quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Um livro contra as fake news

por Carlos Nina*

   Em 2020, pela Editora JusPodium (Salvador,BA), o juiz estadual do Maranhão, Paulo Roberto Brasil Teles de Menezes, publicou um livro que, como informa no Prefácio Francisco Balaguer Callejón (Catedrádico de Direito Constitucional da Universidade de Granada), “é uma versão desenvolvida e ampliada da dissertação de mestrado” apresentada por Menezes perante a banca presidida por Callejón e que “obteve o conceito máximo por decisão unânime da comissão examinadora”, no Curso de Mestrado Oficial em Direitos Fundamentais em Perspectiva Nacional, Supranacional e Global, da Universidade de Granada

    O título do livro manteve o da dissertação: Fake News: modernidade, metodologia e regulação.

    A abordagem do Autor tem um referencial eminentemente constitucional. Sua preocupação: a democracia. Nem por isso deixa de analisar o fenômeno em si, fazendo-o notadamente no segundo capítulo de seu livro, quando responde às questões sobre o que são, como são, modalidades, formas e finalidades.

    No capítulo seguinte sua análise volta-se para o conflito fake news e liberdade de expressão. Entra, então, na polêmica que o mundo vivencia, desdobrando esse embate abordando a liberdade de informar e ser informado, a liberdade e a vigilância da internet, censura pública, estatal e privada, regulação e intervenção do Estado no espaço cibernético, a importância das instituições e da sociedade civil.

    Paulo Brasil Menezes enfrentou com inequívoca segurança um tema difícil, infinito (teórica e matematicamente mesmo), apresentando um resultado relevante não só para quem quer estudar ou conhecer o que são e avaliar as consequências das fake news, mas para quem quer conhecer a realidade em que vivemos hoje, ao que estão sujeitas as pessoas de bem, que passam pela vida sem saber que estão sendo manipuladas, usadas, vigiadas.

    É inevitável ler esse livro de PBM (ele lançou outro, Diálogos Judiciais entre Cortes Constitucionais, pela Lumen Juris, Rio, 2020), sem trazer à mente, ao longo de toda a leitura, as câmeras do Grande Irmão com as quais George Orwell prenunciaria, com um livro escrito antes de 1949, ano de sua publicação, o célebre Nineteen Eighty-Four, publicado no Brasil sob o título 1984.

    Nesse livro, Goerge Orvell (fake news de seu nome verdadeiro, Eric Arthur Blair) trata também sobre a liberdade e a vigilância estatal, que acabou se consolidando, tanto que já não se discute se estamos ou não sendo espionados, mas quem está fazendo isso e quanto invasiva tem sido essa vigilância, pois é ampla, total e descontrolada.

    Apesar do alerta de Orwell, há 70 anos, e até de Bill Gattes, Nathan Myhrvold e Peter Rinearson, em The Road Ahead, publicado nos Estados Unidos em 1995 (traduzido no Brasil para A Estrada do Futuro), só em 23 de abril de 2014 o Brasil teve sua lei (12.965) tratando de um marco civil da internet. Norma essa alterada pela Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, que dispunha sobre a proteção de dados pessoais e foi alterada pela Lei 13.853, de 8 de julho de 2019, tratando sobre a proteção de dados pessoais e a criação de uma Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Há pendente, no Congresso Nacional, o Projeto de Lei 2630/2020, de autoria do Senador Alessandro Vieira, que institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Antes de encerrar seu livro, Paulo Menezes analisa esse PL, que é um dentre dezenas de outros que tratam das notícias fraudulentas. E o faz com a inteligência, o bom senso e o equilíbrio com que desenvolveu sua dissertação.

    As fake news, porém, como as entendo, ganharam apenas um novo nome, sofisticado como gostam os intelectuais, contra os quais Orwell se insurge no seu terceiro romance (1984 foi o sexto e último), publicado no Brasil sob o título Mantenha o sistema (São Paulo, Hemus), conclamando para um lugar “lá embaixo”, onde “você não tinha contato nem com o dinheiro, nem com a cultura. Nenhum cliente, do tipo intelectual, para quem você tivesse de bancar o intelectual.”

    Paulo Menezes sabe disso: “A disseminação de fake news, por certo, não é uma atividade exclusiva dos tempos modernos, tampouco é privilégio da sociedade contemporânea. (…) As fake news já despontam de ‘outros carnavais’”, (…) já vem ocorrendo desde os tempos das civilizações antigas …”, afirma (p.49). O privilégio do ineditismo pertence à serpente, que enganou Eva, no Paraíso.

   A própria Constituição tem suas fake news. Tanto que o presidente José Sarney sentenciou que aquela Carta tornaria o Brasil ingovernável.

    As FN, portanto, não foram criadas pela web. Nela apenas ganharam mais velocidade e puderam ser utilizadas de forma mais eficaz, para a desinformação.

    É contra isso a bela dissertação de Paulo Brasil Menezes. É contra a propaganda do Big Brother que a mídia poderosa propaga, para desinformar a população, instigar o ódio, deteriorar os valores da decência e da moralidade, da honestidade e da responsabilidade, proclamando como o Grande Irmão: Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.

    Sua esperança, com certeza, está nos versos de Mary Ann Pietzker publicados em 1872 e com os quais o Autor abre seu livro, citando-a na sua Introdução (p. 39) e nas Considerações Finais (p. 287), acreditando que as pessoas, antes de falar, devem fazer-se as seguintes perguntas: É verdadeiro? É necessário? É gentil?

    Mas o ser humano (para evitar o patrulhamento de gênero) é bom e a sociedade é que o corrompe, como disse Rousseau, ou é o lobo de seu semelhante, como preferiu Hobbes?

*Advogado e jornalista. Ex-Promotor de Justiça. Juiz de Direito aposentado.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Bloco do Siri Gay

        por Fátima Forthuna
 
   Saiu, finalmente saiu!
 
