terça-feira, 19 de agosto de 2014

A morte do monstro Bicho da Fome

   Por Marcio Silva

   A ampulheta viu um tempo em que fazia tanto frio que os pastos da terra de sol e lama ficavam branquinhos no extremo da madrugada. Aquecimento global era tamanha figura de linguagem quanto pão e leite, vendidos em carroças chamadas galeotas. Estrada asfaltada, um luxo .

   Peixe se comprava de pescadores que traziam o produto em carrinhos de mão. Quem queria carne dirigia-se ao abatedouro sem preocupar-se com a vaca louca. Caldo de cana saía fresquinho nas garapeiras sem chance para Mal de Chagas e outros palavrões, leptospirose, hantavirose.

   Não está assim tão velho mas se não lhe falha a memória é desta época de frio e comida de qualidade que criou o hábito de beber sucos. Desde logo, apaixonou-se pelo de graviola.

   Agora soube que a fruta tem propriedades medicinais no combate a 12 tipos de câncer, entre os quais os de próstata e pulmão. Até raízes e folhas da graviola são usadas para curar doenças como diabetes. Há inclusive cápsulas com o princípio ativo à venda no mercado norte-americano.

   Quando está ansioso e insone, apela ao suco de maracujá. Assim que acorda, embriaga-se com néctar de goiaba. Sempre que o dinheiro deixa, compra nêsperas e as traça uma a uma, em intervalos regulares.

   Carambolas, butiás , abacaxis , melões e mamões fazem parte do cotidiano e não há vivente que condene o consumo regular de frutas, embora algumas, se consumidas em profusão, como a jabuticaba, causem dissabores intestinais.

   Pois naquela manhã de segunda com cara de domingo o suco de laranja deu-lhe uma porrada no estômago, bateu um suador de arregalar a ponto de levá-lo de volta ao leito.

   Fazia a própria comida, lavava roupa e louça, pouquíssimo dinheiro, não podia permanecer ali. De um pulo, espantou o mal-estar. Da janela dos fundos, divisou a plantação de aipim e milho, as barbas ruivas das espigas, brilhando sob o sol.

- Será que o dinheiro sai até sexta? – Ele pergunta a Olavo enquanto retira mais algumas ramas do tubérculo. Alguém falou numa promoção de vinhos no único armazém. Além do preço irrisório, aceitavam troca: cinco garrafas vazias por uma cheia.

- Se não sair a gente dá jeito. – Retrucou Olavo com a simplicidade de sua primeira série não concluída.

   Eles não tinham ideia de que o motor da Revolução Industrial foi a transformação das energias química em mecânica através da máquina a vapor. Havia luz mas dormia-se cedo para um despertar antes de amanhecer.

   Tudo vinha da terra. O que sobrava era trocado no armazém por querosene, sal, café, necessidades básicas do lar que a roça não supria.

   Quando os braços da noite afagavam a frondosa mata ciliar que emoldurava o arterial rio da propriedade, o patriarca descia uma colina e colocava em operação uma rudimentar usina d`água, que garantia fiapos de luz em lâmpadas de 20 velas.

   Os patrões ficavam no varandão, conversando e ouvindo o cântico do rio e os animais lamentos da mata.

   Olavo, Genilson e Gonçalo dividiam o galpão de chão batido, dormindo nas redes. A sexta chegou, o dinheiro não apareceu. Juntaram os trocados e não houve garrafa desgarrada que resistisse a mãos leves.

   O final da tarde foi consumido com a reunião de 12 cascos e dinheiro para uma garrafa de vinho. Depois de meia hora de caminhada ao armazém e minutos de pechincha saem com um garrafão. Genilson comentava no caminho sua plenitude gástrica.

- Parece que engoli um boi.....
   Anoiteceu e apareceu visita inesperada. Mais um violeiro para a roda, conhecido de todos por carregar consigo garrafa de pepsi. O pessoal da coca que nos perdoe mas pepsi com vinho sempre é mais gostoso, costuma dizer.

