sexta-feira, 23 de março de 2018

O cadafalso da elite brasileira

por Eduardo Guerini
“Uma coisa é certa: caíram as máscaras até hoje tão utilizadas para esconder as formas mais perversas de preconceito e exclusão. O que resta é a face nua do autoritarismo, escancarada por um setor da sociedade que trabalha diuturnamente para golpear a democracia, conquistada a duras penas.” (Maíra Streit, Revista Fórum, 2018)
  
 
 O Brasil vive uma tensão social sem precedentes com inegável ausência de representatividade da classe política, fruto de um abismo entre as demandas da sociedade e ações dos governos, corrompidos e insulados presidencialismo de coalizão, pautada na governabilidade circundada pelos agentes de mercado. Na fragmentada agenda dos movimentos sociais, bandeiras e lutas são rasgadas por um ativismo de lideranças políticas que emolduraram o quadro do passado histórico glorioso.

O cenário desolador coloca a sociedade brasileira em nova comoção por mortes violentas de lideranças políticas do movimento social, tal como aconteceu com a vereadora Marielle (PSOL/RJ), em luta contra a violência na periferia do Rio de Janeiro. A desastrosa intervenção, com finalidade politico-eleitoral , desmontou o palanque de Michel Temer, que visava desviar o foco na agenda da sucessão presidencial.

A segurança pública, a sensação de insegurança, a política do medo, a regressão social e econômica, são o cadafalso de uma elite que nega a realidade de exclusão, marginalização e miséria social frutos de uma matriz econômica que prioriza uma minoria em detrimento da maioria. Neste caldo cultural-estrutural, os ajustamentos dos proprietários do poder ignoram todo lastro de demandas sociais amparadas na Constituição Cidadã de 1988, estilhaçada por rajadas de tiros, onde o marco civilizatório mínimo é enterrado por inúmeros mortos nesta luta insana na construção de uma nação com mais justiça social e igualdade.

O mito da cordialidade brasileira é desmistificado em cada morte violenta, na angústia dos desempregados, nas políticas neoliberais que desmantelam a seguridade social, na ausência de um presente digno e futuro promissor. Todos os brasileiros seguem rumo ao abismo político, nas linhas traçadas por partidos encastelados nos projetos de poder, na construção de sonhos populistas à direita ou à esquerda, acreditando na salvação proposta pelo centro político. O problema central é a falta de lastro ideológico e um projeto consistente de nação. Todos seguem irmanados na velha cantilena da superioridade deste ou daquele bloco político e suas lideranças, em torno de propagandas enganosas de realismo fantástico.

Na defesa da cidadania, os movimentos reais da sociedade foram substituídos por lutas virtuais nas redes sociais, desaguadouro de todas as angústias e aleivosias de um sujeito que é esquecido imediatamente após a apuração dos resultados eleitorais, o cidadão destituído de direitos e garantias sociais minimas. Na falta de uma pacto social mínimo , continuaremos a enterrar os mortos em manifestos indignados e lamentos ensandecidos contra uma elite política que continua a mandar e desmandar sobre os destinos de uma nação fissurada.

Na ausência de um movimento de indignados, não custa recordar Augusto dos Anjos que nos disse em seus versos íntimos: “Acostuma-te à lama que te espera!/ O homem que nesta terra miserável,/ Mora, entre feras, sente inevitável,/Necessidade de também ser fera/. A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Neste cenário de incertezas políticas, mazelas econômicas e sociais, o processo eleitoral pode ser o cadafalso da elite brasileira retrógada sob o controle dos agentes de mercado, que insiste em negar nossa miserável realidade.

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