   Depois de muita negociação entre o governo estadual, a prefeitura, a Igreja, a ALESC e a comunidade alegre, decidiram pelo sim.
   Sim, irão para fora!
   Ninguém aguenta mais o calor, a Pandemia e o armário fechado.
   E como não tem vacina, o negócio é usar a seringa com lança perfume para picar.
   O Bloco do Siri Gay, saiu em Jurerê Internacional, para arregimentar os turistas ricos e do jet set. Os de jet sky também.
   O governador foi vestido de bombeiro para prestigiar a comunidade. Ele está vivendo uma fase de lua de mel com a sociedade e com os políticos.
   Vários membros do governo e políticos participaram da festa.
   Todos de máscaras, estilos variados, como o Fantasma da Ópera até o lenço de John Wayne, um ícone da facção YMCA.
   O governador foi muito aplaudido pela comunidade e mais ainda pela confraria.
   De tanga e camiseta regata, o governador gritava: - He Man! He Man!
   E a galera delirava.
   Perguntado sobre a atitude imprevista e improvável, ele disse: - Rasga coração!
   E cantarolava EU TÔ QUE TÔ da Simone.
   A galera urrava. Bandeiras do Arco Íris, potes de ouro, batom e serpentina.
   Perguntado sobre os gastos com o bloco, ele disse: 
- Sei lá. O publicitário disse que garante a despesa. E o Tribunal de Contas fica de fora.
   Como Jurerê Internacional é ponto de encontro de gente fina, subitamente aparecem o Raimundo, o Gelson, o Paulo e o Júlio.
   Aí foi aqueeela confraternização! Abraços e sorrisos e gritos de vitória: 
   Hurra, hurra, hurra!
   Nós somos a rádio patrulha
 
   Ao cair da tarde, exaustos, bandeiras tremulando, muita folia, foram todos para a Boite Milk Shake.
   Lá dentro, acomodados no Camarote VIP Banana Split, beberam e comemoravam. 
   O bombeiro gritava:
 - Que coisa linda. Que experiência maravilhosa!
Entregamos ao povo um pouco de alegria!



sábado, 6 de fevereiro de 2021

 Urgente: Cangablog obtém informações confidenciais.

 

por Fátima Forthuna*

   Recebi o diálogo criptografado da reunião do alto comando do governo estadual.
   Leiam as opiniões:
Secretário da Administração
- Governador vamos ter Carnaval? Preciso de orientação para o funcionalismo.

Mosche: - Sim, teremos apenas dois eventos com força total.

Secretário do Desenvolvimento Economico:
- O senhor pode dar detalhes para nossa preparação?

Mosche: - Sim. Mas, apenas os tópicos.

- E quais são?  perguntou o Chefe de Detran

- Teremos um Baile a Fantasias na capital com transmissão via TV para todo o Brasil pelas emissoras abertas.

- E o outro evento? perguntou o Tenente Lasca.

Mosche: - Será o Carnaval de Rua, numa cidade do sul catarinense, com os blocos de sujo.

- E o senhor participará? perguntou o secretário da saúde preocupado com o Corona vírus.
 
Mosche: - Sim. Decididamente sim. Tanto do Baile de Fantasias, como do bloco de rua.

- E já mandei fazer meus trajes de folia

*Repórter especial da Rede Global por 15 anos em Moscow.

domingo, 31 de janeiro de 2021

A Ilha da Fantasia no Sul Maravilha

 “A Laguna, de tanto de ser esquecida, aprendeu a não esquecer”.

  por Marcos Bayer

Frase de Armando Calil Bulos, pensador e político catarinense.
Homem de visão, disse nos anos setenta do século XX, que Florianópolis ainda sofreria um "merdamoto". Sua premonição decorria da ausência de um sistema de tratamento de esgoto adequado na Ilha. O sistema existente era projetado para uma cidade de 50 mil habitantes. E Floripa já abrigava muito mais gente.
    O que ele não previu foi que o "merdamoto" seria na Lagoa da Conceição.
   A CASAN presidida por ilustres excelências já viu de tudo. Inclusive fraudes de múltiplas formas.
    Dito isto, vamos ao verão sem sol.
    Começa com a festa recreativa na Costa da Lagoa. Um festival de ministros de tribunais superiores, empresários estatais, radialistas contratados, o bombeiro e seu algoz e muito mais. Tudo pago com o seu dinheirinho, caro leitor.
    O impeachment entra em férias escolares, a juíza de primeiro grau manda prender o presidente da ALESC e esta revoga o ato. Uma segunda ordem é decretada, e a AUGUSTA reclama ao STF.
    Rosa Weber garante a decisão da Juíza Janaína Cassol. Alcatraz não é mais só o filme do Clint Eastwood.
    Surge a primeira grande contradição: veículos de comunicação e alguns jornalistas denunciam os gastos excessivos dos parlamentos e tribunais. No entanto, recebem ávidos os dinheiros das propagandas da ALESC, a Assembleia que faz de tudo, inclusive leis.
    No meio do turbilhão, chuvas e Pandemia, mortes e lixo no chão.
    O prefeito da Ilha da Fantasia não leu Napoleão. Começa uma guerra em pleno verão com a população dobrada.
    Põe em votação a Câmara Municipal o tema da COMCAP.
Não tomam medidas preventivas, não preparam a coleta de lixo com força alternativa e não abrem os números para a população.
    Apenas o custo da tonelada recolhida.
    Assim como o médico cuida do corpo humano, o lixeiro cuida da saúde da cidade. Deve ganhar salário digno.
   Mas, sem saber das contas, difícil julgar.
   O chefe da Casa Civil do bombeiro é o mesmo chefe de gabinete do presidente preso da ALESC. O mesmo, compreenderam? Nem Tomasi di Lampedusa seria capaz de imaginar tamanha reengenharia.
    Apesar desta loucura toda, Santa Catarina arrecada R$ 3 bilhões de reais em tributos no mês de janeiro de 2021.
    Mais aqueles R$ 33 milhões que sumiram com a compra dos respiradores chineses e o recorde seria R$ 3.033.000.000,00.
    A grande vantagem de morar aqui na Ilha, é não precisar de roteiro. Todos os dias há algo de novo no ar!

sábado, 23 de janeiro de 2021

Diálogo

   Barrabás estava na cruz, com as mãos pregadas. Chegou,
então, Jesus. Nas mesmas e até piores condições.

- O que fizeste?, perguntou Barrabás.

Jesus disse:

 - Sou um revolucionário. E tu Barrabás?

  - Sou ladrão. Apenas ladrão. 

 Então, Jesus em sua sabedoria disse: 

- Irei primeiro. Tu serás poupado.

- Por que? Perguntou Barrabás.

Jesus completou: 

- Eles sempre aceitam os ladrões. Não punem seus irmãos. Se punissem ficariam constrangidos! 

 por Marcos Bayer.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

PF prende Julio Garcia por suspeita de corrupção que envolve mais de R$ 500 milhões


Série de denúncias - exclusivas do Cangablog - culmina com prisões de políticos, empresários e funcionários públicos e com o desmantelamento de quadrilha que dilapidava os cofres do Estado.

Durante 11 anos as denúncias do Cangablog nunca tiveram repercussão na imprensa local. Calaram vergonhosamente por envolvimento com "autoridades" que operavam o assalto ao Estado.

Deputado Julio Garcia, presidente da Alesc, é preso pela Polícia Federal na 2ª fase da Operação Alcatraz  

A casa (legislativa?) caiu
A Informação foi confirmada pelo advogado dele nesta manhã de terça-feira. Deputado foi até a sede da Polícia Federal prestar esclarecimentos e o mandado prevê prisão domiciliar.

por Anderson Silva, Caroline Borges, Guilherme Simon e Juliana Gomes, G1 SC e NSC TV

    O presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), Júlio Garcia (PSD), foi preso na manhã desta terça-feira (19) em Florianópolis, na segunda fase da Operação Alcatraz. A informação foi confirmada pelo advogado do deputado, Cesar Abreu, que afirmou que o mandado que prevê a prisão domiciliar do político foi cumprido.

