na primeira esquina com a rua Bélgicka. Na  seguinte havia um pub que já estava mapeado, tinhámos passado por ali no segundo dia de Praga a caminho do Ametyst Hotel Praha. O bar estava aquecido de música, conversa, bebida, risadas e muita fumaça de cigarro. Fumei como doido...fazer o que!
   O Ametyst foi o nosso segundo hotel na cidade. O primeiro, Julis Hotel, ficava na Václavské náměstí, número 22, ou seja: na cara do gol. Por um erro de planejamento acabamos ficando lá um dia só e depois nos mudando para o excelente Ametyst.
Grafiti às margens do Vltava 
    Se em Viena tivemos dificuldades com a lingua alemã, imaginem com o idioma tcheco, língua esláva. Faltam vogais para os amigos! Pelo nome do companheiro de viagm črt, já dá para sentir o clima. Afora isso, por uma questão de orgulho nacionalista os tchecos cansados de invasões militares e culturais, hoje resistem a todas as tentações de usar qualquer outro idioma nas suas placas de indicação turística, resistem ao uso do Euro dificultando o entendimento e negociações com moeda que não seja a Coroa tcheca.

Igreja de São Nicolas na Staromestké Nám
   Sem mesmo ter pedido uma bebida o proprietário da casa, com cara de hippye que chegou a pouco de Woodstock, me serviu um "balde" da excelente cerveja tcheca. O jogo já estava 2 a zero para o Bayer de Munique em cima do Manchester City. O som do narrador da partida de futebol na tv se misturava com um tipo de rock "eslavo" que tocava alto nas quatro salas da casa transformada em bar. A balburdia da conversa em idioma ininteligível e uma bruma de fumaça fedorenta de cigarro atingia a todos na altura da cabeça, Encostado no balcão, vendo o jogo e tentando entender o que realmente era aquele ambiente fui ficando cada vez mais alegre e embriagado. Tinha esperança de, até o final da noite, entender o idioma e o comportamento tcheco...em vão.
Pedi a conta das três canecas de cerveja para voltar ao hotel e levar o yogurte para o quarto, a conta me foi apresentada em Coroas. Pedi a conversão em Euros e o amigo se negou a fazer. Fiz uma conversão na calculadora do celular a um preço bastante amigável...para o dono do bar. Ofereci o dinheiro, ele aceitou com um sorriso e uma baforada de fumaça na cara.
Del otro lado del rio...
Também sorri, vesti a campeira e me despedi dos fumantes e bebedores. Quando deixei a porta do bar 
para trás houve àquela divisão na realidade. Mesmo constatando que o frio tinha aumentado, senti um alívio ao perceber o ar frio entrando pelas narinas e gelando os meus pulmões. Respirei com vontade e profundamente, engatei uma primeira e só parei na esquina com a Bélgicka para ver uma discussão entre dois bebuns. Tentei entender porque brigavam. Desisti...aquele velho problema do idioma, sabes?   
Václavské náměstí: arrebatadora
   Não usamos metrô em Praga. A cidade é fácil de se conhecer caminhando e tudo que nos interessava ficava relativamente perto, com exceção da Catedral de São Vito, do outro lado da Karluv most. 
O local de prédios medievais reúne além da catedral, várias capelas, a Basílika Sv. Jiri e o Castelo de Praga onde os reis e imperadores da Boêmia tinham seus escritórios. Hoje é local de despacho do presidente da República Tcheca. A entrada do castelo é fechada pelo Mathias Gate, portão onde acontece a troca da guarda de hora em hora, registrada por centenas de máquinas fotográficas de turistas do mundo todo. 
Cidade velha vista da ponte Carluv
   Além disso tudo, o gigantesco complexo arquitetônico e cultural que fica no topo de uma montanha abriga museus, galerias, palácios e jardins maravilhosos por onde se chega através de uma subida íngrime ladeada por contruções típicamente medievais com restaurantes e lojas de souvenir. 
Desencontrados nas ruelas do centro de Praga
  
Cheguei no hotel abaixo de tempo ruim. Na verdade frio, com um leve ventinho o que fazia com que a coisa se complicasse um pouco. Peguei o yogurte, levei para o quarto 510 e...não resisti. Não me contentei somente com um bar, voltei para a rua. Quando dobrei a esquina da Bélgicka pela undécima vez parecia que a rua tinha se amoldado ao meu corpo. A inteligencia corporal do meu ser havia incorporado todas as informações visuais de espaço, localização, movimento das árvores e dos carros, foi como enfiar o pé em uma meia confortável...me senti em casa. Já era dali! Tudo começou a ficar mais fácil e interessante. Desci umas cinco quadras até a Václavské náměstí, calçadão do centro, e mergulhei na verdadeira noite de Praga. Alguns contatos muito diretos com uns romenos, ciganos talvez, não foram de todo satisfatórios. Mas saí precavido. Dinheiro no bolso da frente da camisa, passaporte pendurado no pescoço, sem carteira e com os olhos bem abertos, mas bem abertos mesmo. Assim se anda no bas fond de Praga.

Relógio Astronômico. A grande atração.
   O fato de não ter usado metrô acabou nos tirando a oportunidade de conhecer as estações subterrâneas de Praga tidas como as mais belas do mundo. Uma lástima. Em compensação caminhamos durante três dias de sol e céu azul por toda a região central cortada pelo rio Vltava que pode ser atravessado por diversas pontes. A Carluv most é a mais bonita e dá acesso ao bairro Hradcany onde está o Castelo de Praga.
Concentra o maior número de desenhistas, pintores e grupos musicais que tocam música medieval e jazz e tem uma vista deslumbrante da cidade. Só permitido atravesá-la à pé. Tudo isso no centro. 
   Praga foi afortunada durante a guerra. Ao contrário de outras capitais européias, severamente bombardeadas e destruídas, mantém um acervo arquitetônico invejável. Suas ruas com todos os seus prédios medievais intactos parecem saidos de antigos contos de fadas. 
   A Staromestké Nám, a mais famosa praça de Praga, é extremamente acolhedoura. Cercada de cafés e restaurantes é dominada pelas torres góticas da igreja Nossa Senhora de Týn e pela barroca
O caminho das pedras...
São Nicolas. Recheada de cantores e grupos musicais, a grande atração da praça é o Relógio Astronômico que fica o prédio da antiga prefeitura. Centenas de turistas se aglomeram ali de hora em hora para ver o desfile de bonecos que anunciam uma nova hora. Um show a parte. 
Mas o grande lance é sentar num dos cafés, pedir uma birra tcheca, todas são boas, e ver a vida passar, bem ali na frente.

    Depois do terceiro bar e muita conversa na rua resolvi voltar para o hotel pois a encrenca já estava de bom tamanho. Remanchei um pouco para sair de um labirinto de ruelas até encontrar a Staromestké Nám. Daí em diante foi mamão com leite. Precavido, havia fotografado as placas com os nomes das ruas por onde passei. Não deu outra, voltei prá casinha são e salvo e com histórias para contar.



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