domingo, 16 de fevereiro de 2014

GOVERNADOR PROÍBE DROGA, PREFEITO FINANCIA CONSUMO


   Por Janer Cristaldo

   Decididamente, a polícia é a última a saber dos crimes. Não se espera que seja a primeira. Os primeiros são criminoso e vítima. Mas não devia ser a última. O caso do mensalão - que segundo o promotor Pedro Abi-Eçab, em entrevista para o Estadão de hoje, mostra que “deixam de existir intocáveis, o patrimônio do povo passa a ser resguardado, os mecanismos de poder se alteram” – não foi revelado pelo Ministério Público ou pela polícia, mas pela Folha de São Paulo. Não fosse uma entrevista da jornalista Renata lo Prete, no distante 2005, até hoje os mensaleiros estariam comprando leis.
   Quando se trata de drogas, polícia e governo só se mexem depois de ler os jornais. Foi preciso que o Estadão revelasse hoje uma nova cracolândia no centro da cidade, para que Geraldo Alckmin descobrisse que há uma feira de drogas mais sofisticada na capital, a quatro quadras da Avenida Paulista.
   O jornal flagrou ação de traficantes que abordam adolescentes na Rua Peixoto Gomide para vender maconha, cocaína, LSD e ecstasy, em reportagem com fotos onde os traficantes exercem – e não é de hoje – seu comércio. Vendedores circulam entre carros e dominam área durante as madrugadas. A polícia diz que já fez operações de repressão na região. Se fez, não faz mais.
   Desta vez não se trata de um pedaço degradado da cidade, como no caso da cracolândia. Mas de zona nobre, situada na rua Peixoto Gomide, adjacências da Augusta, nas proximidades do Sírio-Libanês e de um dos cartões postais de São Paulo, o MASP, cujo vão – em prosa e verso cantado – há muito é ponto de consumo da droga que você quiser.
   Segundo o jornal, os traficantes circulam entre os carros com as mãos carregadas de pinos de cocaína. Na calçada, quem passa é abordado por vendedores que oferecem maconha, comprimidos de ecstasy, cartelas coloridas de LSD e gotas de GHB - anestésico também usado como estimulante sexual. O comércio é feito em voz alta e, para atrair turistas, eles arriscam até palavras em inglês.
"Cocaína,    balinha (ecstasy), doce (LSD), lança-perfume, GHB em gotas, iPhone 5S desbloqueado", gritam vários jovens ao mesmo tempo. Os traficantes têm como clientela cativa três públicos: menores de idade que bebem nas ruas, o público GLS de boates da região e turistas estrangeiros. O pino de cocaína custa R$ 20 e a cartela com 20 ácidos (LSD), R$ 200.
   Assim como ambulantes que tentam vender seus produtos em pontos turísticos do Brasil, os traficantes param qualquer pedestre sem cerimônia, seja ele um menor de idade ou um adulto com mais de 50 anos. Não há restrições.
   "Olha o pino, três por quatro só agora hein, cheinho até a boca", grita um dos jovens que vendem droga. Ele também carrega um tubo de adoçante com GHB. "Me dá R$ 30 e eu coloco cinco gotonas ‘servidas’ na sua boca já", oferece um traficante à reportagem do Estadão.
   E ainda há quem pretenda que o consumo de drogas é ilegal no Brasil. Pior ainda, há quem pretenda descriminá-lo. Como se descriminado não estivesse. Geraldo Alckmin reagiu ainda hoje pela manhã à reportagem, afirmando que vai reforçar o combate ao tráfico de drogas na região.
   Mês passado, quando a Polícia Civil e o Denarc intervieram na região, Haddad criticou o governo do Estado, afirmando que manteria o programa de reabilitação de dependentes químicos na região. Chama-se “Operação Braços Abertos”, e consiste em dar hotel, cama, comida e roupa lavada, emprego de quatro horas, e salário de R$ 15 por dia aos dependentes. Mais ainda: para entrar no programa, não precisa largar o crack.
   - Pode espernear – disse então Haddad -. Nós vamos fazer o programa acontecer. O programa vai funcionar.
   Alckmin retirou os cavalinhos da chuva. Agora os dependentes recebem salário para comprar mais drogas. E a polícia municipal garante o tráfico e consumo do crack. Dia seguinte à declaração de Haddad, aconteceu o que era previsível: a droga subiu de preço. A diferença foi financiada pela prefeitura.
   Alckmin vai reforçar o combate ao tráfico na Peixoto Gomide? Vai ser muito engraçado. A quatro ou cinco quilômetros dali, a prefeitura zela pela tranquilidade dos cracômanos.

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