No total, a segunda fase da Alcatraz cumpre 34 mandados de busca e apreensão, 11 mandados de prisão preventiva e nove de prisão temporária. As ações acontecem em Florianópolis, Joinville e Xanxerê.

Até as 11h, 10 mandados de prisão preventiva e oito de prisão temporária haviam sido cumpridos. A Polícia Federal, em coletiva nesta manhã, não informou o nome dos detidos ou investigados. O caso está em sigilo, disse o órgão.

Garcia prestou esclarecimentos na sede da Polícia Federal e voltou para casa. Além do deputado, Jefferson Colombo, dono da empresa Apporti Soluções, foi preso preventivamente. A defesa do empresário confirmou a informação.

A investigação apura a suspeita de fraudes que ultrapassam R$ 500 milhões. A segunda fase da operação, chamada de "Hemorragia", tem como alvo uma suposta organização criminosa suspeita de corrupção, fraude em procedimentos licitatórios e lavagem de dinheiro em Santa Catarina. 

Eduardo Pinho Moreira também é alvo da Operação Alcatraz

     Polícia Federal interrogou o líder político durante operação Hemorragia, segunda fase da Alcatraz

   O ex-governador Eduardo Pinho Moreira, do MDB, também foi alvo da operação Hemorragia, segunda fase da Operação Alcatraz, deflagrada nesta terça-feira (19) pela Polícia Federal.

   O envolvimento do ex-governador foi informado por delegado federal que conduz a operação, na entrevista coletiva desta manhã.

MPF, Polícia Federal, Receita Federal e MP de Contas/SC deflagram 2ª fase da Operação Alcatraz   

 Medidas de busca e apreensão, prisão e sequestro de bens estão sendo cumpridas em investigação que apura crimes de fraude em licitação, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa

   Desde o começo da manhã desta terça-feira (19) equipes da Polícia Federal, com apoio de auditores da Receita Federal e de servidores do Ministério Público de Contas (MPC) de Santa Catarina, estão cumprindo 11 mandados de prisão preventiva, nove de prisão temporária e 34 mandados de busca e apreensão em Florianópolis, Joinville, Biguaçu e Xanxerê, expedidos pela Justiça Federal de Florianópolis, em investigação conduzida na denominada Operação Hemorragia, que investiga crimes conexos àqueles apurados no âmbito da Operação Alcatraz.

   Ainda para assegurar a reparação do dano ao erário e a perda dos vultosos valores auferidos ilicitamente pelos investigados, decisão do juízo substituto da 1ª Vara Federal de Florianópolis também determinou o bloqueio de valores via sistema Sisbajud e a indisponibilidade de bens imóveis via sistema CNIB de 17 pessoas investigadas e 14 empresas supostamente envolvidas nas fraudes e desvios; além do sequestro de 7 imóveis (apartamentos, terrenos, casa e vagas de garagem) em nome de familiares ou empresas relacionadas a um dos investigados e de dois veículos por ele utilizados. Também foi determinado o sequestro, apreensão e restrição de circulação de 14 veículos de investigados e empresas envolvidas, entre esses, vários que podem ser considerados como "veículos de luxo".

   A investigação teve início em julho de 2018, a partir de representação da Receita Federal, que noticiava, além da sonegação de tributos federais, indícios de elevado desvio de recursos públicos em contratos do governo estadual, envolvendo a empresa responsável pela gestão do plano de saúde dos servidores estaduais (SC Saúde) e empresas da área de tecnologia da informação (TI).

   A partir da análise de diversas licitações e contratos realizada por técnicos do MPC de Santa Catarina, dados bancários e fiscais das pessoas e empresas envolvidas e de elementos obtidos na Operação Alcatraz, a investigação revelou inúmeras irregularidades em diversas dessas contratações, ocorridas nas gestões anteriores do governo estadual (entre 2006 e 2018), firmadas por várias secretarias estaduais - em especial pela Secretaria de Estado da Saúde, com fortes indícios de vultosos prejuízos ao SUS - por empresas estatais (Casan, Celesc e Epagri) e até mesmo pela Assembleia Legislativa do Estado.

   Conforme o apurado, os procedimentos licitatórios eram reiteradamente fraudados e direcionados para as empresas envolvidas no esquema criminoso, sendo as contratações com essas empresas prorrogadas indevidamente, também para beneficiar os integrantes da organização criminosa.

   Os contratos envolvendo a empresa responsável pela gestão do SC Saúde resultaram em pagamentos, entre julho de 2011 e junho 2019, de mais de R$ 400 milhões, com possível desvio e pagamento de propina a agentes públicos de ao menos R$ 66,5 milhões. Com relação às empresas de TI, somente uma delas manteve contratações com a Secretaria de Estado da Saúde que importaram em pagamentos de mais de R$ 76,4 milhões, entre 2009 e 2019. Os possíveis desvios e pagamentos de propina nessas contratações de empresas de TI perfazem o montante de pelo menos R$ 26 milhões.

   De acordo com as investigações, os procedimentos licitatórios e contratações eram fraudados mediante a ação direta dos agentes políticos que lideravam o esquema criminoso e/ou por meio da atuação de servidores públicos envolvidos ou de apadrinhados, que ocupavam cargos na administração pública, a partir da indicação dos agentes políticos que comandavam a organização criminosa. Empresas de fachada, contratações fictícias e volumosos saques em espécie eram empregados para o desvio dos recursos públicos.

   Os membros do Ministério Público Federal que integram a força tarefa da Operação Alcatraz destacam que os resultados obtidos até o momento nas investigações e ações penais em curso, que sem dúvida alguma representam o maior esforço de combate à corrupção já ocorrido no âmbito de Santa Catarina, somente estão sendo possíveis a partir de uma atuação estritamente técnica e impessoal, conduzida de forma coordenada e articulada entre todas as instituições públicas envolvidas.


Assessoria de Comunicação Social
Ministério Público Federal em SC

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Esse ano será de ataques ao jornalismo

     As palavras proferidas por Donald Trump no seu infame discurso na semana passada – “a imprensa é inimiga do povo” – são talvez a principal senha para aqueles que veem o bom jornalismo como um empecilho para seus desígnios: ajam agora.  Palavras, como sabemos, têm consequências no mundo real. Assim como as tem o jornalismo investigativo, que expõe ilegalidade e crimes cometidos por pessoas que antes se achavam invencíveis.  

