quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

COPA (E VIOLÊNCIA)

Foto: Gustavo Froner
   Por Emanuel Medeiros Vieira

“A Copa do Mundo virou a melhor expressão da irracionalidade econômica brasileira. Dinheiro gasto em vários estádios de futebol que servirão para nada, promessas de melhoria na mobilidade urbana que ninguém verá, aeroportos de lona que durarão o tempo de as comitivas passarem, índios desalojados para sair da frente dos tratores, principalmente, desconsideração sobre o que a população realmente entende como prioridades.” (Vladimir Safatle)

   E a Copa, que seria financiado com o dinheiro privado?
   Quase todas as obras estão sendo pagas pelo bom e velho BNDES, além do superfaturamento. Se não fosse o banco estatal - como lembrou alguém - não haveria Copa no Brasil.
   São Paulo ofereceu cerca de meio bilhão de reais em renúncia fiscal ao estádio do Corinthians.
   E o prefeito da maior cidade brasileira tira canetas e lápis dos alunos das escolas públicas para “economizar”.
   E o ufanismo lembra a era Médici, no mentira compulsiva dos marqueteiros: “Será a Copa das Copas”.
   Pessimismo? O Brasil já é um dos países mais violentos do mundo.
   Como mencionou um articulista, estamos fazendo a Copa do Mundo mais cara que as três últimas no Japão/Coréia do Sul, Alemanha e na África do Sul.
“Não será com propaganda ufanista que se convencerá o país das maravilhas de uma Copa certamente festiva nos estádios e problemática fora deles.”
   A ameaça real de “apagão” de energia demonstra que não poderíamos gastar tanto com um evento que durará um mês.
   O tempo dirá quem foi “pessimista”, como gosta de dizer a presidente, num discurso que beira um tipo de fascismo tupiniquim.
PS: Brasileiro cordial? As torturas foram inventadas?
   Escreveu Ruy Castro:“Nosso passado recente inclui prisioneiros metralhados às centenas numa cadeia, homens fritando seus semelhantes em ‘micro-ondas’ nas favelas ou abatendo helicópteros com fuzis. Chacinas são vistas como faxinas. Outros degolam companheiros de cela, chutam cabeças de adversários caídos nas arquibancadas, agridem moradores de ruas e gays e vão às ruas para destruir, queimar, matar.”
   Um cronista relatou que há pouco, duas deputadas que são cadeirantes, receberam uma vaia retumbante ao conseguirem, após uma hora de atraso, embarcar em um avião em Brasília. Os passageiros estavam possessos com aquela demora. Não era privilégio. As duas parlamentares tiveram enormes dificuldades para que a empresa aérea e a Infraero conseguissem o equipamento que garantisse o embarque.
   Não falo aqui do assassinato do cinegrafista Santiago Andrade.
   Pessimismo?
   O que percebo é uma tremenda falta de respeito pelo outro, pela diversidade. Um individualismo feroz e - perdoem o sentimentalismo - um imenso déficit de ternura.
   Não serão engenhocas eletrônicas que nos tornarão mais civilizados.
   Estamos perdendo a régua e o compasso.
(Brasília, fevereiro de 2014)

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