terça-feira, 8 de janeiro de 2013

R.İ.P. meu amigo Jerry

   Por Les Paul Corvette

   Caro Amigo
   Navego ao largo de Turkey and Caicos entre as Bahamas e St John, no Caribe. Estou três horas atrás no fuso, meio borracho de rum e, no escuro da cabine, um sinal da WEB apareceu em meu velho Sİİ que carrego sem chip. Há uns três anos, batendo perna com meu filho por Nassau, um porto que recebe mais de 50 milhões de dólares por mês dos turistas, gravei dez minutos da voz mais linda que até hoje eu e ele encontramos cantando nas esquinas do mundo. 
   Em 2009/2010, saindo do cassino do Atlantis Hotel, Leo me levava meio tropego pelas ruelas de Nassau para o navio. 
   - Pai, pai... ele me alertou ao passarmos por mais uma loja de bebidas... 
   - Já bebi demais! disse-lhe amarelando. Ele respondeu, então com apenas 12 anos, enfático: 
   - Ouve!
   Uma voz doce como o melhor mel, suave como o melhor veludo, leve como o melhor algodão, vinha de uma das galerias que levam ao porto. Nela conheci Jerry. Um negro azul, barbas e cabelos brancos, cantando sozinho em um canto da passagem mais escura do acesso. Um Panamá carcomido guardava a pobre messe de parcas moedas. A grana miúda e os transeuntes apressados não diminuiam a emoção com que o velho cantava no melhor estilo do delta do Missisipi uma pungente balada dos The Beatles. Sinalizei, sem ousar interrompê-lo, e ele assentiu que gravasse com a handcam. Paramos no meio da galeria, e a cada leva de passantes que se aproximava, sacávamos 1 dolar e colocávamos no chapéu. Um casal de idosos parou, outro casal gay também, e a cada 'buck' depositado por nós, outros pingavam. As pessoas nao paravam muito tempo, sequer ouviam Jerry. Ele deu una piscadela agradecido, sacando nossa manobra para engordar sua féria. 
   Hoje pela manhã fui em busca de Jerry. Ninguém tocava na mesma galeria. Hordas de turistas passavam apressados, o porto nao tinha mais apenas nossa modesta traineira. Seis grandes navios estavam atracados. Minha mulher e minha filha foram em busca de souvenirs, Leo ficou com a amiga australiana com que passara a noite de ontem e eu sai perseguindo alguma pista de Jerry. Depois de alguns balcões de fórmica puída e shots de rum añejo, veio a informação, dada por uma mulher enorme, lenço colorido encimando a cabeça. Meio desconfiada, disse-me como num passe: 
    - Moe, está montando seu teclado perto do mercado. Ele vai contar o que ouve com meu Jerry.
   Dei-lhe às costas além da bebida aviada. Mas ela puxou minha manga. Achei que queria uns trocados além do rum que lhe pagara. Apenas olhou-me no fundo dos olhos, quicou seu copinho de trago no meu e esboçou um esgar, ou o que lhe parecia um sorriso.
   Encontrei Moe montando um Korg de 5 oitavas e dois decks próximo ao Mercado central de Nassau. 
   - Hei, Moe. İ'm LesPaul...
   Ele me olhou tão fundo quanto a mulher que dera a pista, e que agora eu sabia ser sua tia e sem muito dizer, choramos sem lágrimas copiosas a morte de Jerry ocorrida há pouco mais de um ano. Abandonado num abrigo de indigentes, com ele se foi a mais linda voz que Lenon, Harrison, MacCartney ou Ringo desejaram algum dia para dar vida aas suas canções. 
   R.İ.P. meu amigo Jerry.

2 comentários:

Anônimo disse...

RIP...

Vera Varela disse...

Mr. Paul,
Pelo visto, Nassau emociona a família. Num belíssimo domingo pela manhã, ao embarcarmos num táxi conduzido por um senhor de idade provecta fomos brindados com uma missa gospel com transmissão radiofônica ao vivo, i n e s q u e c í v el. Ao chegarmos ao Porto, ainda entorpecidos, fomos brindado com um afinadíssimo coral tendo como solista uma senhora de voz irradiante daquela que lava a alma... Voltamos ao navio purificados com tamanha emoção que Nassau nos proporcionou. Bjs. tua PrimaVera