   Se lá nos EUA os seguidores de Trump pintaram em uma porta do Capitólio “assassinem a imprensa”, por aqui os agressores dos jornalistas têm se valido de estratagemas cada vez mais extravagantes para tentar nos calar. Ainda estamos na segunda semana do ano e notícias recentes já mostram que esse será um ano de muitas agressões aos jornalistas. 

   Esta semana a Repórter Brasil, nossa grande parceira em investigações sobre os malefícios dos agrotóxicos, sofreu uma série de ataques on-line que levaram o site a ficar fora do ar diversas vezes. Os atacantes enviaram uma chantagem anonimamente: ou a equipe apagava todos os arquivos dos anos de 2003 a 2005, ou o site permaneceria sob ataque. 

   A Repórter Brasil não cedeu, e em seguida os bandidos tentaram arrombar a sede da entidade. Organizações de defesa do jornalismo, como a Abraji, emitiram comunicados veementes exigindo uma investigação

   Aqui na Pública, temos recebido um tipo diferente de achaque de criminosos digitais. Desde o ano passado, e-mails falsos pedem que retiremos do ar a reportagem “O império de Isabel”, que detalha como a filha do antigo ditador de Angola, José Eduardo dos Santos, aproveitou o poder político do pai para, com empresas de fachada e informações privilegiadas, se tornar a mulher mais rica da África. A obsessão com essa reportagem demonstra a preocupação dos autores dos ataques com o fato de que a Pública é bastante lida pelos angolanos desde que investigamos a presença da Odebrecht naquele país.  

   O primeiro email vinha assinado como um editor do Le Monde, nosso parceiro na investigação transnacional sobre o vazamento dos e-mails de Isabel dos Santos coordenada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ). Dizia que estávamos violando o copyright sobre fotos deles e deveríamos tirar a matéria do ar. 

   O email era falso, segundo os próprios editores do Le Monde comunicaram ao ICIJ. A pessoa em questão jamais havia trabalhado no jornal francês. 

   Há algumas semanas, a turma voltou à carga, e dessa vez foi além: forjaram um email em nome de Tiago Mali, chefe de redação do site Poder 360, pedindo que a mesma reportagem fosse retirada do ar também por quebra de copyright. Comunicamos a equipe do Poder 360 e soubemos que também era falso. Trata-se de falsidade ideológica e fraude para silenciar a imprensa por uma coação. 

   As comunicações tentaram assustar nosso provedor de serviços digitais, uma empresa brasileira que se orgulha de seguir a lei, tentando afirmar que eles seriam responsabilizados pela pretensa ilegalidade. Queriam boicotar nossa infraestrutura. 

   Ainda bem, todos os parceiros da Pública entendem a importância do nosso trabalho e não vão ser intimidados. E nada disso vai nos calar.

   Em frente.

 

Natalia Viana, cofundadora da Agência Pública

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

DATA VENIA

por Marcos Bayer
  
O Professor Hélio Barreto era um homem de estatura baixa, mas um grande sujeito. Lecionava Direito Romano e nele vinham as expressões em latim.
   Foi assim que conheci a DATA VENIA.

   Era uma expressão elástica. Servia em várias situações. Se o latim fosse um baralho, DATA VENIA seria o coringa.
   Oliver Cromwell, figura de proa na História britânica, político, pensador e revolucionário jamais imaginaria que um mecanismo político, o impeachment, criação inglesa, pudesse ser tão elástico quanto a DATA VENIA dos romanos.
   Mr. Pear Tree, jornalista contemporâneo de Cromwell, era assim também: elástico.
   Vejo a imprensa mundial, nacional e local, condenarem com veemência o ataque de Trump contra a democracia norte americana.
   Muito justo. A democracia requer proteção, cuidado, vigília. É um bem fundamental aos homens. Mas, ela não é apenas universal. Ela também é local.
   A democracia catarinense vive situação de risco.
   Há um processo de impeachment em curso. Se ele existe é porque os deputados representantes dos catarinenses assim deliberaram. Se ele existe, há suspeição. E por isto mesmo ele precisa ser concluído. Mas, em Santa Catarina o impeachment is on vacation. Está de férias.
   Não se sabe em que praia ou até mesmo se na serra.
   Nosso impeachment está de férias, sem prazo para voltar.
   Imaginem o Tribunal do Júri instalado em qualquer comarca nacional e no curso dele, seu presidente o suspende sem data para reiniciar.
   E ninguém diz nada.
   Nem os políticos. Nem a imprensa, nem o MPSC.
   O interesse público está suspenso. Vamos todos para a praia.
   O mesmo risco que corre a democracia de George Washington, corre a de Hercílio Luz. É a primeira vez na história jurídica que um impeachment sofre efeito suspensivo.
É caso para registro no Guiness Book. Somente o senador Alcides Ferreira poderia explicar tal situação.
   E os senhores juízes?
   Os 10 membros do Tribunal Especial. O que pensam deste lapso tempore?
   Santa Catarina sempre vanguarda diante da Federação, como fica na questão?
   Afinal estamos falando de 5 deputados eleitos pelo voto direto e 5 juízes concursados e aprovados com rigor. Além de um chefe de poder, neste caso o Judiciário.
   Quando explodirem as contaminações do vírus em razão do verão, a pressão pelos respiradores chineses será imensa.E aí os 200 equipamentos pagos e não recebidos serão o estopim do que ainda não podemos imaginar. Especialmente, se o impeachment estiver ainda em férias indeterminadas.
 
 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Parabéns a todos !

  por Marcos Bayer

     Primeiro à Câmara de Vereadores da Capital pela sábia decisão de negar ao brasileiro Gilberto Gil o título de cidadão honorário. Depois do Pelé, Gil é o negro mais importante da História do Brasil.

   Cantor, compositor, poeta, vereador, ministro de Estado, criador da Tropicália junto com Caetano Veloso e outros baianos de primeira linha.
   Quantos florianopolitanos foram embalados pelo discurso poético político musical deste negro, digno representante de uma das raças formadoras da etnia nacional.
   Gilberto Gil é um Orixá vivo.
   Um gênio que só não é compreendido por cabeças de palha, analfabetos políticos e hipócritas de ocasião. Ao invés dos gabaritos das praias da Ilha, deveriam saber do gabarito deste filho da Bahia.
   Queriam saber quais serviços Gil prestou à cidade.
Calceteiro das ruas não foi. Carteiro tampouco. Motorista de ônibus ou enfermeiro também não.
   Gil está para o Brasil como os Beatles estão para o mundo.
Gil acalentou o sonho de muita gente. Alegrou muitos corações. Inclusive aqui na cidade.
 