   O circo estava armado: luzes a meio pano, janelas escancaradas, violeiros e cantores revezando-se no massacre a MPB, copos de cristal cica repletos de portas abertas para o devaneio.

   Logo alguém começa a ouvir vozes do além –estômagos gritando por socorro. Olavo sugere emprestar ramas de aipim e socas de milho do patrão. Prepara-se vestindo pijama cinza, arma-se com enxada , uma velha faca de cozinha e num instantâneo , pula a janela.

   Olavo lembra da verdadeira obsessão que nutria pelo forro da casa paterna, que quando criança galgava atravessando minúsculo alçapão. Era ali que o severo Hélio guardava preciosos cachos de banana, mamões, cajus e jabuticabas com os quais pretendia fazer mais algum dinheiro para auxiliar nas despesas do mês.

   Em sua ingenuidade infantil, o menino queria era matar o monstruoso bicho da fome. Escalava a parede de madeira feito macaco e, uma vez lá , deliciava-se com as frutas mais maduras.

   Vence com tranquilidade o arame farpado e desaparece na escuridão. Aflição misturou-se aos versos de Zé Ramalho, a noite como um oceano de sombras num mundo de sol. Repetem o refrão à exaustão enquanto à adrenalina misturavam-se mais e mais moléculas de álcool.

   Olavo recorda que o pai sabia fazer sonhos como ninguém. Embora trabalhasse bastante em uma padaria , sempre encontrava tempo para produzir sonhos, que recheava com creme e doce.

   Se na segunda fritava 50 sonhos, saía logo para vendê-los e não deixava que tocassem no quitute. Sempre sobravam alguns, que levava para vender no dia seguinte.

   Comê-los só conseguiam quando tinham passado do ponto e virado borracha o que, aliás , era algo difícil e improvável. Se não os vendia , trocava na venda pela indispensável querosene, sal ou caninha.

- Detesto a escuridão! – Não se cansa de dizer. Luzes de pomboca , improvisadas lamparinas feitas com lata de azeite, estendem suas mãos acinzentadas pelo galpão. Sujeito acorda com o nariz repleto de fuligem de uma noite inteira respirando o ar poluído pela queima de querosene.

   Panelas de água borbulham. Quando o Arnesto começa a convidar para o samba um enorme saco equilibra-se no beiral da janela e Olavo pede ajuda, reclamando do peso , dor no pescoço.

- Acho que desloquei o ombro.

   A galera grita como se presenciasse um gol. Genilson toma a enxada e cava um buraco nos fundos.

   As socas de milho são aliviadas de sua cobertura de palha com uma fulminante rapidez. As cascas do aipim são excluídas com precisão cirúrgica. O buraco some . O fogão reaviva a fervura da água. Os violeiros tocam em conjunto que alguém segura o leme desta nave incandescente, de uma vida viajante e lenta.

   Em dez minutos, a algazarra é substituída pelo morder lambuzado das espigas amarelinhas de milho novo, das quais sugam até o sabugo. O aipim está abafado dentro da panela e a tampa rebola feito rainha do carnaval.

   O alimento deu novo ânimo à casa , os copos foram abastecidos e as cordas do violão voltaram a apanhar de rés , si bemóis e fás sustenidos. Olavo canta tamanha alegria que está com falta de ar.

- Comi demais, gente!

   O galo dá seu primeiro sinal de vida tão logo é servida a primeira porção de aipim. Ali pela sexta porção – ninguém se lembra muito bem – o violeiro convidado levanta-se de onde ficou a noite inteira.

   Grunhe incompreensível adeus , agarra-se a seu casco de pepsi e parte chutando vassoura , balde e tudo o que encontra pela frente, imitando o degenerado que atropelou a cerca de bambus da casa de seu Quirino.

   Os beliches enviam ondas hipnóticas a um por um dos participantes, até que o violeiro se descobre só, tentando tocar músicas que desconhece para um raio de sol que brota ressabiado entre o amarelo-ouro do milharal.

   Olavo dorme o hiato da vida, fechado por um coração partido.

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