   E ao Tribunal Especial de Julgamento só podemos desejar Feliz Natal e próspero Ano Novo.
   Esperando que o adiar não signifique esquecer. Afinal, depois do estardalhaço feito na CPI da ALESC, inclusive pelo deputado requerente do adiamento da votação do pedido de Impeachment previsto para 14 de dezembro e prontamente atendido, não queremos imaginar que a amnésia venha se somar à pandemia.
 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

AO TRIBUNAL ESPECIAL DE JULGAMENTO

  por Marcos Bayer

   Este artigo é uma homenagem ao Presidente Itamar Franco, sucessor de Fernando Collor em razão da renúncia diante do pedido de impeachment em 1992.

   Itamar Franco foi um político correto.

   Marcado está para o dia 14 de Dezembro próximo, a apreciação de mais um pedido de impeachment do governador Moisés da Silva

   Desta vez serão apreciados alguns itens relativos aos gastos realizados ou pretendidos durante a pandemia do Coronavírus.

   Esta será uma oportunidade para banir da vida pública pessoas de discurso fácil sem qualquer compromisso com o interesse público.

   Não vou falar dos detalhes da operação de R$ 33 milhões de reais pagos antecipadamente por respiradores chineses que não chegaram ao Ocidente.

   Nem do hospital de campanha de R$ 76 milhões pretendido em Itajaí. Nem das bandalheiras nos portos de Santa Catarina, agora investigadas pelas autoridades competentes.

   Nem de uma verba publicitária de R$ 2,5 milhões paga a uma agência de publicidade para ensinar ao cidadão como conviver com a pandemia, quando todas as estações de rádio e televisão falam em lavar as mãos e usar máscaras, mantendo um distanciamento mínimo de dois metros, uns dos outros.

   Nem falarei das festas no palácio residencial para comemorar o isolamento governamental. Nem da boçalidade ou da presunção cega incomum aos sábios.

   O Tribunal Especial de Julgamento representa o povo catarinense. São cinco parlamentares e cinco juízes de segundo grau.

   Escrevo como representado. Peço que lembrem das verbas publicitárias fáceis que irrigam a formação da chamada informação livre e independente dos órgãos de comunicação e seus porta-vozes. De uma meia dúzia de publicitários que vive nababescamente do fruto dos tributos dos catarinenses. E que ainda zombam de todos nas festas divulgadas nos meios sociais. Como se não bastassem os fundos partidários, regiamente pagos aos partidos políticos, ainda fazem a festa da propaganda vendendo candidaturas como se fossem marcas de sabonete.

   Onde está a ética da vida pública? Onde estão os homens de Estado? Onde foi parar a decência.

   Lembro do Senador José Paulo Bisol, um dos membros da CPI que levou Fernando Collor ao beco sem saída.

   Dizia ele: Há uma ética da obediência e uma ética do dever, como ensinou Goethe

   Na ética da obediência, o pai diz ao filho para não nadar em determinado rio, sob pena de afogamento, em razão da forte correnteza.

Na ética do dever, o filho desobedecendo ao pai, joga-se nas águas do mesmo rio para salvar a vida de seu amigo, já próximo da morte pela fúria das águas.

   Este conflito ético alguns deputados deverão viver. Obedecer ao acordo do golpe ou desobedecer e salvar Santa Catarina.

   Temos uma oportunidade única para mostrar que Santa Catarina é um Estado de gente digna e não uma esbórnia como querem fazer.




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Genial! O relato mais fantástico que li sobre O GOL de Maradona!

 10.6 segundos

de Hernán Casciari

   Se llama Alí Bin Nasser y, mientras los otros corren, él camina despacio. Tiene cuarenta y dos años y está avergonzado: sabe que nunca más será llamado a arbitrar un partido oficial entre naciones.

   También sabe que si, doce años antes, cuando se lesionó en la liga tunecina, le hubieran dicho que estaría en un Mundial, no lo habría creído. Tampoco la tarde en que se convirtió en juez: en Túnez no es necesario, para acceder al puesto, más que tener el mismo número de piernas que de pulmones.

   Cuando dirigió su primer partido descubrió que sería un árbitro correcto. Fue más que eso: logró ser el primer juez de fútbol al que reconocían por las calles de la ciudad. Lo convocaron para las eliminatorias africanas de 1984 y su juicio resultó tan eficaz que, un año más tarde, fue llamado a dirigir un Mundial.

   En México le pedían autógrafos, se sacaban fotos con él y dormía en el hotel más lujoso. Había arbitrado con éxito el Polonia-Portugal de la primera fase, y vigilado la línea izquierda en un Dinamarca-España en donde los daneses jugaron todo el segundo tiempo al achique; él no se equivocó ni una sola vez al levantar el banderín.

   Cuando los organizadores le informaron que dirigiría un choque de cuartos —nunca un juez tunecino había llegado tan lejos—, Alí llamó a su casa desde el hotel, con cobro revertido, se lo contó a su padre y los dos lloraron.

   Esa noche durmió con sofocones y soñó dos veces con el ridículo. En el primer sueño se torcía el tobillo y tenía que ser sustituido por el cuarto árbitro; en el sueño, el cuarto árbitro era su madre. En el segundo sueño saltaba al campo un espontáneo, le bajaba los pantalones y él quedaba con los genitales al aire frente a las televisiones del mundo.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Da série perguntar não ofende:

Será que com a ida do chefe de gabinete do deputado Júlio Garcia para a Secretaria da Casa Civil do governo de Carlos Moisés outro aliado de primeira hora do deputado, Nelson Castello Branco Nappi Júnior, voltará para o cargo de secretário-adjunto de Administração?

As laranjas eram podres

 por Marcos Bayer


   A Constituição Estadual:
Art. 196. Aos Procuradores dos Poderes do Estado e aos delegados de polícia é assegurado o tratamento isonômico previsto no art. 26, §§ 1º e 2º, aplicando-se-lhes o disposto no art. 100, I a III.

   Este artigo é uma homenagem ao Professor de Direito Constitucional na UFSC, Márcio Collaço. Ao Dr. Sobral Pinto e ao Dr. Afonso Arinos de Mello Franco.
   Todos os três, cada um à sua maneira, ensinam que a Lei Constitucional é sagrada.
   Um certo cidadão catarinense, parece que advogado público, resolveu protocolar na ALESC, pedido de impeachment contra o governador por cumprimento ao dispositivo constitucional.
Argumentou que ele cometera crime por executar o que a Lei determina.
   No dia de Santa Catarina, 25 de Novembro, o TJSC disse que cumprir a Constituição não é crime. Ainda bem.
   O engraçado é que o presidente da ALESC, Júlio Garcia, recebeu o pedido do tal advogado público, submeteu à análise da sua douta consultoria jurídica e chegaram a conclusão de que obedecer a Constituição é crime.
   Pois bem, mais de 75% dos senhores deputados acataram a tese. Com fúria beirando ao fanatismo, votaram: Afastem o governador. No primeiro escrutínio do Tribunal de Julgamento, o placar foi 6 x 4 pelo afastamento do governante. No segundo escrutínio, por 6 x 3 votos Moisés foi absolvido.
   Tivesse vocação para o poder, subiria na absolvição, empunharia a espada de oficial e iria governar.
   Mas, não sabe o que é governar e nem apetite tem para tanto. Tanto é que após aposentadoria de comandante, foi secretariar um vereador do sul, depois conhecido por Esmeraldino, o portuário.
   De tanto falar em entregas, acabou entregando o governo a seus algozes.
   Lá em Tijucas, aprendemos desde meninos, que a entrega é feita pelo leiteiro, pelo padeiro e pelo carteiro. E que quem é governo, governa.
   Moisés recebeu do povo catarinense o poder para quebrar uma estrutura de poder viciada e prejudicial ao interesse público. Mas, como todo boçal suburbano não entendeu a mensagem. Preferiu a cerveja artesanal, a viola e a vergonha a que foi submetido.
   Moisés retorna ao poder, até que se decida sobre o segundo pedido de impeachment. Aquele dos respiradores chineses pagos antecipadamente no valor de RS 33 milhões.

   Moisés, como se diz entre os que conhecem a doma de cavalos, foi cabresteado pelo PSD e outras forças políticas.
Está pronto para ser montado. Será uma marionete com empáfia e pseudo sapiência. Vai passar dois anos "entregando" não sabemos o que, ainda. Chegou como o Cavaleiro do Santo Graal e agora é o ajudante do vigário.
   Quanto aos deputados, voláteis como o gás metano, salvo exceções, recomenda-se ler e estudar a Constituição.
   Vamos agora para o próximo pedido de impeachment. E, depois, ainda temos um terceiro pedido de impeachment, fruto da CPI dos respiradores chineses pagos antecipadamente.
   Se não me engano a Augusta Casa tem uma escola de formação para qualificar seus funcionários.
   Seria o caso de abrir uma classe extra para os senhores deputados, nas matérias ÉTICA e CONSTITUCIONALIDADE.
   Aprender nunca é demais.
   Aos membros do Judiciário catarinense, membros do Tribunal de Julgamento, presidido pelo Dr. Roesler, parabéns pelo preparo intelectual e acuidade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Ali babá e os seus babões

por Marcos Bayer

  É uma releitura do clássico persa, parte do imaginário humano, durante séculos.
   Este artigo é uma homenagem a um descendente de italianos, de segunda geração, como muitos que fizeram a história de Santa Catarina.
   Filho de Joaçaba, advogado, vereador, quatro mandatos estaduais, deputado e presidente da ALESC, presidente do Tribunal de Contas, Consultor Chefe do Estado e professor.
   Nelson Pedrini foi político numa época em que a Política era praticada com mais hombridade. Mais preparo e mais cultura.
   Os atuais deputados estaduais, em número superior a 75% da composição da Augusta Casa, já votaram pela admissibilidade de dois pedidos de impeachment, contra o governador e um contra a vice governadora.
   Deste ela já se livrou..
   Ele aguarda o desfecho afastado e ela está no exercício do cargo.
   Isto todos sabem.
   O que não sabem, é que aquela vontade esmagadora em derrubar o governador está empalidecendo.
   Surgem rumores de que os chefes do executivo e do legislativo aventam um acordo.
   Rumores, são rumores.
   Podemos e devemos, com muita atenção, acompanhar o andamento dos processos na ALESC.
   O golpe inicial já foi debelado. Mas, as areias do deserto ainda podem ofuscar a visão de alguns.
   E o tilintar das moedas de ouro do mercador de Bagdá pode provocar sorrisos escusos protegidos pelas noites cintilantes dos céus das Arábias.
   O fascínio pelo poder e pela fortuna fácil são tentações previstas no Al Corão.
   Cabe à imprensa catarinense, sempre aprimorada por estímulos misteriosos, funcionar de forma impermeável às regras do Bazar.
 
   Salam salamaleiko salam.


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Os últimos dias de Gilberto Dimenstein. Forte. Comovente!

A descoberta do dengo

O comovente livro em que Gilberto Dimenstein e Anna Penido registraram as últimas semanas de vida do jornalista (FSP)
 
   O “caranguejo que me comia por dentro” — como Gilberto Dimenstein chamava o câncer que surgiu em seu pâncreas e, em meses, foi alongando as garras até atingir o fígado e os pulmões do jornalista — estava sem controle. Haviam se passado seis meses de tratamentos agressivos, quando o médico anunciou para ele e Anna, sua mulher, que nada havia adiantado.

   Chegando da consulta, ela decidiu ligar para o médico. Queria fazer perguntas que não teve coragem de fazer na frente do marido. Gilberto não quis ouvir a conversa e foi para a edícula, um refúgio em meio ao enorme jardim da casa em que moravam. Anna ouviu do especialista a palavra que ninguém enfiado nos círculos infernais do câncer quer ouvir: “terminal”.

   Também jornalista, baiana dedicada à educação e às causas sociais, ela caminhou até a edícula e disse ao marido que só contaria o que ele quisesse saber. “Gil quis assistir um filme, comigo ao lado. Colocou Jojo Rabbit (uma sátira à Alemanha de Hitler) pra rodar. Ele adorava ver filme em que os nazistas se ferram. Quando acabamos, contei tudo pra ele”, me disse ela, em uma de nossas conversas pelo telefone, quando saía às pressas de uma loja. Tinha caído no choro na hora de pagar as compras. A cena se dava seis meses depois da morte do marido. O luto, assim como o mal que levara Gil, Anna estava sentindo, é ardiloso.

   A morte veio três semanas depois do filme na edícula. No livro que escreveram juntos, contando sobre os dias em que a doença se espichou, Anna descreve como o marido partiu, na cama deles, depois de quatro dias de despedidas. Nesse tempo, ele quis comer a empanada de frango do Bar do Zé, perto dali, gravou o último depoimento para o livro e chorou, de mãos dadas com a mãe, os irmãos e por último os dois filhos. Desculpou-se por não ter sido mais afetuoso e ouviu deles que era muito amado.

   As horas finais, diz o comovente e lúcido relato de Anna, se deram assim:

   Você estava sedado. Na madrugada, o meu corpo sentiu saudades e atravessou a extensão do nosso colchão para se colar ao seu. Sua respiração se agitou e seus braços começaram a se debater, como se quisessem me envolver em um abraço que se desfazia no meio do caminho. A enfermeira aumentou a dose de morfina, mas você só se acalmou quando voltei para a outra extremidade da cama […] Em um determinado momento, achei que já estava na hora e pedi para você se imaginar entrando naquele barquinho vermelho e amarelo que navegava nas suas alucinações […] e deslizasse pelas águas tranquilas do rio que margeia a ilha do Mosqueiro [no Pará], abrigo das suas memórias de infância. […] Uma lágrima escorreu dos seus olhos cerrados e sua respiração ficou mais grave e arrastada. Não demorou muito para que estivéssemos todos reunidos à sua volta. Gabriel e Marcos [filhos dele] aninhados na cama conosco, Joana [filha dela]ao telefone lá de Lisboa. Ouvimos juntos a sua música tema, “Clube da Esquina 2”. “Porque se chamava homem, também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem".

   Ninguém escolhe como nasce, mas a gente pode escolher, se tiver alguma sorte, como vai morrer. E eu escolhi me render, me deixar levar, me disse Dimenstein, quando estivemos juntos, dois meses antes de sua morte, em maio. Ele tentava me convencer que o câncer estava lhe dando os melhores dias de sua vida e que por isso estava satisfeito em ir embora. No livro, o jornalista explica como adotar essa atitude diante da morte lhe foi possível.

   Sentia-me um analfabeto emocional […]. Eu fazia reportagens, escrevia livros, ganhava prêmios, mas era um zero à esquerda nos relacionamentos [...] Cheguei aos 63 anos cercado de pessoas que me desprezavam ou me admiravam, mas sem um círculo de amigos próximos. [...] Meu filho Marcos ainda era bem pequeno quando a professora pediu que desenhasse a nossa família. No desenho, ele estava de frente, de mãos dadas com a mãe e o irmão Gabriel, e eu estava de costas, trabalhando no computador. Fiquei muito perturbado com aquela imagem.

   O câncer chegou um ano e pouco depois que o filho de Marcos, primeiro neto de Dimenstein, nasceu. Com Zeca, o jornalista descobriu o dengo.

   Meu neto era antídoto para muitos dos meus desconfortos com a doença. Quando vinha dormir conosco, a Anna passava uma hora cantando cantigas de ninar. Deitava ao lado deles e parecia que era eu que estava sendo colocado para dormir. Mas ninguém dormia, pois o Zeca perguntava a todo momento: “Por que o coelho comeu a cenoura com casca e tudo? Por que o pato bateu no marreco?” Aquela tempestade de porquês me fascinava. Quando dormia na nossa cama, passava a noite girando até ficar atravessado entre mim e a Anna. Eu adorava acordar de madrugada e vê-lo deitado naquela posição. Sentia um amor incondicional, um contentamento que nunca tive. [...] Seus pais comentavam algo sobre mim, quando ele [então com dois anos] profetizou: “O tempo passou o homem. Vovô vai virar luz. Luz na bunda do vovô”.

   O tratamento quimioterápico causava em Dimenstein esgotamento físico. Como ficava a maior parte do tempo deitado, resolveu assistir a filmes antigos. “Revi O poderoso chefão e me espantei com as cenas de Marlon Brando dialogando com Al Pacino. Eu pensava: ‘Como não vi essas expressões antes?’ Não vi porque o meu corpo estava no cinema, mas a minha mente vagava por outro lugar”, analisa. “Eu nunca estava presente. Estava sempre afobado.” O câncer, ele conta, abriu seus olhos para as sutilezas, como a do vermelho escandaloso das helicônias que cresciam no jardim de sua casa, que ele via todo dia, quando tomava café da manhã, mas nunca tinha notado.

   Nos dias em que se sentia mais forte, o jornalista se entregava ao prazer das sensações corpóreas. “Pedalava minha bicicleta e sentia o vento beijar o meu rosto. Às vezes, estava deitava de frente para a janela do meu quarto e a brisa vinha brincar com os meus pés. Muitas dessas sensações me fizeram lembrar da minha infância, quando ainda não tinha sido corrompido. [...] Tomar um sorvete de limão siciliano com maracujá no meio da tarde passou a ter um significado diferente. Lambia a minha casquinha e compreendia que ninguém ao meu lado seria capaz de imaginar o prazer que aquele sorvete me dava.” Dimenstein ainda me contou que tomava canabidiol para dormir e que estava adorando, porque com ele tinha sonhos lindos. Um dia, exagerou na dose do remedinho, e Anna o encontrou dormindo com o rosto no prato de comida.

   Gilberto Dimenstein era um homem culto, encrenqueiro, sedutor imparável, preocupado com causas sociais, por vezes rude, e engraçado. Ele conta no livro situações envolvendo essas características, sem uma gota de modéstia e com a autodepreciação clássica dos bons escritores judeus — sua ascendência é sefardita. Já no fim da vida, por exemplo, um médico quis fazer mais uma de um caminhão de tomografias a que ele vinha se submetendo para ver que órgão agora o caranguejo tinha beliscado. Ele disse ao doutor: “Não vai adiantar. Toda vez que faço uma ‘tomo’, sou eu que tomo no cu”. Na mesma época, ligou para a ex-mulher. “Pedi desculpas por não ter sido um bom marido, e ela me confessou que lamentava não ter me dado uns tapas. Comentei: ‘Olha, perdeu a chance, porque, agora que estou velho e doente, vai pegar mal pra burro se você me bater’.”

   Veja, CBN e O Globo foram alguns dos lugares onde trabalhou, mas foi na Folha de S.Paulo, onde atuou por 28 anos, que Dimenstein realizou suas principais reportagens. Investigou casos de corrupção em Brasília — virou detrator do coronel baiano Antônio Carlos Magalhães —, desvendou esquemas de assassinato de meninos que viviam na rua e de redes de exploração sexual de meninas pobres do Norte e Nordeste. “Ajudei a criar organizações sem fins lucrativos importantes; mais adiante, fundei o portal Catraca Livre, que sempre deu destaque a temáticas cidadãs. [...] Sabia que a minha contribuição tinha sido modesta, nada que pudesse se comparar a personalidades como Martin Luther King, Mahatma Gandhi e Konrad Adenauer. Perto desses gigantes, me via como um pernilongo. Mas, diante de mim mesmo, sentia que havia sido um Luther King, um Gandhi, um Adenauer.”

   A doença agarrou Dimenstein num momento em que ele estava forte. Parara de fumar havia décadas, de beber, fazia seis anos (“Era um prazer imenso acordar cedo, tomar café e, em seguida, beber um Jack Daniel’s”, ele conta no livro, sobre um antigo hábito). Não tomava café nem comia carne vermelha, pedalava por horas e fazia musculação quase todo dia. A decisão foi tomada meio a contragosto (“Sempre tive um pouco de desprezo por quem fazia esporte. Achava que era desperdiçar um tempo que poderia ser mais bem utilizado com leitura e estudo”), ao perceber dificuldades para carregar o neto. Dois meses antes tinha feito check-up: estava tudo ok. Mas uma noite ele teve um sonho.

   Em A interpretação dos sonhos, Sigmund Freud discorre sobre diversos casos em que pacientes “descobrem” doenças quando estão dormindo: “Aristóteles já declarara ser bastante provável que o sonho chame nossa atenção para estados patológicos incipientes dos quais ainda nada se percebe na vigília, e autores médicos, cujos pontos de vista certamente estão distantes da crença nos dons proféticos do sonho, pelo menos admitiram sua importância no anúncio de doenças”. Algo nesse horizonte pode ter acontecido com Dimenstein. Ele escreve:

   “Você está com câncer”. Foi uma coisa muito rápida. A mulher aparecia de corpo inteiro, vestida com uma roupa escura, mas eu só me lembro do seu rosto iluminado [...] Não parecia um ser etéreo, mas uma médica confiável, apresentando um diagnóstico”.

   Intrigado, já que gozava de boa saúde, resolveu procurar um médico. E assim, descobriu o bicho.

   Em meio a todas essas impactantes experiências, a que mais emocionava o jornalista era a que ele vivia com Anna Penido, sua mulher, àquela altura, fazia vinte anos.

   Eu não sabia o que era o amor de verdade, nem que seria possível amar outra pessoa com tamanha profundidade. Nunca imaginei que experimentaria o nível de cumplicidade que passei a ter com a Anna [...]. Quando acordava na madrugada e abraçava o corpo dela, sentia como se minha alma degelasse [...]. O grande momento do dia eram as sessões de massagem da Anna. O ritual começava com um banho demorado. Eu sentava em uma cadeira plástica, embaixo daquela água quente, sentindo desaparecerem os cheiros do vômito, da urina e da doença. Com a pele ainda úmida, deitava atravessado no colchão, e a Anna tocava delicadamente os meus pés. Sentia as mãos dela subindo pelas minhas pernas, alcançando as minhas costas, mas nunca me lembrava do final. Eu dormia experimentando aquele gozo relaxante e sorria ao pensar que a nossa relação ficava cada dia melhor.

   Ainda jovenzinha em Salvador, Anna conheceu Dimenstein, que já era um jornalista famoso, pela televisão. Ela sofria bullying na redação, onde era chamada de “menina que toma conta da creche” por só querer dar boas notícias. Nos anos seguintes, a vida primeiro, e depois um buliçoso desejo ajeitaram para que se encontrassem em palestras e seminários, justamente sobre boas notícias: projetos na área da educação. Ambos eram casados, mas não foi possível ignorar o que sentiam. No primeiro jantar a sós, num restaurante do Rio, no dia do aniversário do jornalista, o corpo de Anna tremia de tensão, quando, do nada, uma taça de cristal estourou na mesa. Dimenstein contou a ela que os judeus quebram copos nas cerimônias de casamento. E prenunciou que eles ficariam juntos. Juntos, por duas décadas, tocaram uma porção de trabalhos.

   Gil morreu antes que o livro ficasse pronto. Dias depois do sepultamento, Anna refugiu-se sozinha na casa de montanha do casal. Sentada numa escrivaninha de madeira, editou os escritos do marido e anexou ao livro suas próprias memórias.

   “Sou grata a você por um milhão de motivos, mas me sinto especialmente agradecida por você ter me engravidado deste livro”, escreveu. Deixou registrada também, para quem for forte o suficiente para ler, a última gravação que o marido fez.

   Eu não costumo chorar assim, mas este choro é o mérito de um grande amor, em que eu fui muito abaixo dela. Eu agradeço por ter conhecido esta cumplicidade. E, neste momento, o meu livro acaba.
 
Gilberto Dimenstein e Anna Penido
Os últimos melhores dias da minha vida
Ils. Paulo von Poser
Record • 140 pp • R$ 34,90 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Como se roubam nas eleições americanas

 



 
                por Natalia Viana, codiretora da Agência Pública 
   
   Quando, na noite de quarta-feira, o estado americano de Nevada interrompeu sua contagem com apenas 8 mil votos de diferença, anunciando que só atualizaria os números na quinta pela manhã, senti um frio na espinha.

   Imediatamente me vieram à cabeça duas eleições recentes no continente. Em 2018, em Honduras, quando a apertada contagem de votos para a disputa presidencial foi suspensa por uma “queda no sistema” e dois dias depois o presidente apareceu reeleito, seguiram-se diversos e violentos protestos. No ano passado, a suspensão temporária da contagem rápida para as eleições bolivianas levou a protestos, acusações de fraude e ao exílio do presidente Evo Morales.

   Seria diferente, se os Estados Unidos da América fossem ainda a mais sólida democracia do continente. Mas basta ouvir as ameaças contínuas de Donald Trump e de seus eriçados seguidores para perceber que o país do norte está tão à mercê de aventuras autoritárias quanto os nossos.

   Donald Trump tem se aprimorado em desestabilizar a democracia dos EUA de maneiras sem precedentes. Muito antes do dia de votação, já avisava que não ia aceitar nenhum resultado que não fosse sua vitória – e que ia entrar na justiça para isso. Durante a dolorosa milonga em que se transformou a contagem dos votos, entrou com processos contra as normas da Pensilvânia e para pedir a recontagem de votos em Michigan e Wisconsin.

   Nada novo para Trump, que vem há décadas subvertendo o sistema americano com a sua matilha de advogados bem pagos e sem caráter. No livro “American Oligarchs”, a jornalista investigativa Andrea Bersntein demonstra como ele repetidamente evadiu milhões de dólares em impostos, fugiu de investigações, comprou testemunhas e contratou a altos salários procuradores que antes o investigavam. Foi assim que conseguiu montar seu império de entretenimento, que vai de hotéis e cassinos de luxo e campos de golfe, sempre com a marca do terrível mau gosto – império esse que, conforme apontam diversas investigações, pode ser apenas uma grande lavanderia de dinheiro para oligarcas russos.

   Mas Trump não está sozinho nessa. Há pelo menos uma década são exatamente as Cortes que vêm apoiando a derrubada de presidentes na América Latina. Foi a Suprema Corte de Honduras que deu legitimidade ao golpe de estado contra Manuel Zelaya em 2009, quando ele foi sequestrado da sua casa no meio da noite. No Paraguai, depois de um impeachment que durou 24 horas, a Corte Suprema, parcialmente financiada pelos EUA, também deu seu aval. Aqui, nem se fala.

   A verdade é que os juízes do continente também estão bem contentes com o protagonismo que lhes tem sido dado. Afinal, em meio ao esfacelamento da democracia, a política tem virado um caso para os tribunais.

   Vale lembrar que, há 20 anos, foi a Corte Suprema americana que suspendeu a recontagem de votos na Flórida, permitindo que Bush ganhasse o estado – e a presidência – por apenas 537 votos. Dessa vez, Joe Biden já avisou que vai até o fim: os democratas reuniram milhares de advogados voluntários para a batalha legal que começa agora. E que deve ser longa.